Blog do Santinha

Crônicas, opiniões, desabafos e comemorações sobre o Santa Cruz Futebol Clube, o Santinha, e a torcida coral.
Arquivo de 16 de janeiro de 2006

Quando os ingressos caem do céu

por Samarone Lima Amigos corais, eu tinha prometido, reprometido, alardeado aos quatro ventos que neste domingo não iria ao Arruda ver o Santinha jogar, num pequeno e solitário protesto contra os absurdos preços dos ingressos (R$ 14,00 a arquibancada). Resisti a muitas investidas, até às 15h45, quando me dirigi ao Arrudão. E aqui vai a confissão: fui vencido. Não resisti às muitas tentações que surgiram ao longo do domingo. Assisti ao jogo das gerais, numa história cheia de aventura e emoção. Passo a lhes contar sobre as várias tentações que resisti, para me manter firme no meu protesto. Primeira tentação: o ingresso de Inácio Logo de manhã falei com o meu amigo e editor do Blog do Santinha, o jornalista Inácio França. “Sama, tenho o ingresso mas terei que ir buscar Pedrinho no Aeroporto e não poderei ir ao estádio”, informou. “Vem buscar, que é teu”. Pedrinho é seu filho e inclusive já iniciou a meteórica carreira de escritor, publicando sua crônica sobre a classificação para a Série A, neste Blog. Fui buscar o ingresso, mas, para não cair na tentação, resolvi doá-lo a um amigo tricolor. Fui à casa de Dinho Papeira, aqui do Poço. Ele tinha ido trabalhar. Encontrei outro tricolor apaixonado, o velho Peitão, que estava tomando umas na casa de Boy. Ele estava doido para ir ao estádio, mas com o preço da arquibancada… Entreguei o ingresso ao amigo e fiquei livre. Agora sim, é que não vou mesmo, pensei. Segunda tentação: os amigos Quando se toma uma decisão muito importante (separar, parar de beber, não ir ao Arruda num jogo do Santa), os maiores inimigos são justamente os amigos, que sempre têm argumentos poderosos na algibeira. Como o celular estava bloqueado, saí na vantagem. No sábado, o telefone de casa foi bloqueado também. Dezenas de telefonemas teriam chegado, na citada manhã, sempre com a mesma pergunta: "Tu vai ao jogo?"; "Queres carona", "óa, tenho um ingresso sobrando" e por aí vai. Só restava mesmo os email. Para não cair em tentação, não abri os email. Sim, eu estava vencendo. Meu protesto estava firme. Terceira tentação: aniversário de tricolor, cheio de tricolores Mais tarde, aniversário do tricolor Serjão. Vou com uma moça alvirrubra e levamos o sanfoneiro Chiló. Conversa vai, conversa vem, aperitivo vai, aperitivo vem, e Chiló ficando agoniado. “O jogo do Santinha, só penso no jogo”, dizia a cada cinco minutos. Tento convencer Chiló, o da Sanfona Coral, a não ir. Explano sobre os preços dos ingressos, o absurdo que é afastarmos a torcida do Arrudão, enfim. Pareço falar com um pedaço de parede. “Quero ir ao Arruda”, me respondeu. “Eu preciso ir ao Arruda de qualquer jeito”, completou. Muitos dos convidados de Serjão eram tricolores. Os celulares tocavam e eu escutava com um suor frio: “Já estás no Arruda? Acho que vou sim”. Empurrei o pau na Vodka. A alvirrubra não menos. Lá pelas tantas, ela disse a frase mágica: “Eu dou uma carona a vocês”. Pior: “Acho que vou assistir a partida junto com vocês”. Amigos, isso é crime. A alvirrubra linda, com uma saia rosa linda, oferecendo carona. Por pouco não chamei a Polícia. Chiló quase começou a chorar de felicidade. Olhei no relógio: 15h45. “Eu vou, mas assistirei a partida pelo rádio, do lado de fora”, alardeei. “Do lado de fora!” Fomos ao Arruda, e enfrentei minha última tentação, que foi onde capitulei. A quarta e última tentação: ingressos caindo do céu Chiló comprou seu ingresso e correu mais que o Carlinhos Bala, para ver os primeiros lances. Expliquei à alvirrubra que tenho personalidade, que estava protestando contra o preço dos ingressos, que não iria entrar. Num gesto de desespero, avisei: “Vou assistir ao jogo na churrascaria Colosso”. Então, amigos, aconteceu o seguinte: no caminho para a Colosso, os ingressos do Futebol Solidário estavam sendo vendidos a R$ 1,00. Acho que muita gente teve prejuízo, porque tinha mais cambista do que gente. O jogo já tinha começado, quando a alvirrubra sugeriu entrarmos, porque queria ver o jogo. Parti para o último recurso: “Tenho medo de altura. A geral é muito alta”. A 200 metros do estádio, aconteceu o fato mais inusitado em minha longa carreira de torcedor. Um cambista se arretou com o prejuízo e jogou dezenas de ingressos do Futebol Solidário para o alto. Foi a primeira vez na vida que vi ingressos caindo do céu. Comecei a recolher, para minha coleção. Peguei somente seis. Estava com eles no bolso, e ela ficou insistindo para entrarmos. “É muito alto, tenho medo de altura”. “Vamos ver pelo menos se esses ingressos valem”. Amigos, neste momento a alvirrubra jogou um charme, e em cinco minutos eu dei uma de homem-aranha. Estava eu, na geral. Olhei para os lados, nenhum amigo para me chamar de safado, para perguntar pelo protesto contra os preços, para me acusar de falta de personalidade. Eu já tinha tomado várias doses de vodka e nem reparei direito na altura. Não vi o gol que o Santinha levou do Ypiranga e sei que o meu clube ganhou com dois pênaltis. Lá de cima, olhei as arquibancadas: uma morgação completa. Na verdade, o estádio estava morgado, a torcida não tinha aquele ânimo. Procurei Saulo Profeta, Joãozinho, Oswaldo Titio, Nana, a Sanfona Coral. Nada. Diazepan, K2, Stênio, nosso “preparador fígado”, nem sinal. Cadê a torcida, meu Deus? “Por que a torcida do Santa está tão desanimada?”, perguntou a alvirrubra. “Cansaço e liseu”, respondi. Voltei de carona com a alvirrubra e guardei alguns ingressos para mostrar aos amigos. Foi a primeira vez na vida que vi ingressos caírem do céu. Fiquei achando que foi Deus que me mandou um presente, e é feio recusar presentes divinos. Nos próximos jogos, acho que voltarei às gerais, já que superei o trauma da altura. Mas continuo minha campanha: Ingressos mais baratos já! A foto acima é mais uma contribuição de Róbson Sena, fotógrafo oficial do Blog do Santinha

13 comentários