Arquivo de Março de 2006
Um artista do povo
Jogo nas sociais? Nunca mais
Amigos, no jogo contra o Central fui com Oswaldo Titio para as sociais do Arrudão. O motivo não foi lá tão nobre. A arquibancada a R$ 14,00 é pra se lascar todo, e a geral, a R$ 2,00, nos cambistas, não me apetece. Tenho medo de altura e podem dizer o que quiserem, mas passou do segundo andar, fico tendo vertigens, não vou ficar contra minha natureza. Então, Oswaldo Titio me oferece um ingresso nas sociais. Ótimo, estou salvo. Ótimo o carai. Foi a primeira e única partida nas sociais. Meu deus do céu, os caras ali vão com raiva do time. Esculhambam o Mais Querido do início ao fim do jogo. Só fazem esculhambar. Diria que ali tem "esculhambador oficial do Santinha". Mal o jogo começa, um camarada grita: “Bora, Osmar Puto!” Não entendi nada. Logo Osmar? Quando me virei, para ver quem era, Osmar cruzou e Bala fez o gol do Santa. Daqui a pouco, outro berro: “Essa porra tá desnutrida!” Era com Rosembrick, o nosso Rose, que é adorado nas gerais e arquibancadas. Fico pensando nisso. Na geral, onde estão os fodidos e remediados, a turma empurra o time, grita “vai mago”, “pra frente, Osmar”, "vamos, santinha". Nas sociais, é só cascudo nos jogadores. Pior: os caras falam alto pra caralho. Me parece o retrato do Brasil. Os fodidos sempre mais generosos que a elite. “Tas emaconhado, mago?”, grita outro. Estão pegando no pé do velho Rose. Eu já fico querendo ir para a arquibancada. Daqui a pouco, sai um grito: “Ei, Globo, vai tomar no cu”. Não entendi nada. “Periz, chupa sangue!”. Com essa eu concordei, mas teria dito: "bora, negão!", só para dar uma força ao cara. “Eu não acredito que ele tirou Xavier para botar essa desgraça”, comentou um bisavô. Eu também não acreditei. Uma senhora muito antiga, que estava ao meu lado, fez um muxoxo e comentou; “Que torcedor azia”. O segundo tempo foi aquela desgraça. Cada toque na bola, o camarada urrava, no degrau de cima: “Isso é uma misera”. Daqui a pouco, começou o coro: "Burro! Burro!". Caralho, o sujeito nem chegou no clube, e já estão esculhambando.O outro: “Essa porra é o segundo Givanildo”. “Toca a bola, desgraça, toca a bola, derrota”, berrou um tímido disfarçado, diria um falso tímido. Um torcedor cadavérico, já quase com um pé no cemitério de Santo Amaro, falou estufando o peito: “Eu dava tudo na vida para um cara seqüestrar esse Neto”. No final do jogo, eu já estava mais puto com a torcida do que com o time. Pra finalizar, saiu o seguinte comentário, de um senhor com rádio quase dentro do ouvido: “É muita remela”. Acabou o jogo, voltei com Titio e prometi a mim mesmo: nunca mais assisto jogos nas sociais. Meu lugar é na arquibancada, ao lado dos meus, junto da Sanfona Coral. Não nasci para ficar esculhambando meu Santa, por mais que o time tenha jogado mal. Gosto de esculhambar mesmo é a coisa e a barbie, coisa que farei domingo, a plenos pulmões.
31 comentários20 minutos de espetáculo e 70 de vergonha










