Carta para Júlia
é verdade que foi cansativo, muito cansativo, levá-la até o Arruda, ora nos braços ora nos ombros, debaixo daquele sol que iluminou o Recife no sábado. Foi estranho sair do estádio sem estar dominado pela euforia que todos sentiram após uma vitória tão bonita e importante. As dores no corpo de tanto carrregar seu peso e sua inocência (ou o peso de sua inocência, para quem gosta de imagens mais rebuscadas) não permitiram tamanha expressão de alegria.
Quase não pude dar atenção ao seu irmão, que para meu espanto pressentiu o gol de Carlinhos Bala, exatamente um minuto antes dele acontecer.
Não foi fácil dividir a atenção entre você, inquieta como sempre, querendo escapar pela multidão ou chorando por atenção, e a bola rolando.
Ainda cansado, tentei escrever uma crônica falando da cota de sacrifício que um pai precisa fazer para que seus filhos vistam a camisa com as cores certas. Joguei o texto fora. Não gostei de ler o que havia escrito, mas só agora identifiquei o porquê: não há sacrifício algum nisso. O que há é prazer. E, em consequência, não havia nada da minh`alma ou do meu amor de pai naqueles parágrafos.
No texto descartado, não falei do orgulho de vê-la recusar a camiseta de estampa colorida que tentei lhe impor antes de sair de casa porque você queria se vestir igual ao seu pai e ao seu irmão mais velho. Agora vou revelar a enorme satisfação de, hoje, contar para meus amigos que tive de levá-la sem camiseta mesmo, até comprar um manto sagrado preto-branco-vermelho na avenida Beberibe. Vou contar para todos que você, quando viu a chuva de papel picado lá pras bandas da arquibancada, se fartou da tranquilidade das sociais e resmungou, exigindo ir para perto da Inferno Coral colecionar os quadradinhos cortados de páginas de revistas velhas, como fez naquela partida contra o Avaí.
Quero que todos os tricolores saibam da da beleza de sua voz cantarolando os versos “junta mais essa vitória/ao teu passado de glórias”, com seu jeitinho que não consigo reproduzir aqui por ser um velho sem graça.
Minha pequena Jujuba, como não aprendi a acumular patrimônio (nem pretendo a essa altura da vida), é provável que além do meu nome que tento manter honrado e do sonho de construir um mundo melhor, minha única herança para você e para Pedrinho seja o amor pelo Santa Cruz Futebol Clube.
um beijo do seu pai.
Inácio
P.S - Um recado para Pedro: filho, não fique com ciúmes. No seu aniversário também vai ter uma carta assim. Aliás, tive a idéia de escrever isso quando você, no caminho para o Arruda, disse que nunca pensou em torcer por outro time, mesmo me acompanhando no estádio em partidas de muita dor.
Júlia foi ao Arruda cinco vezes: tem quatro vitórias (4 x 0 no Petrolina; 2 x 1 na Barbie; 2 x 1 no Avaí e 3 x 0 no Santo André) e um empate (1 x 1 contra o Ituano). Quinta-feira, dia 29, ela faz três anos.
Anotações sobre o delírio coral
Recife, 26 de setembro de 2005.
Por Samarone Lima
Estou aqui, aguardando o Globo Esporte, para ver os melhores lances da vitória do tricolor, sábado, contra o Santo André. É que participei ativamente da fundação da Sanfona Coral, desde cedo, e bebi uns aperitivos a mais na casa de K2 (esse negócio de vira vira é foda), depois em seu Vital, e finalmente na Colosso. Resultado - não lembro de praticamente nenhum lance, nem dos gols. Ontem de manhã, eu estava a perguntar ao jornaleiro: "O Santinha ganhou de dois a zero, foi?" Levei um baita carão.
Tenho dito aos amigos que daqui a muitos anos, vamos lembrar do atual time do Santinha, um dos melhores dos últimos anos. Qual o time que não queria ter Kleber, Valença, Rosembrick e Carlinhos Bala no time?
Quem está longe do Recife, pode se lamentar - o Arruda, no sábado, estava emocionante. É mesmo uma torcida do caralho, essa do Santa Cruz.
Disseram que tinham 45 mil torcedores no estádio. O sábio Dinho Papeira falou tudo: "Então o Arruda encolheu".
O juiz que andava roubando nos jogos do brasileirão, era o que mais rezava antes de cada jogo…
A coisa perdeu mais uma na Copa Pernambuco, e agora está na nona posição, creio. E viva o centenário!
Que venha o Grêmio. Minha intuição diz que a classificação virá em pleno Olímpico.
E viva a Sanfona Coral!!!
7 comentários










