Olinda: Santa Cruz em toda parte
Por Anízio Carlos, assessor de informática da prefeitura de Olinda e estudante de design gráfico
Minha paixão por fotografia começou graças ao trabalho diário de tratar as imagens captadas pelas lentes de Passarinho (batizado como Francisco e imortalizado com esse apelido pelos moradores da Cidade Alta) , experiente fotógrafo da prefeitura de Olinda, responsável pela documentação visual de uns 25 carnavais.
De tanto tratar fotos, resolvi arriscar um pouco, com ajuda e lições do bom Passarinho. Depois que ganhei uma máquina digital, passei a me considerar um fotógrafo amador e criei um fotolog (com um link no Blog do Santinha) para tornar públicas tanto as minhas imagens quanto as do mestre.
Na semana que se seguiu à nossa ascensão para a Série A, percebi a grande quantidade de camisas e bandeiras tricolores pelas ruas de Olinda, misturadas aos turistas que visitavam os ateliês no Arte em Toda Parte.
No domingo, logo após a carreata, resolvi registrar essa invasão preto, branco e vermelha, e separei essas duas fotos: um Clóvis (em Olinda, esses personagens são chamados de Clóvis e não papangus) na rua do Amparo e a orgulhosa bandeira no sobrado da rua Bernardo Vieira de Melo, perto do Mercado da Ribeira
5 comentáriosSobre mugangas e superstições
Por Samarone Lima
Amigos corais, ninguém que conheço é um supersticioso declarado, mas em 2005, o Santa Cruz chegou à Primeira Divisão por dois motivos: o futebol apresentado dentro de campo, e um exército de mungangueiros, catimbeiros, uma multidão de simpatias que deixou todos os orixás, guias, santos e protetores ligadíssimos nos atletas. Alguém duvida que a defesa de Cléber, aos 44 do segundo tempo, teve a presença dos deuses?
Na minha breve enquete, sobrou doido para contar peripécias. Chiló, o sanfoneiro que comanda a lendária Sanfona Coral, sempre ia ao estádio com um “anel coral”, uma bijouteria finíssima, comprada a R$ 1,99 ali na rua do Bom Jesus. O ritual, para dar sorte, incluía a mesma roupa: um sapato sem meia, bermuda cáqui e a camisa que ganhou da amada.
A munganga começou dia 18 de junho, data da estréia da Sanfona e, como deu sorte, ficou sendo assim até o último jogo. O detalhe: antes de começar a tocar, dentro do estádio, Chiló tirava a singela peça do dedo mindinho, e a guardava no bolso. A única vez em que esqueceu o anel, foi no jogo contra a Lusa, no Canindé. “Deu no que deu, né?”, comenta o sanfoneiro. Então está explicado o motivo da derrota de 4 x 1 para a Lusa, no Canindé. A culpa foi do anel de Chiló.
Outra munganga do sanfoneiro é gostar de assistir o segundo tempo do lado da defesa. “Eu tiro bola, dou empurrão em jogador, dou bicuda para a arquibancadas. Sou mais um jogador de defesa do que de ataque”, explica.
Com o ataque, ele não precisa se preocupar mesmo, porque está o João “Magro” Valadares, que só vai ao estádio de bermuda verde, “uma sandália velha” e a mesma camisa. Na mão, a camisa da decisão contra o Náutico, em 1995. “Quando o time está perdendo, vou para o lado do ataque, fazer o gol”, diz o magro. Então, tricolozada, relaxemos. Tem Chiló na zaga e Valadares no ataque.
João tem outras mungangas. Jamais vai ao banheiro, “para a zaga não ficar desguarnecida”. Num jogo contra o Avaí, o Santa ganhava de 1 x 0 e João resolveu dar uma mijadinha básica. Gol do Avaí. “Culpa minha”, reconhece João.
Seguir o mesmo roteiro também faz parte da turma da munganga. João acordava às 9h, passava no boteco de Seu Vital, no Poço, “tomava duas quentes”, passava na casa de João Henrique e depois, Arrudão.
A camisa, quase um pênalti
A camisa utilizada pelos milhares de corais, a cada jornada da Segundona, passava por critérios os mais malucos, mas todos garantem que funcionou (tanto é que o time subiu). “Há um vínculo cósmico nessas coisas”, lembra Inácio França, editor do Blog do Santinha. Para ele, camisa só pode ir ao estádio depois de “muito suor”. Antes de entrar no Arrudão, é fundamental usá-la no trabalho, no passeio, ir para um jogo menos importante, até se tornar “a” camisa.
Inácio inclusive faz a penitência pública. É dele a culpa pelo empate com o Grêmio de Regatas, no Arrudão (Reinaldo pode respirar aliviado). No dia do jogo, ele comprou duas camisas oficiais, novinhas, uma para ele, outra para o filho Pedro. “Deu no que deu”, conclui, fazendo coro com Chiló.
Para o último jogo, Inácio se recompôs. Usou a camisa que utilizara em 1999, no Goiás x Santa, quando o time subiu. “É uma camisa com experiência em reta final de Segundona”, explica o jornalista. Após a vitória, ele tomou uma decisão solene: vai tombar a camisa no seu patrimônio, guardá-la num saquinho. “Só voltarei a usá-la em alguma ocasião de urgência total”, diz.
Temendo o pior, sanfoneiro Chiló não teve dúvida. Recebeu a camisa novinha da Sanfona Coral na reta final do quadrangular, e para não dar mole ao azar, passou a usar as duas camisas, a mais velha por debaixo. Ficou um calor infernal, mas ele não reclama:
“Tudo vale a pena, quando o time não é pequeno”.
O zabumbeiro Gerrá levava duas zabumbas para o pré-jogo. Tocava com uma nova, mas era a velhinha, surrada de muitos forrós, que o acompanhava aos estádios. “Foi assim desde o começo, tinha que continuar”, explica. A camisa nova Gerrá não usou, apesar dos protestos do sanfoneiro. “Tive medo de dar azar. O importante é o tricolor”, disse ele, sem se preocupar com a reclamação do patrocinador.
Fuga do estádio
O caso mais dramático aconteceu com o procurador Paulo Araújo. Ele decidiu sair do estádio, logo após o gol da Lusa. Contou a Inácio França que sentiu estar dando azar. O jogo rolando, e ele na churrascaria Colosso. Veio o gol de empate, os garçons se abraçaram e disseram que ele já poderia voltar. Paulo Araújo preferiu não vacilar. “Estou dando azar”, confessou.
Ele ficou o jogo inteiro fora do Arruda, só retornando após o apito do juiz. Sabia que se retornasse, o empate da Lusa estaria a caminho. Resultado: Santa na Primeirona.
Um santo, um sujeito desse. Merece uma estátua no Arruda, ao lado da de Givanildo.
Até logo, mulé…
Se o assunto é munganga, de Brasília Laércio Portela manda avisar que tá dentro e contou uma coisa que, à primeira vista, pode parecer exagero, mas foi (segundo ele) decisiva para a vitória no último jogo da série B. Trata-se de uma decisão difícil que ele tomou na intimidade do lar.
Ele teve de negociar com a própria mulher, Juliana, para que ela não ficasse em casa na hora do jogo. É que o retrospecto da moça não é lá essa coisa toda (ela inclusive diz que é rubro-negra, mas Laércio prefere se iludir e afirma que “é só por dizer e tem lá sua simpatia pelas três cores”). Pois bem, depois de muito relutar e alguma dificuldade de marcar um programa xcom as amigas durante o jogo), Juliana acabou aceitando e saindo de casa. O gesto, grandioso, deixou Laércio relativamente mais tranqüilo e em condições de assistir ao jogo.
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