Tricampeonato para o avanço da ciência
Por Julio Vila Nova
Depois de encarar um regulamento esculhambado e uma campanha descarada pela realização do terceiro jogo, encampada pela tv gogo, fpf, arbitragem da final e diretoria da coisa, eis que a conquista do tricampeonato na casa de festejos do trivice trouxe à tona um fenômeno até então desconhecido da ciência. Estudiosos do comportamento, psicólogos sociais, neurolinguistas, psiquiatras, psicanalistas e parapsicólogos ainda tentam classificar o surto coletivo até agora descrito como uma nova síndrome, já batizada de distúrbio psiconeuroalfabético.
As manifestações do delírio têm sido registradas apenas por adeptos das torcidas bicolores, ao serem expostos, mesmo que involuntariamente, à representação gráfica ou ao som dos fonemas correspondentes às letras C e D. O primeiro sinal foi verificado no aeroporto dos Guararapes, nesta terça-feira, quando foi anunciado o embarque de certo voo com passageiros torcedores aristocráticos da elite aflita da cidade, junto com adeptos de certa moda futebolística que grassou nos anos 90. Ao ouvirem o anúncio “embarque imediato portão C” os indivíduos tiveram reações estranhas, como tremores incontroláveis, e começaram a falar para si mesmos, repetindo coisas ininteligíveis e frases como “de novo? Como é que pode? perder pra C…tá na C…” Alguns se recusaram a embarcar e saíram às pressas do local.
Diversas ocorrências semelhantes têm sido registradas em locais públicos onde as letras C e D estão expostas, como terminais de ônibus e estacionamentos. Num dos shopping centers da cidade, foi registrado ontem grande tumulto nas áreas indicadas por essas letras, quando torcedores do trivice e do faz-é-tempo-que-numganha se deram conta que estavam ali, passando a exibir comportamento psicótico e grande confusão mental, discutindo com funcionários e repetindo insistentemente as mesmas frases.
A preocupação agora é com as crianças e jovens em idade escolar, que precisam se submeter a avaliações de múltipla escolha. A tendência já revelada em algumas escolas é a de que os estudantes evitarão marcar as duas letras, nas provas, o que pode causar um problema pedagógico importante. Alguns donos de escola, também torcedores bicolores, estão chegando ao cúmulo de orientar os professores a não incluir as letras entre as opções de resposta, numa tentativa desesperada de driblar o problema. Uma solução mais factível, para o bem das crianças, é orientá-las a torcerem pelo Santa Cruz, evitando assim esse tormento.
Consultados sobre a questão, estudiosos torcedores do Mais Querido tricampeão analisam que o problema é decorrência de uma condição mental maníaco-depressiva causada pela sensação de megalomania que acomete os adversários perdedores. Numa análise preliminar, foram registradas postagens nas redes sociais com frases do tipo “a derrota de um gigante repercute mais do que a vitória de um pequeno”, desde o ano passado, revelando os primeiros sinais da chamada teoria de Golias, por parte de torcedores do segundo maior clube da Abdias de Carvalho. Esses indivíduos também passaram a postar listas de títulos, reais ou fictícios, numa tentativa de reafirmação de uma suposta grandeza intrínseca. Esses efeitos, porém, foram verificados em menor número este ano.
Os adeptos do clube de Rosa e Silva, por sua vez, têm revelado outra forma de manifestação do distúrbio psiconeuroalfabético, que está resultando, inclusive, em sérios problemas de relacionamento, nos vários círculos de suas relações sociais. O problema é que a cada dez frases proferidas, em onze eles repetem a expressão “série A”. A qualquer menção ao fato de terem sido ajudados, não faz muito tempo, por um clube carioca também conhecido por seus adeptos aristocráticos e ornamentados com pó-de-arroz, os torcedores recifenses apresentam imediatos sinais de amnésia, ao ouvirem a letra C, o número 1999 e a expressão “virada de mesa”.
Enfim, a esperança é de que em breve o problema seja minimizado, ou completamente resolvido, com a ascensão do Santa Cruz à série B, já em 2014, com o encontro dos três clubes no mesmo patamar. Para o bem da saúde mental dos bicolores, que talvez possam encarar as derrotas para o Mais Querido com menos sofrimento.








