Sanfona geral
Acima Marcelino, Zé e a Sanfona; abaixo Jancell comemora a vida e a vitória por Inácio França O campeonato pernambucano finalmente começou para a torcida tricolor. Os mesmos torcedores que, na subida da rampa para as gerais pareciam lentos e preguiçosos, foram contagiados pela vontade de Carlinhos Bala, ao ponto, da expectativa por um gol do camisa 11 ser maior do que pela goleada que não houve. O Bala, aliás, ora ele dá a impressão de agarrar as mãos dos colegas de ataque e sair correndo, arrastando todo o time atrás dele, ora parece que joga com um sino na mão para fazer barulho e acordar os colegas e a torcida. A disposição do artilheiro - e também o futebol, digamos, irônico de Rosembrinck - acordou as gerais ainda no começo do jogo, antes mesmo da boas notícias da Ilha do Retiro chegarem pelo radio. E foi nas gerais que cheguei a outra constatação: a Sanfona Coral já não pertence ao sanfoneiro, muito menos ao zabumbeiro ou ao triangueiro, (ou trianguleiro, sei lá como qual é o nome). Descobri que a mais simpática e original torcida organizada dos estádios pernambucanos pertence ao povo da geral do Arruda. O gigante Marcelino, um guarda-roupa que faz lembrar o lendário torcedor Pantera, adotou a Sanfona antes do jogo começar. Desacostumados com a altura e a imensidão das arquibancadas superiores, ficamos feito tontos sem saber qual o melhor local para assistir à partida e animar a torcida. Foi Marcelino quem resolveu o dilema: acenando para os músicos, pediu que a massa abrisse espaço nos degraus, exatamente na altura da linha de meio-de-campo. “Aqui é melhor, é bem no meio! Venham pra cá!”, insistia, solidário e empolgado, com uma disposição enorme de sair do estádio na condição de amigos de todos. Logo depois foi a vez de Zé Lima – “pode botar Zé, o pessoal me conhece só como Zé” –, adotar e ser adotado pelo grupo. Com seus cabelos oxigenados, o sujeito pegou o triângulo e substituiu de forma convincente a também galega Malvina. Depois da vitória, devolveu o instrumento e sumiu. Se havia um homem ali com motivos para se considerar feliz, esse homem era Jancell, de Águas Compridas, técnico de celulares, diabético, de 28 anos, dois filhos e outro dos muitos donos da Sanfona e do Santa Cruz. Ele explica: “Passei dois dias na UTI do hospital e mais oito dias internados com um problema do coração, uma inflamação nas coronárias. Faz uma semana hoje que os médicos me deram alta, mas ainda vou fazer um cateterismo”. E o terceiro tempo foi o melhor da festa: na churrascaria Colosso, na frente da televisão, foi a Sanfona quem embalou o ritmo da volta da coisa ao inesquecível ano do centenário.










