De alma reconstruída
Um clichê, repetido até enjoar nas mesas redondas de domingo à noite, diz que, algumas vezes uma derrota traz valiosas lições. Outros fracassos servem apenas para confirmar o lamaçal no qual uma equipe está enterrada.
Existe uma espécie de derrota da qual pouco se fala, pois são raras na história de um clube de futebol. São fracassos que empenam a alma da torcida, provocam fissuras quase incuráveis no espírito coletivo, não se esgotam quando o juiz apita o final da partida. Atravessam os anos, acontecendo a todo instante na memória e no imaginário do torcedor, estilhaçando confiança, esperança e altivez.
Foi um desses eventos trágicos (sim, só esses fracassos podem ser chamados verdadeiramente de tragédias) que aconteceu na tarde de 5 de abril de 1981, no estádio da Fonte Nova, quando o Santa Cruz Futebol Clube foi derrotado pelo Bahia por 5 a 0, quando podia perder por uma diferença de até quatro gols.
Desde aquele dia, o tricolor do Arruda tornou-se uma sombra do clube que tinha atravessado cinco ou seis décadas do século XX sem medo de nada, porque tão importante quanto vencer, é não ter medo de perder.
Naquela tarde, a torcida coral teve sua alma envergada, passou a pisar com medo de escorregar. Éramos uma torcida com medo do presente. De lá para cá, ganhamos alguns campeonatos pernambucanos e fizemos visitas à primeira divisão, mas o espírito tricolor permanecia repleta de fissuras, remendo e buracos.
No dia 3 de abril de 2005, o Santa Cruz reconstruiu sua alma.
Até aquela última partida do campeonato contra o adversário de vermelho-e-branco, tínhamos medo de ter a “faixa carimbada” ou de sofrer uma derrota no momento de intensa alegria. O estádio cheio, os dois gols, a volta olímpica, a vibração e o sorriso de homens, mulheres e crianças foi a argamassa dessa reconstrução. Nos abraçamos uns aos outros como num reencontro depois de 24 anos de ausência.
No jogo contra a Portuguesa, há uma semana, a torcida coral já confiava, sabia que a vitória estava a caminho. O pênalti, o gol, nos calou, mas ninguém duvidava do resultado final. Os tricolores repetiam no cimento do Arruda: vamos fazer dois. Nossa alma estava completa, não faltava nem um pedacinho.
Em 2005, todos os tricolores voltaram a caminhar como se estivesse no percurso místico da rua de Santa Cruz, onde o clube foi fundado e que tem apenas duas esquinas: uma delas com a rua Alegria e a outra, mais adiante com a rua da Glória. Não importa os resultados, agora o Santa Cruz Futebol Clube e sua torcida voltaram a fazer esse caminho, de uma esquina à outra, de mãos dadas.
Nas fotos, a esquina das ruas Santa Cruz e Alegria. Para quem vem do Pátio de Santa Cruz, local da fundação do clube, basta dobrar à esquerda por trás da igreja. Mais do quem um trajeto, um poema.
14 comentáriosO dia em que o Arruda chorou
Por Samarone Lima Amigos corais, Ainda me recupero das emoções daquela tarde de 26 de novembro de 2005. Mesmo sem ser místico, e já sendo, diria que algo aconteceu no Recife, naquele dia imenso. Mais que isso: algo aconteceu no Arruda, naquela tarde ensolarada. Há muitos anos vou a estádios. Já morei em alguns estados da Federação (Ceará, Maranhão, Pernambuco, São Paulo), e, como amante do futebol, já assisti jogos em muitos estádios da Federação. Presenciei coisas inacreditáveis de torcidas. Mas no sábado, o dia em que o Santa foi para a Primeira Divisão do Campeonato Brasileiro, algo aconteceu de definitivo e insuperável. E aconteceu quando o time entrou em campo. Dei um breve aceno aos nossos atletas, e decidi olhar para a torcida, os lances superiores da arquibancada. O milagre estava acontecendo. Milhares de tricolores choravam de soluçar. Olhei para Rita (foto), a doce Ritinha, namorada do magro Valadares. Com as mãos cruzadas, certamente rezando, ela chorava de corpo inteiro. Emília era pranto da cabeça aos pés. Subi a vista para os degraus de cima. Velhos tricolores enxugavam as lágrimas com o dorso das mãos. Homens sérios tiravam os olhos para conter o desamparo. Mulheres encostavam o rosto no ombro do companheiro e suspiravam: “Ai, esse time acaba comigo…” Mas a torcida conseguiu se recompor. Não poderíamos chorar mais que cinco minutos, porque o time precisava mais de suor do que de lágrimas, naquele início de jogo. Veio o gol da Portuguesa, aquela verruga em nossa jornada. A torcida aguardou com paciência a virada, a inevitável e merecida virada. Eis que Reinaldo recebeu a pelota, dominou, e mandou para a gaveta. Neste momento, céu e terra tornaram-se uma coisa só, os anjos desceram todos para o Arruda. Na comemoração, as lágrimas novamente desceram abundantes, lavaram as arquibancadas do Arrudão, por pouco não encheram aquele fosso que nos separa no campo. De todos os lados, de todos os tamanhos, idades, classes sociais, os tricolores eram um mesmo e inconsolável pranto. Pranto de felicidade. Minutos depois, Reinaldo tocou de cabeça e a pelota voltou ao barbante: Santa 2 x 1. Todos os milhares de torcedores viraram um corpo só, uma alma coletiva, uma emoção inseparável. Estava selada a nossa classificação para a Série A. Mas faltava o título. Não entrarei nos detalhes da tragicomédia alvirrubra, que nos tirou o merecido título de campeões da Série B. Cada um tem a lágrima e o time que merece. Deixemos isso de lado. A barbie deixou o Grêmio de Regatas ganhar o título no grito. O fato é que aquela tarde de sábado, no Arruda, vai ficar marcada para sempre na memória, na célula, no sangue de cada tricolor. Estavam ali, certamente, todos os velhos torcedores que já partiram. Estávamos nós, que contaremos a jornada de 2005 para os filhos e netos, repetidas vezes. Diria que estavam, também, os tricolores que ainda nem nasceram, mas já existem. Ah, amigos, foi uma tarde em que o Arruda inteiro chorou. E feliz de uma torcida, capaz de cair num soluço incontrolável ao ver o seu time em campo.









