Blog do Santinha

Crônicas, opiniões, desabafos e comemorações sobre o Santa Cruz Futebol Clube, o Santinha, e a torcida coral.

Arquivo de Março de 2006

Um artista do povo

Josemar, de óculos azuis e com o pandeiro, comandando a gréia
por Inácio França
 
Josemar da Silva Lima apareceu logo numa das primeiras apresentações da Sanfona Coral no estádio do Arruda. Foi, provavelmente, na partida contra o São Raimundo, mas ninguém que acompanha os músicos tem certeza de quando isso aconteceu. Ele foi chegando e, lá no meio da arquibancada, pegou o triângulo que estava nas mãos de Malvina. No jogo seguinte, lá estava Josemar de novo, desta vez com seu próprio triângulo. Todos que acompanhavam o grupo achavam que ele estava ali porque era amigo de alguém. No meio de um grupo de amigos formado por gente de classe média, nem todos perceberam o que ele é realmente: um artista popular, desses que fazem arte e reinventam a vida a partir de qualquer coisa. Um gol perdido, uma confusão na porta do estádio ou uma viagem cansativa são transformados em matéria-prima para repentes e músicas improvisadas.
 
 
No segundo tempo de Santa x Central, por exemplo, ele foi uma atração a parte lá nas gerais. O Santinha se arrastava em campo, enganando a torcida, mas ninguém que estava perto de Josemar deixou de rir um só minuto: o sujeito narrou o jogo todo, como se fosse locutor de rádio, num ritmo tão acelerado que perdi o fôlego só de escutar. Vou me corrigir: com seu bom humor, ele é muito mais talentoso do que qualquer locutor das nossas emissoras de rádio. "Vai Carlinhos Bala pá pá pá, mata ele Carlinhos…" O "pá pá pá" pra quem não entendeu, é a onomatopéia que imita o som dos tiros de um revólver.
 
 
Desempregado - "tô fazendo uma ôia de pintor de paredes" -, ele se tornou fundamental para o pessoal que acompanha a Sanfona. Tanto que, quando está liso, sempre aparece alguém para bancar o ingresso.
 
 
Mas um mistério sobre Josemar precisa ser esclarecido: o que diabos ele toma antes de ir pro estádio? Ele não pára de gritar, fazer repentes, cantar, tirar onda e tocar triângulo, ganzá e até zabumba. Sim, porque artista popular que se preza é multimídia. Ele só não toca sanfona porque Chiló não deixa.
 
 
Depois do jogo de ida contra o Central, por exemplo, já era alta madrugada no ônibus com o pneu estourado, e ele greiando, fazendo poesia com o miserável do barulho da borracha do pneu batendo na lataria do busão. Na partida de quarta-feira, ele destoava da morgação geral na saída do estádio, tocando zabumba e puxando músicas na rampa.
 
 
20 comentários

Jogo nas sociais? Nunca mais

Amigos, no jogo contra o Central fui com Oswaldo Titio para as sociais do Arrudão. O motivo não foi lá tão nobre. A arquibancada a R$ 14,00 é pra se lascar todo, e a geral, a R$ 2,00, nos cambistas, não me apetece. Tenho medo de altura e podem dizer o que quiserem, mas passou do segundo andar, fico tendo vertigens, não vou ficar contra minha natureza. Então, Oswaldo Titio me oferece um ingresso nas sociais. Ótimo, estou salvo. Ótimo o carai. Foi a primeira e única partida nas sociais. Meu deus do céu, os caras ali vão com raiva do time. Esculhambam o Mais Querido do início ao fim do jogo. Só fazem esculhambar. Diria que ali tem "esculhambador oficial do Santinha". Mal o jogo começa, um camarada grita: “Bora, Osmar Puto!” Não entendi nada. Logo Osmar? Quando me virei, para ver quem era, Osmar cruzou e Bala fez o gol do Santa. Daqui a pouco, outro berro: “Essa porra tá desnutrida!” Era com Rosembrick, o nosso Rose, que é adorado nas gerais e arquibancadas. Fico pensando nisso. Na geral, onde estão os fodidos e remediados, a turma empurra o time, grita “vai mago”, “pra frente, Osmar”, "vamos, santinha". Nas sociais, é só cascudo nos jogadores. Pior: os caras falam alto pra caralho. Me parece o retrato do Brasil. Os fodidos sempre mais generosos que a elite. “Tas emaconhado, mago?”, grita outro. Estão pegando no pé do velho Rose. Eu já fico querendo ir para a arquibancada. Daqui a pouco, sai um grito: “Ei, Globo, vai tomar no cu”. Não entendi nada. “Periz, chupa sangue!”. Com essa eu concordei, mas teria dito: "bora, negão!", só para dar uma força ao cara. “Eu não acredito que ele tirou Xavier para botar essa desgraça”, comentou um bisavô. Eu também não acreditei. Uma senhora muito antiga, que estava ao meu lado, fez um muxoxo e comentou; “Que torcedor azia”. O segundo tempo foi aquela desgraça. Cada toque na bola, o camarada urrava, no degrau de cima: “Isso é uma misera”. Daqui a pouco, começou o coro: "Burro! Burro!". Caralho, o sujeito nem chegou no clube, e já estão esculhambando.O outro: “Essa porra é o segundo Givanildo”. “Toca a bola, desgraça, toca a bola, derrota”, berrou um tímido disfarçado, diria um falso tímido. Um torcedor cadavérico, já quase com um pé no cemitério de Santo Amaro, falou estufando o peito: “Eu dava tudo na vida para um cara seqüestrar esse Neto”. No final do jogo, eu já estava mais puto com a torcida do que com o time. Pra finalizar, saiu o seguinte comentário, de um senhor com rádio quase dentro do ouvido: “É muita remela”. Acabou o jogo, voltei com Titio e prometi a mim mesmo: nunca mais assisto jogos nas sociais. Meu lugar é na arquibancada, ao lado dos meus, junto da Sanfona Coral. Não nasci para ficar esculhambando meu Santa, por mais que o time tenha jogado mal. Gosto de esculhambar mesmo é a coisa e a barbie, coisa que farei domingo, a plenos pulmões.

31 comentários

20 minutos de espetáculo e 70 de vergonha

O mago, numa foto antiga roubada da Coralnet
por Inácio França Saí com febre do Arruda ontem à noite. Por causa do futebol do Santinha, cheguei em casa com 38 graus e uns quebrados. Até parece que o time foi tomado por um espírito de porco, uma coisa ruim que se diverte sacaneando a torcida. Acabou o jogo contra a coisa com aquela raça toda, aquele futebol de cabra-macho de quem não se conforma com a derrota nem com a roubalheira do juiz. Aí vem a partida seguinte. Logo nos primeiros minutos, um futebol de arrasar, um show de bola pra deixar Ronaldinho Gaúcho com vontade de jogar no Arruda. Foram 20 minutos pra encantar qualquer um. Um a zero, dois a zero numa jogada magistral de Osmar, bola na trave e três a zero em trocas de passes arretada entre os inimigos Bala e Gentilbarão. Aí, baixou o espírito obsessor. Xavier fez o cruzamento para o primeiro gol e jogou um bolão no início do jogo. Depois, surtou. Errou todos os passes e cismou de revogar as leis da Física: mirava o corpo do lateral do Central, marcava carreira e tentava passar pelo meio do sujeito. Não conseguiu nenhuma vez. No intervalo, dizem que ele ficou em transe no vestiário e Giba teve que trocá-lo por Periz, outro que é normal, normal. A arrancada pela direita foi espetacular. Osmar escapou veloz e fez um cruzamento caprichadíssimo na cabeça de Bala. Aí contaram para nosso camisa 2 que ele era melhor que Cafu, Djalma Santos e Leandro todos juntos. Ele acreditou e não fez mais nada que prestasse. A zaga é horrorosa. Carlinhos Paulista anda fazendo gols, mas depois que vi na TV o lance do gol da coisa entrei no estádio com má-vontade e de olho no capitão. E é verdade: o homem não tá jogando nada. Falha sempre, tornou-se uma mãe pros atacantes adversários.
 
Lá na frente, Giba achou a função certa para o mago Rosembrick. O problema é que ele não fez as pazes com Thiago. O Gentilbarão se desloca pela direita, ele passa a bola para Bala marcado na esquerda. Thiago corre pela esquerda, ele procura Bala. Quando acha, passa pro amigo. Quando não acha, atrasa ou tenta resolver sozinho. Se dá raiva em quem tá na geral, imagina no jogador que se desloca para receber e fica de mãos abanando?
 
No final, ficou a impressão que, mais do que qualidade, falta vontade no time. Ou será que a rixa entre os atacantes é apenas mais um problema desse grupo que, em campo, parece tão desunido?
22 comentários