Blog do Santinha

Crônicas, opiniões, desabafos e comemorações sobre o Santa Cruz Futebol Clube, o Santinha, e a torcida coral.
Arquivo de 24 de dezembro de 2005

Sobre Barbosa

por Julio Vila Nova

Cléber, o paredão deste time inesquecível de 2005, veio confirmar a tradição do Santa Cruz de fazer grandes craques da camisa 1. A lista é grande e começa com Ilo Just, o primeiro goleiro, também um dos primeiros ídolos da história do futebol em Pernambuco. Incluem-se ainda nomes como Gilberto, Picaço, Wendel, Birigui, Luís Neto e muitos outros. Nessa galeria, certamente um dos nomes de maior expressão no cenário nacional, vestindo a camisa 1 do Santinha, é o de Barbosa, citado por Rodolfo Aguiar na excelente série publicada no blog. A sua passagem por aqui, porém, não foi das mais felizes, e lamentavelmente terminou por confirmar o estigma que o jogador carregou pela vida afora, culminando com um lamentável episódio envolvendo o craque e a seleção de Parreira (aquela que ganhou o título por 0 a 0), que será relatado adiante. Barbosa, goleiro do Santa Cruz Já foi relatada por Rodolfo Aguiar a emocionante mobilização do povão tricolor para garantir a permanência do melhor goleiro do Brasil, à época, no esquadrão tricolor de 1956. No entanto, sua passagem por Pernambuco foi marcada por uma má atuação contra o América, que provocou reação violenta da torcida e resultou em sua saída do Santa. Jornadas infelizes de goleiros são comuns no mundo da bola, mesmo entre os ídolos, que eventualmente são perdoados pela torcida (há pouco tempo, Marcos, do Palmeiras e da seleção, levou 7 do Vitória-BA, mas foi perdoado). Acontece que, depois de 1950, não haveria nunca mais perdão para Barbosa, mesmo todos os analistas eximindo-o de culpa pela derrota. A verdade é que, se tivéssemos que apontar os culpados, a lista começaria com a cartolagem e os políticos aproveitadores, além de parte da imprensa, que cantaram a vitória antecipada, com farra e exibição de faixas de campeão para fotos nos jornais. A chegada de Barbosa e o desfecho infeliz de sua passagem pelo Santa foram relatados por Lenivaldo Aragão (Jornal do Commercio, 17/04/2000). O episódio que demonstra a injustiça cometida contra Barbosa pela comissão técnica de Parreira é lembrado por Eduardo Galeano. Abaixo, transcrevemos e comentamos trechos desses relatos: Sobre a chegada de Barbosa ao Santa, Aragão comenta: “Foi uma apoteose a chegada do grande goleiro ao Recife. Embora fosse dia útil, a torcida encheu o antigo Alçapão do Arruda para ver seu primeiro treino. ‘Nunca vi tanta gente num treino, confessava o já novo ídolo do Santa”. Segundo a matéria do JC, Barbosa foi o craque mais festejado na vitória do Santa contra o poderoso Flamengo, de Joel, Benitez, Evaristo, Dida e Zagalo, por 1 a 0, ainda em 1956. Mas aí veio a fatídica derrota para o América, à época considerado um time grande do Recife, por 6 a 3. Sobre essa lamentável atuação, Lenivaldo diz: “O goleiro Barbosa, que fora vítima da raça de Obdulio Varela e seus companheiros, na fatídica decisão da Copa do Mundo de 50, no Maracanã parecia, seis anos depois, refeito do grande golpe. Ídolo da torcida do tricolor pernambucano, viu de repente seu prestígio se esfarrapar, após uma lamentável atuação em que andou levando gols inadmissíveis até para um principiante, quanto mais para um profissional tarimbado como ele – além da seleção brasileira, Barbosa jogara simplesmente 20 anos pelo Vasco.” Prossegue Lenivaldo: “Nos dias que se seguiram à goleada e ao desastre de Barbosa – que logo na segunda-feira pedia rescisão de contrato -, os jornais tiveram assunto. Nunca a frase de augusto dos Anjos, ‘a mão que afaga é a mesma que apedreja’ foi tão repetida” “Reconhecia-se a má jornada do goleiro, mas culpava-se toda a defesa pela goleada. Outros, como o Jornal Pequeno, condenava veementemente a atitude dos torcedores que pretendiam linchá-lo.” Aí, então, Valdomiro Silva, à época treinador dos juvenis (até hoje lembrado como um desses nomes que sempre tiveram a credibilidade que faltou e falta a muitos e muitos outros dirigentes), encarregou-se de levantar o ânimo do jogador. O jornal reproduz um trecho da carta a ele enviada : “Prezado amigo, Moacir Barbosa. As demonstrações de hostilidade de meia-dúzia de crápulas apostadores não deve pairar no teu espírito como manifestaç~çoes da torcida do Santa Cruz…” Poucos dias depois, Barbosa respondeu, através de carta publicada na imprensa, em tom de despedida, “pedindo sensatez,compreensão para com o time nas futuras jornadas e relembrando que nos momentos difíceis é que os jogadores mais necessitam do apoio de seus torcedores” Lenivaldo termina avaliando que isso era “mais um castigo para um dos maiores goleiros do Brasil, que já havia sido execrado pela opinião pública nacional,por causa da hecatombe do Maracanã”. Pouco antes de sua morte, Barbosa relembrou os tristes momentos de 1950 para um programa de televisão (TV Cultura). Das lembranças mais vivas, ele guardou no coração a decepção da volta para casa, após a partida. Na rua em que morava, no Rio, um grande banquete havia sido preparado, com mesa repleta de comida e bebida, preparada ao ar livre pela vizinhança. Entretanto, a rua deserta e a mesa rodeada de cachorros que aproveitavam o abandono da comida cortaram o coração do craque para sempre. Em 1993, Barbosa voltaria a receber uma demonstração lamentável de intolerância e grande discriminação, desta vez promovida pela comissão técnica da seleção de Parreira, aquele time retranqueiro de futebol burocrático que venceu a única disputa por pênaltis numa final de Copa de Mundo. Foi em 1993, e quem conta é Eduardo Galeano, no seu excelente “Futebol ao Sol e à Sombra” (Editora LP&M): “Na hora de escolher o melhor goleiro do campeonato, os jornalistas do Mundial de 50 votaram, por unanimidade, no brasileiro Moacir Barbosa. Barbosa era também, sem dúvida, o melhor goleiro do seu país, pernas com molas, homem sereno e seguro que transmitia confiança à equipe, e continuou sendo o melhor até que se retirou das canchas, tempos depois, com mais de quarenta anos de idade. Em tantos anos de futebol, Barbosa evitou quem sabe quantos gols, sem machucar nunca nenhum atacante. Mas naquela final de 50, o atacante uruguaio Ghiggia o tinha surpreendido com um chute certeiro da ponta direita. Barbosa, que estava adiantado, deu um salto para trás, roçou a bola e caiu. Quando se levantou, certo de que havia desviado o tiro, encontrou a bola no fundo da rede. E esse foi o gol que esmagou o estádio do Maracanã e fez o Uruguai campeão. Passaram-se anos e Barbosa nunca foi perdoado. Em 1993, durante as eliminatórias para o mundial dos EUA, quis dar ânimo aos jogadores da seleção brasileira. Foi visita-los na concentração, mas as autoridades proibiram a sua entrada. Naquela época, vivia de favor na casa de uma cunhada, sem outra renda além de uma aposentadoria miserável. Barbosa comentou: - No Brasil, a pena maior por um crime é de trinta anos de cadeia. Há 43 anos pago por um crime que não cometi.”(p.94)

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Memória em três cores (final)

Último trecho do depoimento concedido pelo ex-presidente do clube Rodolfo Aguiar aos jornalistas Inácio França e Samarone Lima. Além do amor, confiança "Dar um exemplo que demonstre o amor da torcida pelo Santa Cruz é algo muito subjetivo… muito difícil…muitas demonstrações de amor eram dadas pelos torcedores nas eternas discussões entre pessoas de todas as torcidas que aconteciam no Bar Savoy, na avenida Guararapes, que era o grande centro de discussões, o grande ponto de encontro das décadas de 1950 e 1960. Os torcedores conviviam com seus oponentes em locais como o Savoy ou na esquina da Cristal, na rua do Imperador. Demonstração de amor também eram os grandes públicos nos jogos que fazíamos contra pequenos clubes para arrecadar dinheiro para a construção ou reforma do Arruda. Também era emocionante quando corria a bandeira do clube no meio da torcida e as pessoas depositavam dinheiro vivo, as pessoas jogavam dinheiro na bandeira porque tinham certeza que o dinheiro iria para o clube. Você enchia a bandeira de dinheiro! No primeiro treino do goleiro Barbosa (aquele mesmo da seleção de 1950, vice-campeã mundial), numa sexta-feira pela manhã, a bandeira correu entre os torcedores que foram assistir ao treino e o dinheiro que se arrecadou quase permitiu a Aristófanes pagar o passe de Barbosa! Aristófanes já faleceu e não pode contar essa história, mas muitos contemporâneos podem confirmar isso que estou contando agora. Essa foi a maior prova de amor da torcida do Santa Cruz, de amor: numa sexta-feira de manhã, num treino preparatório para o clássico de domingo contra o Sport, a torcida convergiu para o campo do Arruda e praticamente pagou o passe do maior goleiro do País naquela época. Quando voltaremos a assistir a uma situação como essa? A maior alegria como torcedor foi voltar a ser campeão em 1969, depois de 10 anos sem título. Foi numa final contra o Sport nos Aflitos, 2 a 1. O segundo gol, o gol do título saiu numa cobrança de falta de Luciano Veloso. Ali foi uma festa extraordinária, pois a gente vinha há 10 anos sem ganhar nenhum título, mesmo tendo montado grandes times e com passagens de pessoas extraordinárias pela direção do clube, pessoas extraordinárias como o doutor Luís Inácio Pessoa de Melo. A pobreza maior do Santa Cruz hoje é o clube não conseguir atrair pessoas de elevada condição financeira e social. E não consegue atrair porque as pessoas que estão lá dentro não têm credibilidade. Credibilidade!"

 

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