Santa, ajuda-nos a carregar nossas cruzes

por Sérgio Travassos - jornalista, assessor de Imprensa do Núcleo de esportes da Universo
Não importa perder, não importa empatar, não importa ganhar. O que realmente importa é amar. O Santa Cruz nos ensina a amá-lo desde que o conhecemos. Mas aprendemos muito mais que isso. O Santa Cruz é feito de união. A união solidária, só encontrada nas derrotas - e isso é mais comum que as conquistas. E parece que, quanto mais se perde, mais cresce esse amor pelo clube das três cores.
Para termos uma idéia, quando o clube disputava a 2a Divisão, em 1999, jogos no Arruda chegavam a superar os 60 mil espectadores. Já na 1a Divisão o público máximo foi de 54 mil, logo no início da temporada. Aprendemos também a ser mais críticos que os demais torcedores. Tão críticos que somos capazes de perceber a “barca furada” e, mesmo assim, vestir a camisa e ir ao estádio. Claro que para xingar e comprovar com os próprios olhos que entendemos mais do que futebol, entendemos de Santa Cruz.
Essa é outra constatação. O torcedor Coral gosta muito de futebol, mas é completamente tarado e apaixonado pelo time. Prefere ver o Santa Cruz jogar contra qualquer time, de qualquer lugar ou divisão, preterindo embates de outros clubes ou da seleção na tv. Outro fato é preferir ver seu time jogar mal, mas vencer. Ou então, ver seu time perder, jogar mal, mas jogar com alma, garra e dedicação. Daí a comprovação que: em primeiro lugar vem a paixão ao Tricolor do Arruda - futebol fica em segundo plano.
Tantos outros clubes unem classes, castas, crenças, cores, mas no Santa Cruz isso é mais visível. É um clube do povo nordestino, mais sofrido que o brasileiro médio. Nasceu da brincadeira de meninos de todas as classes, foi o primeiro em Pernambuco a incluir em seu quadro um negro – o craque Lacraia, conquistando para si a simpatia da maior fatia da população, àquela que não é pesquisada ou respeitada e que só vale em bando.
E essa turba de torcedores tem voz no Arrudão ou onde o Santa Cruz estiver. É da horda plebéia que se faz ouvir a voz do tricolor, a voz do biscateiro, do marginal, do sem-teto, do sem-emprego, do sem-diversão, do sem-vergonha, que se unem, sem preconceito algum, aos gritos da classe média, da elite financeira, cultural ou da intelectual. Todos em busca de um grito de vitória para vingar a semana desgraçada, da vida desgraçada, um grito de revolução contra os vovôs coronelistas pintados em campo de vermelho e preto ou vermelho e branco.
Ser Santa Cruz é ser de corpo e alma e ser sempre de coração um apaixonado, um sofredor, um romântico conformado. E quem olha as coisas da vida com o coração percebe melhor que existe vitória, história e riqueza, também nas derrotas. E nelas - as derrotas, quase morrer. Sempre cuspir no manto sagrado das três cores e, muitas vezes, sequer esfriar a cabeça e já bradar aos quatro ventos que no próximo jogo estará presente para ver seu time triunfar.
Ah! E quando existe um triunfo - como o que temos esperança que venha a acontecer, o tricolor sente-se no paraíso. Tem recarregadas as baterias para mais um sem número de derrotas no campo e na vida – que elas não venham. É tanta alegria que não se contenta em sorrir, ele chora. É tanta euforia que não só grita, ele cala. É tanta admiração que não só aplaude, se esmurra, não só canta, urra. E vibra por inteiro, abraça o negro da esquerda, o rico da direita, o estrangeiro da frente, a matuta de trás.
Neste momento o mundo tem um significado a mais. O mundo presta porque aquele momento basta. E as favelas, os morros, as escolas, as ruas, as fábricas e lojas estarão em festa e tudo vai valer à pena. E todos dançarão com tamanha alegria que parecerá que uma nação foi libertada da escravidão das derrotas e das chacotas. E esta nação livre contará a história da conquista para todo o sempre, com a mesma emoção do dia da vitória. E isso, para o tricolor, vale mais que qualquer troféu. E isso se aprende desde cedo e nos faz ser, a cada dia, mais cobra-coral.
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