Blog do Santinha

Crônicas, opiniões, desabafos e comemorações sobre o Santa Cruz Futebol Clube e a torcida mais apaixonada do Brasil

Tudo de ruim pro frouxo, tudo de bom pra nós!

Por Gerrá da Zabumba

O técnico foi embora. Passou o dia negociando com a turma do chié e foi posar de bom moço falando mentiras na imprensa, negando que tivesse se reunido com a turma da Abdias, dizendo que tinha passado a tarde correndo no calçadão de Boa Viagem.

Pense num cabra frouxo, esse Marcelo Martelotte. Um bicho velho que se comportou feito um maloqueiro. Daqueles que na hora do pega pra capar, amarela e se esconde num toca.

Mas, enfim…! Já estou calejado de ver essas presepadas no mundo da bola. Aquela de Túlio que vestiu a camisa da leoa e no mesmo dia se mandou pro nosso Santa Cruz foi antológica.

No futebol, meus camaradas, a palavra molecagem faz parte do código de ética. E o que não falta nesse esporte, é gente sem caráter.

Desejo de todo coração que ele cumpra o contrato novo emprego e no final seja rebaixado para terceira divisão. Torço fervorosamente para que ele não dê certo na Ilha da Fantasia e saia de lá com o currículo recheado de derrostas. Tenho fé que isso vai acontecer.

O fato é que nossos inimigos locais, a coisa-rosa e a coisa-cachorra, se ligaram e estão vendo que aos poucos o Santa Cruz vai se fortalecendo. No futebol são três títulos estaduais seguidos, vários jogadores da base se revelando, uma estabilidade política que há muito tempo não se via dentro do clube e uma torcida que não foge à luta. Isto incomoda e assusta muita gente.

Quem está do outro lado se borra todo quando enxerga a possibilidade do Clube Mais Querido de Pernambuco fincar o pé na Série B e depois chegar à Série A.

Mas a sericê está na porta e o tempo voa.

Espero que a diretoria, assim como fizeram em 2011 e 2012, consiga manter o elenco. Sim, e que traga algumas peças para qualificar o grupo.

Espero também que Antônio Luiz Neto e seus diretores não durmam no ponto e contratem logo um treinador.  Um técnico que chegue e tenha plena noção da grandeza do nosso clube. Um professor que venha com o coração aberto e se abrace com a paixão da nossa torcida. Que imponha um futebol alegre e bonito, daqueles que levanta a poeira na arquibancada, faz o morro frevar de felicidade e o povão abrir o sorriso na segunda-feira.

Como bem disse Carlinhos no seu Blog de Primeira, um treinador que não atrapalhe, com invencionismos e necessidade de aparecer.

Sigamos em frente. O mundo gira.

Dia 02 de junho estaremos no Arruda, para o que der e vier. Porque o nosso amor, os rivais nunca poderão contratar.

ps: Nosso presidente faz aniversário hoje. Aproveito o ensejo para desejar felicidades, paz e muitos anos de vida para Antônio Luiz Neto.    

Tricampeonato para o avanço da ciência

Por Julio Vila Nova

Depois de encarar um regulamento esculhambado e uma campanha descarada pela realização do terceiro jogo, encampada pela tv gogo, fpf, arbitragem da final e diretoria da coisa, eis que a conquista do tricampeonato na casa de festejos do trivice trouxe à tona um fenômeno até então desconhecido da ciência. Estudiosos do comportamento, psicólogos sociais, neurolinguistas, psiquiatras, psicanalistas e parapsicólogos ainda tentam classificar o surto coletivo até agora descrito como uma nova síndrome, já batizada de distúrbio psiconeuroalfabético.

As manifestações do delírio têm sido registradas apenas por adeptos das torcidas bicolores, ao serem expostos, mesmo que involuntariamente, à representação gráfica ou ao som dos fonemas correspondentes às letras C e D. O primeiro sinal foi verificado no aeroporto dos Guararapes, nesta terça-feira, quando foi anunciado o embarque de certo voo com passageiros torcedores aristocráticos da elite aflita da cidade, junto com adeptos de certa moda futebolística que grassou nos anos 90. Ao ouvirem o anúncio “embarque imediato portão C” os indivíduos tiveram reações estranhas, como tremores incontroláveis, e começaram a falar para si mesmos, repetindo coisas ininteligíveis e frases como “de novo? Como é que pode? perder pra C…tá na C…” Alguns se recusaram a embarcar e saíram às pressas do local.

Diversas ocorrências semelhantes têm sido registradas em locais públicos onde as letras C e D estão expostas, como terminais de ônibus e estacionamentos. Num dos shopping centers da cidade, foi registrado ontem grande tumulto nas áreas indicadas por essas letras, quando torcedores do trivice e do faz-é-tempo-que-numganha se deram conta que estavam ali, passando a exibir comportamento psicótico e grande confusão mental, discutindo com funcionários e repetindo insistentemente as mesmas frases.

A preocupação agora é com as crianças e jovens em idade escolar, que precisam se submeter a avaliações de múltipla escolha. A tendência já revelada em algumas escolas é a de que os estudantes evitarão marcar as duas letras, nas provas, o que pode causar um problema pedagógico importante. Alguns donos de escola, também torcedores bicolores, estão chegando ao cúmulo de orientar os professores a não incluir as letras entre as opções de resposta, numa tentativa desesperada de driblar o problema. Uma solução mais factível, para o bem das crianças, é orientá-las a torcerem pelo Santa Cruz, evitando assim esse tormento.

Consultados sobre a questão, estudiosos torcedores do Mais Querido tricampeão analisam que o problema é decorrência de uma condição mental maníaco-depressiva causada pela sensação de megalomania que acomete os adversários perdedores. Numa análise preliminar, foram registradas postagens nas redes sociais com frases do tipo “a derrota de um gigante repercute mais do que a vitória de um pequeno”, desde o ano passado, revelando os primeiros sinais da chamada teoria de Golias, por parte de torcedores do segundo maior clube da Abdias de Carvalho. Esses indivíduos também passaram a postar listas de títulos, reais ou fictícios, numa tentativa de reafirmação de uma suposta grandeza intrínseca. Esses efeitos, porém, foram verificados em menor número este ano.

Os adeptos do clube de Rosa e Silva, por sua vez, têm revelado outra forma de manifestação do distúrbio psiconeuroalfabético, que está resultando, inclusive, em sérios problemas de relacionamento, nos vários círculos de suas relações sociais. O problema é que a cada dez frases proferidas, em onze eles repetem a expressão “série A”.  A qualquer menção ao fato de terem sido ajudados, não faz muito tempo, por um clube carioca também conhecido por seus adeptos aristocráticos e ornamentados com pó-de-arroz, os torcedores recifenses apresentam imediatos sinais de amnésia, ao ouvirem a letra C, o número 1999 e a expressão “virada de mesa”.

Enfim, a esperança é de que em breve o problema seja minimizado, ou completamente resolvido, com a ascensão do Santa Cruz à série B, já em 2014, com o encontro dos três clubes no mesmo patamar. Para o bem da saúde mental dos bicolores, que talvez possam encarar as derrotas para o Mais Querido com menos sofrimento.

 

O Manisfesto da vitória

Por Claudemir Pereira, o Mameluco

No último domingo, dia da final do Campeonato Pernambucano de Futebol 2013, publiquei, em minha página no facebook, uma postagem com o título: “O Santa Cruz Futebol Clube e as Lutas de Classe”.

Procurei, em poucas linhas, desenvolver um pensamento onde fosse possível abstrair todo o contexto político/futebolístico/social que uma final de campeonato de futebol envolve quando o Santa Cruz está disputando o título.

E por que disso?

É fácil perceber como a cidade muda quando o representante da poeira chega ao final do campeonato, disputando o título com um dos representantes da classe dominante e como isso mexe com sua torcida. O embate é tão ferrenho que antes mesmo da bola rolar a discriminação, o racismo e a intolerância dos mais abastados se exteriorizam por diversas formas, porém, a mais comum é o velho jargão: A torcida do Santa é formada por três pês, preto, pobre e puta.

A resposta dos Tricolores vem expressada através da solidariedade, pois, mexeu com um, mexeu com todos. O insulto não abala sua autoestima. Pelo contrário, serve de combustível para demonstrar mais uma vez o seu amor. Um sentimento de amor inimaginável.

Um sentimento que lhe move, lhe leva longe, lhe alimenta o espírito e é o propulsor da sua revolução, pois, como diria o argentino/cubano Ernesto Che Guevara, “é o amor que move a revolução”.

A Revolução dos Tricolores não tem pistola, não tem bomba, não tem metralhadora, mas tem um exército que vestido com a camisa do time, como se fosse um uniforme de campanha, ocupa os espaços como quem ocupa uma trincheira e de lá desfere o seu grito de guerra: Uh! É Tricolor!

Na segunda-feira, após o título, tão grande era a euforia das nossas classes menos abastadas, que se um cientista social fosse, de maneira inadvertida, realizar uma pesquisa sobre mobilidade social em Pernambuco, iria se deparar com uma situação que lhe poderia presumir uma radical mudança nas estruturas de classe do Estado.

Bastava ele entrevistar a atendente da farmácia, o porteiro da escola, o garçom do restaurante do Mercado da Encruzilhada, o vendedor de caldo de cana, a moça do cachorro quente e perguntar a que classe eles pertenciam.

Eu pertenço à classe A. A classe da alegria.

Classe em si ou classe para si?

Talvez isto sequer passe na cabeça dos Torcedores do Santa Cruz. É certo que sirva para algum cientista social analisar mobilidade social no universo das torcidas futebolísticas. Porém, a torcida do Santa Cruz Futebol Clube está disposta a quebrar qualquer axioma sociológico para construir sua história de vitórias e títulos, e neste momento corroboram a ideia de Karl Marx, onde tudo é consequência das ações humanas.

Então, após 42 anos, a Torcida do Time do Povo, o clube das multidões, contempla um tricampeonato e festeja tal qual tivesse mudado seu status quo.

Tricolores Corais Santacruzenses, uni-vos!

Na 232, eu gritei “Tricampeão”!

Por Gerrá da Zabumba

Quando a derradeira notícia chegou, era quase nove horas da manhã do sábado.

Sentei, pestanejei devagar, deixei o olhar ir embora, desacelerei a velocidade do raciocínio e fui listando nas linhas do pensamento o que deveria fazer.

Sobrou pra mim, a tarefa de alugar o transporte que nos levaria para o interior. Decidimos a hora e bati o martelo com o cara do transporte: domingo, às 5h30 da manhã, na frente da casa de número 272.

Perto das seis, saímos. Pelos meus cálculos daria tempo de cumprir todo o ritual e voltar para ver a decisão.

O movimento da BR ainda era fraco. Os nossos atletas deviam estar dormindo.

Avistei a placa indicando a Arena da Copa. Um estádio solitário. Sem vizinhança.  Sem o calor dos pretos, brancos e vermelhos. Prefiro o meu Arruda.

A cor da paisagem indica que caiu água.  Lá longe, o verde me leva para o gramado do José do Rego Maciel.

Encostado na janela, Alexandre ronca profundamente. Recordei a vez que ele entrou como mascote. Santa Cruz e Corinthians. Valença anulou Tévis. Naquele 2006, o meu primo era um garoto que tinha vindo da Paraíba. Dali em diante, se apaixonou por nosso preto-branco-encarnado.

Já passamos de Gravatá. Metade do percurso ficou para trás. São quase sete e meia. Comento que chegaremos no horário previsto.

Do lado esquerdo, um desses condomínios de luxo. Do outro, a Serra da Guariba. Lugar onde casei. Moradia do meu sogro Delmes, que logo depois do primeiro jogo da final, mandou um e-mail cujo título era Consolidando o Tri e profetizava assim: Gerrá, este 1×0 é um prenúncio de outras batalhas, sairemos novamente campeões na ilha . Bjs. em todos!

Mirei o relógio. Será que nossos atletas estão tomando café da manhã?

Um açude me leva a recordar que encontrei Seu Adelmo, o pai de Renatinho no intervalo da primeira partida das finais.

As oito e quarenta e cinco, chegamos. Quinze minutos além da previsão. Parte da missão estava cumprida.

Abraços. Apertos de mão. Aos poucos vamos encontrando os parentes e os amigos. O jogo não é o assunto principal das conversas, por alguns instantes esqueço da batalha final.

Encerrada a tarefa e estamos de volta à estrada. Cento e noventa quilômetros nos separam do Recife. Do movimento das ruas. Do cheiro de futebol.

Ah, esse carro que não voa…

Em Caruaru criei coragem e olhei para o relógio. Entreguei os pontos. Não chegaríamos antes das dezoito horas. O coração apertou e baixei a cabeça.

O destino quis que meu tio fosse embora na madrugada do sábado e que a missão de sepultá-lo fosse feita por nós. Tio Cazuza não tinha filhos, nem mulher. Acho que também não tinha time.

Os deuses do futebol quiseram que eu ouvisse o Santa Cruz ser tri-campeão. Me deram somente a oportunidade de parar em Encruzilhada de São João para ver ao vivo na tela da TV, o golaço de Caça-Rato. Vibrei abraçado com um senhor que não sei o nome.

Eu, meu pai, meu irmão e os demais tricolores corais santacruzenses das bandas do Arruda comemoramos o título na BR-232, dentro de uma Sprinter.

Mais tarde, escutando a resenha, comentei com meu velho:

— Não sei o senhor. Mas senti uma saudade danada daquela época que a gente via o taipe no canal onze.

Desde domingo que espero o replay da partida. Só vou sossegar quando encontrar alguém que tenha gravado nosso tricampeonato.

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