Blog do Santinha

Crônicas, opiniões, desabafos e comemorações sobre o Santa Cruz Futebol Clube, o Santinha, e a torcida coral.
Arquivo de 29 de outubro de 2005

Sócrates, guerreiro do povo

Sócrates

por Inácio França

Sócrates nunca teve ligação alguma coisa o Santa Cruz. Mesmo assim, desde que esse blog foi criado há um link aí na coluna do lado direito para facilitar o acesso ao seu site pessoal. Foi uma pequena atitude política, significando que compartilhávamos muitas de suas opiniões, idéias e modo de compreender o futebol e política, assuntos inseparáveis para o doutor e para o Blog do Santinha.

Esta semana, compromissos de trabalho me colocaram em contato direto com o ex-jogador da Seleção Brasileira, um dos mais talentosos meias da história do futebol. Ingerimos caroços de cerveja (ele mais do que eu) e conversamos um pouco. Sempre distante do óbvio, Sócrates falou coisas que interessam a todos os torcedores.

Uma de suas opiniões vem a calhar nas horas que antecedem a um jogo contra o Grêmio. Ele já tinha lido sobre a pressão política exercida pela FPF. Quando eu lhe disse que divulgamos telefone e endereço de um juiz ladrão, ele caiu na gargalhada e deu força: “Essas ações políticas são importantes para neutralizar a força dos interesses econômicos. É preciso fazer isso mesmo. Se deixar, os caras metem a mão. Sempre foi assim”.

Para Sócrates, o escândalo da máfia do apito não é novidade. “O futebol deve ser a única atividade onde só há uma única instância de decisão, o árbitro. Porra, é lógico que isso é para facilitar a manipulação! É a mesma coisa há 150 anos, não se usa tecnologia, não se usa nada. Há muito dinheiro envolvido nisso, então o objetivo é deixar do jeito que está e manipular para atender aos interesses”.

Quando jogava, ele percebia quando o juiz estava roubando contra ou a favor. “Isso é mais visível na Copa do Mundo, que é uma competição curta, com jogos eliminatórios e muito mais dinheiro envolvido, aí os árbitros são importantes para garantir os resultados que interessam aos donos do dinheiro”.

Sincero, o exemplo que ele usa para ilustrar a roubalheira em Copas do Mundo, é de Brasil 1 x 0 Espanha (o gol dele), na primeira rodada da Copa de 1986, quando os espanhóis tiveram um gol não marcado. “Logo depois me entrevistaram e eu falei ’se fosse a nosso favor, era gol’.”

Da arbitragem, a conversa se desloca para outra roubalheira: a dos cartolas. “Todos nós somos, de forma ou de outra, responsáveis por nossos atos. Os caras que administram os clubes e as federações nunca são responsabilizados por seus atos. Eles são os únicos que não são responsáveis pelos seus atos”.

Sócrates defende uma idéia original e ousada. Para ele, a luta pela ética no esporte é prioritária e não apenas um assunto secundário, como pensam os políticos de esquerda (ele é esquerda, nós do blog também). “O esporte é o segmento de maior visibilidade na sociedade brasileira. É o maior teatro nacional. Precisamos usar isso como instrumento de educação. Uma ação concreta, agressiva, para exigir transparência no esporte poderia, na minha visão, mudar o paradigma da sociedade em relação. A CPI do Esporte foi um antiexemplo, como não teve nenhuma consequência direta, a sociedade entende que se um setor tão importante suporta conviver com tanta falcatrua. Isso reforça os vícios”.

“O futebol é muito importante para o Brasil. É o espelho do nosso povo: insolente, libertino, criativo e alegre. Essa é mais uma razão para lutarmos por ética na administração do esporte”.

A violência nas arquibancadas, na sua opinião, precisa ser compreendida como um fenômeno social: “Você sabe como se cria um pitbull de rinha? O filhote cresce criado num buraco escuro, úmido e com pouca comida. O animal fica extremamente violento. Não é nessas condições que vive o povo brasileiro?”

Sócrates é pai de seis filhos homens. O mais novo nasceu há um mês e se chama Fidel. Sócrates fala francês, italiano e se recusa a falar inglês para não falar a língua do imperialismo.

Para fechar, uma última frase do doutor: “Estou torcendo para que os dois times daqui subam. A primeira divisão precisa de mais nordestinos”.

Vários pontos para Sócrates.

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