Ao mestre Givanildo, com carinho
“Querido Givanildo,
Nós torcedores somos uma gente esquisita. Amamos e odiamos em uma fração de segundos. Não há estágio intermediário nos sentimentos, quando entra a paixão pelo clube. Ou estamos no céu, ou no inferno. Ou vivemos o êxtase, ou mergulhamos na fossa mais profunda. O título é tudo, o vice-campeonato é uma ferida na alma, que iremos lembrar até o fim da vida.
Eu, como torcedor do Santinha, só posso agradecer à tua passagem meteórica pelo Mais Querido, que terminou ontem. Teu destino agora é o Atlético Paranaense, o Furacão. Não sei se é o clube mais indicado para ti, neste momento, mas é tua decisão, é preciso ser respeitada.
A tua passagem pelo Santa foi, ironicamente, uma espécie de furacão também. Não é todo mundo – eu diria quase ninguém -, que encontra um clube endivididado, amargando um recesso de títulos, sem confiança na praça, e o transforma em um time campeão. Nós precisávamos não somente de um grande treinador, mas de um grande homem, e chegaste no momento em que tudo parecia incerto e sem esperanças.
O ano de 2005, para a torcida coral, foi certamente um dos mais felizes dos últimos anos. Aqui, no Blog do Santinha, acompanhamos o reencontro do torcedor com sua velha paixão, que andava adormecida. Vimos o surgimento da Sanfona Coral, de novas torcidas organizadas, como a Legião Fita Azul, reencontramos a cada jogo os amigos que andavam cuidando da vida, indo ao estádio sozinhos, abatidos, desanimados com o que viam. A torcida do Santinha atravessava seu inferno.
Quantas e quantas viagens não fizemos na lendária Kombi Coral, em 2005? Quantas farras na Colosso, antes de cada jogo? Ah, velho Givanildo, te agradeço pelas muitas, infindáveis, inenarráveis alegrias. Há muito tempo não vejo a massa coral tão feliz, sorridente, de bem com a vida. O tricolor reaprendeu a sorrir.
Lembro agora do último jogo, contra a Portuguesa, quando o estádio inteiro cantou “Givanildo/Givanildo/fez o Santa subir”, uma versão improvisada de “Jesus Cristo/Jesus Cristo/eu estou aqui”. Impagável.
E por trás disso, estava teu trabalho. Um trabalho quieto, sereno, cuidadoso. Sabemos algumas coisas dos bastidores, a angústia para que os atletas recebessem os salários, as seduções de outros clubes, os problemas internos, o assédio de outros clubes em cima dos nossos melhores atletas. E teu trabalho foi duplo: tinha que ser o treinador do Santa e uma espécie de pai duro, que conquistou o respeito dos jogadores e da diretoria, sem dar um grito, sem fazer escândalos na Imprensa.
Campeão Estadual 2005, vice-campeão da Série B, acesso à Série A, nosso velho sonho, o bi a caminho. Só posso mesmo te agradecer, e desejar boa sorte.
Que o Furacão te receba bem, velho Giva. Vamos agora receber um bom treinador, chamado Giba. A diferença é de apenas uma letra, mas espero que ele acabe herdando tuas qualidades, e possamos dizer, no futuro, que o cara parece o “Gibanildo”.
Eu só iria pedir que tu ficasse no Santa até o jogo contra a coisa, no domingo, mas é melhor assim mesmo. Tenho certeza que os jogadores vão se abraçar no vestiário e prometer a vitória ao “Velho Giva”.
E como dizem no fim dos grandes romances – foi bom enquanto durou”.
Um abraço e boa sorte,
Samarone Lima
PS de Inácio França: Tua presença no Atlético-PR, mestre Giva, é a prova viva que a tal globalização é mesmo uma porqueira. Lothar Mathaus chegou a Curitiba na maior pompa, foi visitar a escola internacional num carro cheio de seguranças e com a Rede Globo atrás. Estava escolhendo o lugar onde os filhos poderiam estudar. Branco, bem nutrido, elegante pra dedéu, bonitão e campeão do mundo, “aprovou” a capital do Paraná, com aquele ar ariano de primeiro mundo. Acabou saindo pelas portas do fundo: abandonou o time nas finais com medo de levar uma gaia na Europa, um papelão nunca visto antes no futebol brasileiro. Aí, o Atlético, time metido a besta com um estádio que mais parece um shopping-center, foi buscar a solução num sujeito como tu, que é a cara do Nordeste. Mulato, feio que só a gota-serena, com corpo de menino desnutrido das favelas de Olinda, és cabra-macho e homem de caráter. E entende mais de bola que qualquer alemão com cara de ator de novela.









