Sobre vaias e distrações
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por Inácio França
Marcone não conseguiu entender o porquê das vaias ao final da partida contra o Ituano. Julgou que a torcida estava sendo exigente demais com um time que lidera com folga a Segundona e mantém uma senhora regularidade.
É verdade que deixou as arquibancadas um tanto irritado por conta de um sinalizador da Inferno Coral que chamuscou sua reduzida cabeleira, mas satisfeito com a força do time de Givanildo, que, afinal, manteve o controle do jogo nos dois tempos.
Na avenida Beberibe ainda deu a sorte de se encontrar comigo, disposto a rachar um táxi até a estrada do Arraial e economizar uns trocados. Dentro do carro, ainda na engarrafada Beberibe, ele comentou que estava arretado da vida.
Nem deixei a frase ser concluída e fui logo pro ataque: “Correr o risco de perder a liderança por causa de um gol no último minuto, num cruzamento besta daquele”.
Meu amigo me olhou como se estivesse diante de um maluco e riu, perguntando de que jogo estava falando. “Ué, desse que a gente acabou de assistir”.
Foi aí que Marcone retornou do planeta para onde tinha sido abduzido nos minutos finais da partida: “E quanto foi o jogo? Não foi 1 a 0 não? E pediu socorro ao filho de 12 anos, espremido junto à porta do Fiat Uno. “Gabriel, quanto foi o jogo Gabriel?”. O menino tinha acompanhado o pai na viagem: “Pensei que a gente tinha vencido de 1 a 0”.
Os dois garantiram que não arredaram o pé da arquibancada antes do apito final, o que deve ser verdade, pois já assistimos dezenas de jogos juntos e sei que ele não é homem de desistir fácil. Expliquei como foi o gol no último minuto e, com ajuda do rádio ligado no táxi, comparei superficialmente a situação do Santa, do Santo André e do Grêmio. Ele culpou o sinalizador da Inferno e me autorizou: “Pode gozar da minha cara”.
Prometi que não iria deixar por menos e acabo de cumprir minha promessa. Se Marcone não entendeu as vaias no final, eu muito menos. Estranhei ainda mais quando escutei a resenha no sábado à tarde (não tenho o péssimo hábito de acompanhar o estelionato que é o noticiário de futebol) e fiquei sabendo que Carlinhos Bala estava indignado por ter sido chamado de “mercenário” por torcedores sociais.
Ora, meu amigo deixou de ver o gol do Ituano porque estava, literalmente, com a cabeça quente graças às faíscas do sinalizador. Pior são esses torcedores que não enxergam porque não querem ver. O time jogou bem, Givanildo descobriu mais uma jóia rara que é o tal do Elvis e Carlinhos foi caçado em campo o tempo todo.
Vaiar por quê? Porque ele recusou propostas do exterior para apostar em fazer seu nome no Brasil com a camisa tricolor? Ou porque ele e todos os seus colegas do elenco querem receber os salários mensalmente?
Antes de vaiar o excelente elenco do Santa Cruz, é importante se perguntar se são os jogadores que desaparecem com o dinheiro das rendas ou se foi o treinador quem empregou a família Neves no clube. No Arruda, muitos merecem ser vaiados e insultados, mas nenhum deles entra em campo.
Assim, cumpro mais uma promessa: a de criticar a indecente “diretoria” do Santa Cruz.
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