Infância no Arruda: lembranças de um OVNI
por Ivan Patriota, formado em Computação e programador de jogos para celulares. É o cara da foto aí em cima. Um suspiro curto e uma longa lembrança da minha infância, foi assim que comecei a escrever este texto. Não faz tanto tempo assim, hoje eu tenho trinta anos, mas lembro, como se fosse ontem, dos meus pais me levando aos jogos do Santa Cruz no Arruda. Iamos nós quatro, eu meu pai, minha mãe e minha irmã que é mais nova. Eu devia ter em torno de seis anos e minha irmã uns quatro. Antigamente, pessoal, a violência era bem menor e íamos aos jogos com tranqüilidade, mesmo à noite. Aliás, eu me recordo mais dos jogos à noite, pois meus pais levavam um colchonetezinho para minha irmã deitar sempre que pegasse no sono. Como se não bastasse, minha mãe preparava um lanche pra mim. Não tava nem aí pro jogo, preferia me divertir naquela parte inferior das sociais, jogando bola com mais alguns tricolores-mirins que lá estavam. Era uma festa! Llembro bem do placar do Arruda, que, se não me falha a memória, eram placares: dois, um atrás de cada barra. Vocês lembram disto, ou estou completamente maluco? Nesta época, houve alguns jogos que meu pai não me deixou ir, mas um deles, eu tenho certeza que, pelo menos, vocês já ouviram falar: a final de 83. Meu pai foi com minha mãe e o Arruda estava lotado. Como meu pai é sócio patrimonial, eles ficaram nas sociais do Arruda. É bola pra cá, é bola pra lá, e finalmente é chegada a hora dos pênaltis, minha mãe queria ir embora, mas meu pai se negava a sair do jogo naquele momento. O véio, coitado, fumava mais que uma caipora e minha mãe, em um determinado momento, iniciou um contudente diálogo com meu pai: - Ivan, vamos embora! - Filha, na hora dos pênaltis? De jeito nenhum. - Vamos emb… TUMMMM!!! Um Objeto Voador Não Identificado (OVNI) arremessado (depois identificado como sendo uma sandália de couro) muito possivelmente das cadeiras, acerta o olho da minha mãe, pois ela estava meio de lado enquanto os pênaltis não começavam. Aí foi desespero. O catombo fechou o olho de mainha. E lá vem mais diálogo… - Ivan, agora vamos!!! - Mas filha, e o jogo? - O jogo? Pois, bem… Minha mãe, paraibana da cidade de Sumé, arrancou a aliança de sua própria mão e a "arremessou" em direção ao campo. Meu pai, como se nada tivesse acontecido disse: - Mas filha, tenha calma! - Que calma o que.. olha o meu olho. Discussão pra lá e discussão pra cá, o Santa Cruz sagrou-se campeão. Neste jogo Luís Neto defendeu um pênalti em cima da linha. Bem, os dois voltaram pra casa. Mas a volta não foi tão simples assim para contar em duas linhas. Como o Arruda estava lotado, meu pai decidiu sair pela parte superior das sociais e descer a rampa do canal. Pra quê? A rampa cheia de gente, minha mãe (paraibana, faço questão de repetir) se arretou, subiu na mureta da rampa, apoiou-se no povo que estava na mureta também e desceu mais rápido do que os outros. Chegando no carro, o silêncio pesou. Quando os dois chegaram em casa, eu já estava na rua gritando, pulando e cantando os hinos do Mais querido… meu pai nem buzinou muito e quando vi minha mãe daquele jeito não quis nem conversa, fui direto tomar meu banho e dormi cedo sem que precisassem mandar . No dia seguinte, meu pai chega do trabalho com uma aliança nova e mais uma vez houve o diálogo entre os dois. Foi, no mínimo, cômico: - Filha, olha a aliança aqui. Comprei outra. - Comprou foi? Bem feito. Pois eu não joguei a aliança fora, não. É amigos, a paraibana é braba, mas não teve coragem de jogar sua aliança. Ela simulou que tinha jogado a aliança fora e painho acreditou. Hoje, com 30 anos e casado, tenho a felicidade de poder ir aos jogos e encontrar meus pais nas sociais. Eles vão a todos jogos no Arruda. E não é que minha mãe ainda leva biscoito maizena e me chama no intervalo pra gente comer! Mãe é mãe. Meu pai ainda tem bandeirinha em seu carro e comprou outra para amarrá-la na varanda de seu apartamento. Minha mãe, ainda hoje, quando escuta rádio à tarde, sempre me liga se tem alguma novidade do Santinha: "Júnior, o Santa contratou fulano. Júnior, Bala foi absolvido". No último jogo, minha mãe não conseguiu olhar para o pênalti. Parece que pressentia o pior. Sentada ficou e meio que em prece ela baixou a cabeça e só "escutou" o lamento silencioso da torcida. Mas, na comemoração do gol, meu pai a abraçou e a levantou até onde pode. Nem precisa dizer, mas os olhos agora estão cheios de lágrimas e as boas lembranças ficam ainda mais vivas em minha mente: 86, 87, 99, 2005, o golaço de Luizinho Vieira contra o Flamengo, Marlon (eita ponta direita bom danado), etc. Como não ter esperança num momento como estes Mas ser tricolor pra mim não é simplesmente torcer pelo Santa Cruz e ir aos jogos. Ser tricolor pra mim é me levantar às 02h00 da manhã e escrever este texto por alguns minutos e revisá-lo por mais um bocado. Mesmo sabendo que faltariam horas no mundo para agradecer aos meus pais por tudo que me ensinaram e para escrever as boas lembranças do meu amado Santa Cruz. Quis expor aqui no Blog uma pequena fração do que, para mim, significa ser tricolor. Seu Ivan e Dona Célia, muito obrigado.
Manhã de sol e de paixão

por Inácio França
23h25min, por telefone: Em Olinda, o microempresário liga para seu colega de infância em Setúbal. “É muito fanatismo o cara sair de casa num feriado para ir ver o treino de um time que está em último lugar na tabela?”, pergunta logo de cara. “É, lógico que é”, responde o amigo. “Então vamos pro Arruda amanhã de manhã?”, completa. Sem hesitar, o outro responde: “Vamos, lógico que vamos”.
7h37min num apartamento de três quartos no bairro da Madalena: A mulher se veste, está quase pronta para sair de casa e abrir a loja de artesanato para turistas, quando percebe que o marido está acordado. “Dorme mais um pouco, meu amor. Hoje é feriado para você”. O sujeito, que na verdade acordou às 5h preparando uma justificativa para sair de casa, emendou: “Não quero ficar sozinho em casa com sol desses lá fora… só não vou contigo para a loja por causa da minha alergia àquelas fibras dos bonecos de pano…” A mulher o aconselhou a ir à praia e, depois, pegá-la para almoçarem juntos. Ele deu um pulo da cama: “Acho que vou pro Arruda, é melhor do que ficar aqui sem fazer nada”. Aí, pegou a camisa e a bandeira, separadas de véspera e se bandeou para o estádio. Foi o primeiro a chegar.
7h50min, numa casinha humilde, ao pé de uma escadaria em Nova Descoberta: A mulher, empregada doméstica, tenta arrumar sua própria casa no dia de folga. O marido ainda está no quarto, mas os três filhos pequenos já estão soltos pela sala, correndo e espalhando a poeira que ela tenta varrer. “Antôôônio, pelamordedeus, tira esses meninos de casa. Se vai pro cemitério ver seu pai, leve eles com junto”. O garçom Antônio sai vestido com a camisa do Santa e sai levando os dois meninos e a menina caçula pela mão. Foi direto pro estádio, onde, com certeza também deve estar a alma do seu pai, se é que alma existe.
8h23min: O rapaz, estudante de universidade pública, recusa o café-da-manhã que a mãe lhe oferece. “Tô atrasado, mãe, tô atrasado. Como na volta”. A digna senhora não se conforma: “para ir pra faculdade acorda de meio-dia…”. O filho nem escutou o fim da frase, desceu as escadas correndo para pegar o ônibus que o levaria à avenida Beberibe.
Todos esses personagens, reais ou imaginários, encontraram-se na manhã de ontem no José do Rego Maciel numa sincera demonstração de amor ao clube. O sol rachava catedrais, como diria Nélson Rodrigues, e o cimento das arquibancadas. As crianças brincavam no ambiente que, graças a seus pais, reverenciam como um templo sagrado. Esposas e namoradas se divertiam com os ar de menino dos seus maridos ou namorados.
Nenhum jogador saiu sem aplauso, nem mesmo os reservas como o zagueiro Róbson Baiano ou o ex-júnior Rafael. Peris e Reinaldo, vilões no sábado, foram os mais aplaudidos. A torcida entendeu que eram os mais carentes de incentivo. “Levanta a cabeça, Peris!!!”, berrava ao meu lado um sujeito sério, que ocupa um cargo importante na prefeitura da capital. Reinaldo posou para fotos ao lado de meninas de três, quatro anos, e parecia surpreso com o apoio.
A presença da torcida foi tão importante que Givanildo até sorriu.
15 comentários









