Um dia na terra de Neto
Parque de diversões no centro da cidade e registro da visita de Neto em dezembro ao primo Reinaldo. por Inácio França, enviado especial a Miguel Calmon (BA) Alheia às calúnias e insultos proferidos por nossos leitores e colaboradores durante o auto-proclamado recesso nos primeiros dias do ano, a intrépida equipe do Blog do Santinha percorreu 1.000 quilômetros por terra e ar para conhecer a pequena cidade baiana onde os habitantes estão desistindo de torcer pelo Flamengo, Vasco, Bahia e Vitória para vestir a camisa coral e acompanhar os jogos do Santa Cruz. Foram necessárias uma hora de espera no aeroporto, mais outra hora dentro de um Boeing novinho em folha e quase quatro horas na estrada, a bordo de um Uno preto (o carro era velhinho mesmo, fabricado antes que a Fiat afrescalhasse para Mille) para chegar em Miguel Calmon, cidade que fica depois de Jacobina, que por sua vez fica depois de Senhor do Bonfim, que fica pra lá de Juazeiro. Chão, muito chão para conhecer a terra onde nasceu o volante Neto. Às duas da tarde, a cidade parecia deserta. O sol do sertão baiano castiga quem arruma o que fazer num horário tão impróprio para atividades laborais ou acadêmicas (poderia escrever simplesmente para "trabalhar e estudar" mas, depois de viajar tanto, tenho direito de abusar um pouquinho). Todo mundo em casa, tirando um cochilo, e eu lá fora torrando ao sol, com camisa tricolor, bermuda e máquina digital na mão, parecendo um turista que errou o caminho para a Salvador. Dona Nalva, a responsável pela limpeza do posto de Saúde define o ritmo de Miguel Calmon: "aqui é tudo sempre assim, parado. Na minha rua, dá seis horas, parece um cemitério de madrugada. Bom mesmo é São Paulo, com aquele trânsito todo, barulho e um matando o outro. Ah, eu gosto dessas aleivosias todas". Tem gosto pra tudo nesse mundo. Vamos ao que interessa. Numa parede do posto, onde também funciona o gabinete do secretário-adjunto de Saúde, Reinaldo, primo de Neto, o calendário 2006 impresso pela secretaria municipal de Turismo e Esportes não deixa dúvidas da admiração pelo ídolo: em destaque, uma foto do camisa 5 tricolor, em pleno Arruda lotado, acompanhada da legenda "campeão pernambucano 2005 e vice-campeão brasileiro série B". Um jornal local publicou em dezembro um artigo do pastor Samuel Alexandre, da igreja Congregacional, relatando a emoção de entrar no Arruda lotado para acompanhar das cadeiras a partida Santa x Portuguesa. Na edição seguinte, o jornal publicou uma entrevista pingue-pongue com o volante. O homem é mesmo o orgulho de todos os calmonenses vivos ou mortos. Reinaldo dá uma informação importante, inédita para a torcida do Santa e revelada agora pelo Blog:"Neto recebeu proposta do Botafogo e do Vasco, mas quem insistiu mesmo foi o Juventude. Ele recusou as duas primeiras porque o salário não valia a pena. Mas ele não quer sair do Santa, ele gosta da torcida e quer entrar para a história do clube. Ele quer ser o herdeiro de Givanildo e Zé do Carmo". Outra informação inédita foi fornecida por João Batista, motorista da prefeitura e conhecido nos campos de pelada de Miguel Calmon como João Preto, zagueiro carniceiro, que fez fama no campeonato intermunicipal por seu estilo violentíssimo de matar as jogadas."Vocês chamam ele de Neto, mas aqui a gente chama de Mamoninha. Se você escrever isso, ele vai ficar danado comigo". O apelido é do tempo em que Neto era um garoto e jogava na zaga do Aguardente (será que a torcida bebia?) e ele já era um defensor veterano do Farense de Itapura. João explica: "Farense é um time da cidade do Faro, em Portugal, e que algum gaiato resolveu copiar o nome. E Itapura é o distrito onde nasci". Apaixonado por futebol, João Preto, é um dos muitos que assistem aos jogos do Santa (ou melhor, de Neto) pela TV a cabo. "Eu não tenho SportTV não, mas vou na casa dos amigos ver Mamoninha jogar". Trauma no interior de São Paulo Sol poente, temperatura bem mais agradável, João assumiu o cargo de cicerone e guia turístico-futebolístico de Miguel Calmon, nos levando até o estádio municipal João Liberato, o campo de terra, alambrados azuis e vermelhos e arquibancada caiada, onde Neto conquistou seus títulos intermunicipais. Treinando sozinho para manter a forma física, outra lenda do futebol da cidade: Nonon, o melhor atacante da história de Miguel Calmon (asseguram João Preto e Reinaldo) e um dos melhores amigos do volante tricolor. Depois de confirmar as informações a respeito das propostas feitas pelos clubes "do Sul", Agamenon (esse é o nome de batismo do craque), conta a história que o fez desistir do profissionalismo, uma história que talvez explique a cautela do próprio Neto diante de empresários e ofertas de novos contratos. "Eu e Neto fomos parar em Araras, para fazer teste no União São João. Largaram a gente lá no interior de São Paulo. Eu estava pronto para assinar contrato, mas machuquei o joelho num dos primeiros treinos. O clube desistiu e pronto, fiquei sem nada, tive de voltar por conta própria. Neto era mais novo do que eu, aí não quis ficar lá sozinho e voltou comigo. Foi muito difícil". Depois que Nonon retorna ao seu treino solitário, nosso guia arrisca uma opinião que não chega a ser novidade, mas justifica a atenção que dispensamos ao nosso camisa 5: "Neto é um guerreiro, um jogador que nunca se entrega. Acho que é por isso que a torcida do Santa gosta tanto dele. Pelo que ele fala, a torcida do time de vocês é assim também não é?" Sim, João, é desse jeito mesmo: no estádio e na vida, a torcida coral nunca se entrega. Parque de diversões no centro da cidade e registro da visita de Neto em dezembro ao primo Reinaldo. *** O Blog do Santinha está tentando localizar algum tricolor em Serra Talhada interessado em contar como foi a partida contra o Serrano. De preferência, enviando fotos digitais para publicação. Alguém se habilita? Os interessados devem enviar mensagem para blogdosantinha@gmail.com








