Blog do Santinha

Crônicas, opiniões, desabafos e comemorações sobre o Santa Cruz Futebol Clube, o Santinha, e a torcida coral.
Arquivo de 15 de novembro de 2005

Pio mantêm o Santa no coração

por Inácio França

Quando resolvemos escrever sobre o amor entre o Santa Cruz e a torcida coral, era inevitável que incluíssemos os ídolos, personagens dessa história do qual todos nós, torcedores, somos ao mesmo tempo protagonistas e co-autores. Um dos nossos objetivos é encontrar e dar voz aos atletas que passaram pelo Santa, encantaram a torcida e desapareceram da vida do clube, mas não da sua história. Me auto-designei responsável por essa tarefa, pois Samarone chegou ao Recife em 1987 e não conhece tantas histórias assim.

Nessa história de procurar os ídolos do passado, sempre aproveitando um tempinho livre do trabalho, escolhi três nomes para procurar: Gabriel doido, Django e Wilson Carrasco. Dos dois primeiros, nenhuma pista para seguir. Mas Carrasco, meia-esquerda de toque refinado e chute violento, foi fácil. Ele é treinador dos juniores do Ferroviária, de Araraquara.

Assim que consegui o telefone da casa dele, estava pronto para desligar quando o funcionário perguntou se eu também não gostaria de entrevistar Pio. “Pio? Como é que encontro ele?”. Fiquei sabendo que o titular absoluto da camisa 11 tricolor entre 1974 e 1978, é o diretor de futebol do mesmo clube, hoje na quarta divisão paulista.

Logo no primeiro contato, percebi que estava conversando com um homem que tem o Santa Cruz no coração: “Uma entrevista para a torcida do Santa? É comigo mesmo”. Pio contou que até hoje tem saudades do Recife e do tempo em que jogou no Santa, onde veio parar meio por acaso. “O Zé Nivaldo e o Mariano Matos tinham ido ao Palmeiras para contratar o Raul Marcel, goleiro, e Celso. Eu tinha sido bicampeão brasileiro como titular daquele time da Academia, que tinha o Ademir da Guia e o Luís Pereira, mas estava só treinando no clube, tinha recusado uma proposta do Botafogo e queria o passe-livre”.

Alguém do próprio Palmeiras falou de Pio para os dois dirigentes, que foram conversar com o jogador só por desencargo de consciência. Afinal, contratar Pio seria a mesma coisa de, hoje em dia, tentar trazer para o Recife um Marcinho, do Palmeiras, por exemplo. “Percebi que eles eram homens honestos, de palavra, e decidi aceitar a proposta. Passei quatro anos maravilhosos no Recife”.

A estréia foi contra a coisa (que, naquele tempo, ainda não era chamada assim, mas neste blog não citamos os nomes dois outros times locais). “Tinha um jogador paraguaio no time deles, um tal de Molina, que era a estrela, tinha sido da seleção paraguaia e tudo mais. Quando começou o jogo, pensei: ‘vou pra cima dele. É ele ou eu’. Entortei o cara, até hoje ele me procura. Ganhei a torcida na estréia”.

Pio foi bi-super em 1976 e chegou às semifinais do Brasileirão em 1975. Depois de uma briga com Evaristo de Macedo - treinador que ele considera um grande profissional, mas que, de acordo com suas lembranças, sempre se coloca do lado dos cartolas em detrimento dos jogadores -, aceitou uma proposta do Colorado (clube que na década seguinte fundiu-se com o Pinheiros para formar o Paraná Clube) e partiu para Curitiba.

Além de diretor da Ferroviária, ele é professor universitário no curso de Educação Física da Unesp e olheiro da seleção da universidade, umas das mais importantes do estado de São Paulo, ao lado da USP e Unicamp. É casado com Ana Lúcia (“ela guarda todas fotos e álbuns de figurinhas daquela época”, diz ele) e tem três filhos: Alexandre, Luciana e Liliana. Seu nome verdadeiro é Osmar Alberto Volpe. E como hoje ele completa 61 anos, resolvemos publicar esse texto como presente de aniversário da torcida do Santa Cruz.

Nas fotos: em 1975, titular da ponta-esquerda do Santa (imagem do arquivo do Diário de Pernambuco, cedida com exclusividade para o Blog do Santinha). À direita, trinta anos depois com a esposa Ana Lúcia.

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Dona Madalena, a cabocla xamã das vitórias


Por João Henrique, publicitário, especial para o Blog do Santinha.

Ela é negra, magra, pequena, usa óculos e fala de mansinho. Apesar da idade
é disposta, tem pernas firmes e agilidade de adolescente. É risonha e bastante emotiva, ao ponto de chorar à porta quando alguém viaja para passar 4 dias fora. A Guabiraba é o lar e a Jaqueira a fonte do sustento. Esta figura é nada mais nada menos que Dona Madalena, uma Fada, uma Feiticeira, uma Cabocla Xamã.

Sábado, inicío da noite, fomos à sua casa para o aniversário de um ano da neta. Lugar modesto, festa modesta e pessoas lindamente acolhedoras. “Esses são os meus patrões”, falava ela orgulhosa. Sentamos no pequenino terraço e, entre sarapatéis e cervejas, ela declarou o que parecia ser uma verdade absoluta do universo. “Pode ficar tranqüilo que o Santa vai ganhar. O Feijão foi feito pra isso mesmo.”

As mãos deste ser, calejadas pela vida, são responsáveis pela feijoada mais gostosa da paróquia ­ a única que vem acompanhada de uma vitória tricolor. Nas suas quatro edições, o “Fezão Tricolor”, como é conhecido, nos trouxe gritos de gol e sorrisos de vitória. A de domingo foi com certeza a mais importante, pois nos ajudou a ficar de cara com a primeira divisão.

Na segunda-feira, em meio à bagunça generalizada, ela me deu bom dia com aquela cara de “eu não disse?”. Pois é, Dona Madalena. Pois é.

Por mais que manche as roupas, faça as coisas ao contrário, limpe meia boca e tome todo o café da casa, Dona Madalena tem certeza absoluta que é eterna.

Lá em casa é ela e mais dois.

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