Blog do Santinha

Crônicas, opiniões, desabafos e comemorações sobre o Santa Cruz Futebol Clube, o Santinha, e a torcida coral.
Arquivo de 6 de novembro de 2005

A paparazza tricolor

O endereço da jornalista Nani Mariani não é dos mais privilegiados. Vizinha da Casa da Barbie, ela precisa conviver com a movimentação dos engomadinhos e endinheirados indo ou voltando das partidas do time cor-de-rosa. Tudo muda em dia de jogo do Santa Cruz: sábado, por exemplo, foi possível acompanhar a vitória sem levantar do sofá da sala. Quando Carlinhos Bala fez o gol, ela resolveu entrar para a história e se tornar a primeira mulher tricolor a colaborar para o Blog do Santinha, registrando as imagens da alegria da torcida e a tristeza dos fregueses na saída do estádio-de-bolso. Com a palavra, a própria Nani Mariani: "Sou catarinense, de uma região de colonização italiana e gaúcha. Uma cidade chamada Videira. Minha família é toda gaúcha e eu acabei indo para o Rio Grande do Sul aos 17 anos. Me radiquei, casei e tive meus dois filhos em Porto Alegre. Ainda hoje tenho meu apartamento no bairro do Menino Deus, exatamente entre o glorioso estádio Olímpico e o chiqueiro da Beira-Rio. Isto deve bastar para vocês entenderem que tenho cores em Porto Alegre. E lá, como aqui, minha bandeira é tricolor. Meu marido também é tricolor. Lá e lô. Aderimos às cores corais logo que viemos morar no Recife, há 3 anos e meio. Os filhos ainda estão se acostumando com a cidade mas, com os conselhos do blog de como educar um tricolor, chegaremos lá".

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Sábado de festa no apê da barbie

por Samarone Lima

Amigos corais, acordei há pouco, é um domingo de sol. O gazeteiro acabou de passar aos gritos de “é tricolor”, “é tricolor”, e vi a foto imensa do Carlinhos Bala na capa, com a manchete: “Deu Santa 2 x 0”.

Ah, a vida é bela. É, amigos, isso é o que se pode chamar de domingo feliz. Estou saudável, cheio de dívidas, com um bocado de projetos enganchados, meu ex-amor casou outro dia, o aluguel está atrasado, perdi um bocado de arquivos de trabalhos recentes, mas não posso esconder: nada tem tanta importância assim, depois de ontem.

Estou mais que feliz alguns centímetros. Não vou falar do jogo, porque todo mundo viu pela TV, viu no estádio, e quem não viu, escutou pelo rádio, e se não escutou, não é problema meu, ora bolas. O fato é que o Santinha arrancou aqueles três pontos para sairmos daquela fossa geral que entramos, depois do amargo empate com Grêmio Futebol de Regatas. Saímos do limbo, da grande depressão, chegamos aos 4 pontos e temos mais um jogo contra os timbus, no próximo domingo. Quero viajar a Porto Alegre com 7 pontos na carteira.

Hoje de manhã, dei uma volta com Naná pela cidade. Nunca vi tanta gente sorrindo à toa no Recife. O Mercado de Casa Amarela, então, estava coalhado de corais, de todas as idades. Vi velhinhos de 112 anos pulando amarelinha, vestindo a camisa do Santa. Um senhor rabugento que às vezes me atende numa barraca, parecia um franciscano, um coroinha de igreja, com aquele sorriso doce. Olhei a pulseirinha que ele usava: tinha o nome do Mais Querido.

Diria que não havia um mercado funcionando ali, mas um clube da risada, a Associação Sorriso Aberto. Motivo: a vitória de ontem do Santa Cruz Futebol Clube. Ontem, a Sanfona Coral ultrapassou as expectativas. O sanfoneiro Chiló parecia o próprio Dominguinhos. Ao final da noite, Chiló deveria receber do clube um bicho, porque ele cansa mais que qualquer jogador. O zabumbeiro Gerrá amanheceu hoje com calos em todos os dedos. Eu, que toquei triângulo alguma horas, estou todo engembrado.

Mas retrocedamos, porque dizem que recordar é viver. É preciso dizer que a festa coral começou no bar de Seu Vital, quando a massa foi chegando, ainda de manhã. Como disse ontem, havia um casamento na igreja defronte. Amigos, se o noivo fosse tricolor, azedaria a lua de mel. Me digam com clareza: alguém consegue fazer algo na lua de mel com o Santinha entrando em campo, no momento mais dramático da segunda divisão? A mulher está lá, linda, cheirosa, o amor da vida do sujeito, ela toda sedutora, o vinho no balde, mas não adianta: no quarto tem uma TV, e ele não tira o olho dela. Da mulher não, amigos, da TV. Não, mas o sujeito não deve ser tricolor. Digo mais: ele não tinha cara nem manha de tricolor. Posso estar queimando a língua, mas me parecia um timbu.

Torcedor da coisa ele não era, porque está acontecendo um fenômeno histórico em Pernambuco: a torcida da coisa sumiu do mapa. Há mais de um mês não vejo uma pessoa passar com a camisa do rubronegro. Depois da concentração em Vital, fomos para o desjejum, no apartamento do Joãozinho Peruca. Amigos, o prédio balançou, com a Sanfona Coral. A feijoada não estava fácil e o aperitivo correu solto. Só quero dizer que fomos caminhando para o estádio adversário. Oswaldo Titio se revelou um péssimo guia, e chegamos a temer que ele quisesse nos levar mesmo era para o Arruda. Pelejamos, pelejamos, mas chegamos, entrando em botecos que aparecessem pelo caminho. Quem disse que as coisas para o tricolor são fáceis?

À entrada do estádio, a massa coral estava em festa. Chiló, o Gogó Coral, puxou os forrós e hinos conhecidos pela torcida. Foi festa até o fim do jogo. Diria que fizemos a festa no apê da barbie. Depois da vitória, ficamos trancados no apê da barbie quase uma hora. Uma hora a mais de festa. Voltamos cantando e entrando em tudo que era de buraco aberto. Saudamos uma cabeleireira, entramos numa loja de sorvete, fizemos forró dentro da Blockbuster e outros lugares que já não lembro. O forró terminou no Garraffus, não lembro a hora, porque eu já estava meio zoró.

Passei agora em seu Vital. Ele está dando gaitadas, contando piadas e a cerveja está gelada. Motivo: a vitória de ontem do Santinha. Já encontrei dos timbus e nem me dei ao trabalho de tirar onda: eles estão azedo dos pés a cabeça. Todo timbu, hoje, é um azedume em carne e osso.

Como ninguém sobrevive sem suas obsessões, revelo a minha, desde a antológica viagem para Sampa: Porto Alegre. Durmo e acordo e me vejo com meus amigos no Olímpico, cantando nossas famosas músicas, numa festa sem fim. Informo que comprei um “miaeiro”, no mercado de Casa Amarela, e tudo que é de moeda, jogo dentro. E como diz Chiló, “quem não for é mulherzinha”. Aguardemos agora o domingo, o longo, infinito, inalcançável domingo.

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