Testemunho de uma conversão
por Inácio França O pai de Lucas é um sujeito importante, ocupa uma função de chefia nas Nações Unidas aqui no Nordeste. É alvirrubro, mas não ia a um estádio de futebol desde 1976 e nunca alimentou a paixão pelas cores do time. O menino cresceu assistindo ao pentacampeonato na coisa, no final dos anos 90. Influenciado pelos colegas e pela neutralidade do pai, passou a dizer que era rubro-negro. Depois da vitória de sábado retrasado contra a barbie, Lucas não deu sossego: "quero ver o jogo", "pai me leva pro jogo", "vai, pai, o jogo"… O alto funcionário das Nações Unidas tinha motivos para se animar, afinal pela primeira vez o filho mais velho queria assistir a uma partida do seu time de coração. Empolgado, anunciou que iria levá-lo. "Não pai, quero ficar na torcida do Santa", respondeu o garoto, que tem 11 anos e começa a descobrir o que quer da vida. Dois dias de intensas negociações familiares e Lucas não arredou o pé: queria porque queria ver o tricolor jogar no Arruda. Quase três décadas depois, o importante e atarefadíssimo homem cedeu e, num gesto de nobreza e humildade, pediu minha ajuda para levar o garoto ao estádio. "Nem sei mais onde se compra ingresso ou como se entra nas arquibancadas". O que fazer diante de um menino que expressa o desejo de acrescentar a cor branca às suas preferências esportivas? Calculei que, se Lucas assistisse ao clássico ao lado da Sanfona Coral, viveria momentos mágicos, desses que se carrega adolescência e maturidade adentro. Em caso de vitória tricolor, dificilmente abandonaria as novas cores. Fui à rua Direita e comprei uma camisa tricolor tamanho P, pois é lógico que o pai não teria tal preocupação. E foi vestido com a camisa do Santa Cruz que o menino rubro-negro chegou ao José do Rego Maciel. "É maior do que a Ilha do Retiro…", concluiu rapidamente ainda na avenida Beberibe. Bom sinal, pensei. Assustado com o empurra-empurra na entrada, ele tinha pressa: "falta muito para a gente entra? Quero ver o campo…" O jogo começou e o puxei para perto de outro Lucas, o Portela, que tem 9 anos, mas é cobra-criada no Arruda. Primeiro tempo rolando e o menino, apaixonadamente, não conseguia ver o sufoco que levávamos, só reclamava. "Esse juiz tá roubando muito…". De olho no campo e com o ouvido em seus comentários, compreendi que a conversão estava em andamento. Aos 30 minutos, o garoto já tinha um ídolo: "Carlinhos Bala não pode pegar na bola que os caras derrubam ele. Porque o juiz não expulsa um?". Era o que Lucas, a essa altura um ex-rubro-negro, se perguntava. No intervalo, o pai admitia: "Não sou fanático: esse tal de Rosembrink desequilibra, que jogador, que jogador!" Ou seja, o filho fã de Bala e o pai, do Mago. No final da partida, Lucas parecia cansado com a jornada de mais de três horas debaixo de sol, mas revelou que tinha gostado da experiência. Aí, aproveitei e lasquei a pergunta "Quer vir pro jogo contra a Portuguesa?". Seus olhos se iluminaram. Na foto, Lucas está com um ar bem sério, de boné e camisa listrada em preto, branco e vermelho, sentado perto do pai alvirrubro.
Da grande fossa ao êxtase: O caso de amor de um clube e sua torcida
por Samarone Lima Amigos corais, vejam como são as coisas: há duas semanas, depois daquele empate com o Grêmio Futebol de Regatas, o tricolor pernambucano era um homem deprimido, arrasado, um suicida em potencial. Foram vendidas milhares de caixas de anti-depressivos, o consumo de álcool triplicou, as mulheres se preocuparam com o andamento da carruagem. Meu amigo Inácio França, por exemplo, arrastou-se, à saída do Arruda. Estava torto, com os olhos baixos, levando sua bandeira coral como quem espetava o sofrimento. Passou dois dias sem comer, sem falar besteiras, sem contar uma piada. Diria que era um homem vazio. Estava na lona, e a contagem perto do final. Nocaute. Antes do primeiro jogo contra as barbies, passamos por ataques fulminantes. Fomos arrasados pelos timbús por placares diversos. O mais humilde dos timbús me sapecou um 4 a zero, como se fôssemos uma equipe de várzea, os “Caducos”, aqui do Poço da Panela. Amigos, estou percebendo que há uma semelhança fundamental entre as barbies e os torcedores da coisa: basta uma vitória, uma reles e magra vitória, que vem uma arrogância ancestral, que tem origem no comportamento dos senhores de engenho. E nós, tricolores, o que fizemos? Nós suportamos tudo. Tristes, fodidos, repassando a cada segundo o filminho do gol do Grêmio de Regatas. Mesmo assim, como o gosto da tragédia na boca, fomos apoiar nossos atletas, no treino. Num ato digno de entrar para a história da humanidade, vários tricolores gritaram o nome de Reinaldo, para nosso atleta não sucumbir, depois do pênalti perdido. Perdido não, diria que um pênalti atrasado para o goleiro do regatas. E veio o primeiro jogo, na casa da barbie. Todo mundo sabe que o Santa Cruz ganhou de 2 x 0 e fizemos uma festa inesquecível. Durante a semana, os timbús voltaram à carga. Que dariam no Santa em pleno Arruda. Lembraram nossos flagelos, em decisões recentes, quando tudo deu inexplicavalmente errado. Berraram, urraram, vociferaram. Em nós, a derrota causa tristeza, sofrimento, ficamos quietos, nos recompondo. Os timbús se tornam raivosos, como os torcedores da coisa. E nós, tricolores, o que fizemos? Nós escutamos tudo com um sorriso tímido. Por dentro, as coisas estavam serenizando. A vitória na casa da barbie trouxe de volta algo que havia sido esquecido: o melhor time do campeonato não se desfaz como se fossem folhas ao vento. E novamente, a torcida fez sua parte. Na sexta-feira passada, o Arruda estava tomado de torcedores apaixonados, que foram assistir ao coletivo. Aos primeiros acordes da Sanfona Coral, os jogadores sentiram aquela fleuma renascer e pensaram: com essa torcida, nunca estamos sozinhos. E o grande momento desta jornada, rumo à primeira divisão, precisa ser registrado: a torcida arrancou um baita de um sorriso de Givanildo. Dizem que ele escutou o forró, naquele calor do caralho, escutou a torcida gritar seu nome, e deu gargalhadas. Amigos, louvemos a torcida do Santinha, capaz de arrancar gargalhadas de Givanildo. E veio o segundo jogo, no Arrudão. Todo mundo sabe que o Santinha ganhou de 1 x 0 e poderia ter enfiado mais três, não fossem os caprichos do futebol. E novamente, a torcida foi decisiva. Reinaldo estava uma pomba lesa em campo, quando um velhinho ao meu lado, com seus 99 anos, gritou sem voz: "Está na hora de colocar logo o Paulinho!". O sanfoneiro Chiló deu um dó menor, e a torcida começou o grande coro, pelo nosso talismã. De repente, o Arruda era Paulinho da roleta ao refletor. Givanildo deu um grito, Paulinho veio correndo e ele deu o recado: "Faz o gol, que essa torcida merece". Na primeira jogada, o talismã balançou a rede das barbies. Santa 1 x 0. Quero informar que perdi a consciência durante uns três minutos. Em duas semanas, ficaram as lições do futebol. O tricolor, mesmo no pior momento, não esmorece. Os jogadores sentiram isso. Houve, nestas duas jornadas, um caso de amor do clube e sua torcida. No momento mais difícil, a torcida arrancou forças onde não havia. Os atletas sentiram aquela força misteriosa, que vem das arquibancadas. E de repente, estamos na liderança do campeonato, o lugar que sempre estivemos, desde o início. Estamos a uma vitória da primeira divisão. E os jogadores, ovacionados ontem à tarde no Arrudão, devem estar sentindo o mesmo que nós, torcedores. Não queremos apenas subir: queremos o título. O mais que merecido título de campeão da série B. A sala de troféus do Arruda está cheia, mas cabe mais um. E deveriam providenciar um troféu para a torcida do Santinha também, essa massa mágica e apaixonada, que nunca abandona seus atletas. Desde que começou a última fase da série B, tenho dito: minha obsessão é Porto Alegre. Tenho repetido, mas poucos escutam. Agora é a hora. O título vai sair em pleno Olímpico. Todos a Porto Alegre, com ou sem dinheiro. Vamos passar o chapéu para os tricolores cheios da grana. São poucos, mas têm quase metade do PIB de Pernambuco.
Santa 1 x O barbie
Amigos leitores, A edição completa da vitória do Mais Querido, ontem, no Arruda, entra no ar daqui a pouco. Temos fotos, crônicas, relatos, detalhes do arrastão feito pela Sanfona Coral, o retorno da lendária Kombi Coral, mas os dois editores ainda se recuperam da farra de ontem. É ressaca mesmo! Estamos a uma vitória do retorno à primeira divisão do futebol brasileiro! Aguardem.









