Blog do Santinha

Crônicas, opiniões, desabafos e comemorações sobre o Santa Cruz Futebol Clube, o Santinha, e a torcida coral.
Arquivo de 28 de março de 2006

Um cronista sem visão do jogo

O jogo, na visão embaçada de um ébrio

Por Samarone Lima Amigos corais, aqui vai uma confissão. Na última partida, em nosso estádio, não vi o empurra-empurra de Bala x Gentil, não reparei que Bala deu as costas em um lance importante e nem de longe tive a menor idéia de que o mago Rosembrick não passava a bola para o Tubarão-Gentil. A sorte deste Blog é que temos o Inácio França para fazer a análise cuidadosa de tudo. O tricolor vai perguntar: sim, mas se tu não visse nada, estavas aonde, tabacudo? Amigos, estava na arquibancada de sempre, porque sou homem de arquibancada, ao lado da Sanfona Coral e da patuléia de sempre: Inácio, Emília, João Valadares (mais morto que vivo), Ritinha, Nana, Oswaldo Titio etc. Cheguei bem antes do início do jogo e fiquei num ótimo lugar. O céu estava limpo e tudo iluminado. Lembro até quando o Santa entrou em campo, aquela emoção de sempre. O único detalhe era o grau alcoólico no organismo, que embaçou completamente minha visão de jogo. Usando a terminologia do nosso Saulo Profeta, confesso que ceguei. Está me faltanto visão do jogo. Então me dediquei a repassar o filminho do domingo, antes do jogo. Comecei com Naná, tomando uma cervejinha enquanto preparávamos o “Churrasco Coral”, aqui no Poço da Panela, defronte ao bar de Seu Vital. Depois, a moça alvirrubra chegou com um litro de Rum Montilla. Era uma dose pra ela, duas pra mim, duas pra mim, uma pra ela, e assim foi terminando a manhã. Como se não bastasse, chegou o pai de um tricolor, que esqueci até o nome, com uma garrafa de Serra Preta, uma cachaça paraibana que é uma delícia. “Vê que cachaça boa”, disse ele, cheirando, como quem cheira o pescoço da mulher amada. Mandei ver. A alvirrubra conseguiu entrar no estádio com o restante do Rum. Antes do início do jogo, a citada bebida já estava no estômago, a caminho do fígado e do cabeção. Para completar o quadro, no estádio tem acontecido esse estranho milagre da multiplicação das cervejas. Estou quieto, no meu canto, e vem um copão de cerveja, geralmente bancado pelo Oswaldo Titio, que tem este apelido porque parece mesmo um tio da tricolorzada. Naná também é meio gastadorzinho. Basta chegar ao Arruda, que puxa aquela nota de cinqüenta e sai rasgando de cerva. É Nova Schin, mas de graça, meus amigos, vai até Bossa Nova, aquela desgraça, que segundo um amigo meu, “tem gosto de lama”. Em noventa minutos, dá para beber um bocado, garanto, e foi o que fiz. Não lembro direito como foi o gol da coisa, os lances mais importantes, pensei que nosso empate tinha sido uma cabeçada fulminante do Paulinho, e minha memória agora tem esta dependência física de um objeto. Só lembro dos melhores lances depois de assistir Lance Final ou os telejornais matinais. Sou capaz de cancelar qualquer trabalho somente para assistir ao Globo Esporte do dia seguinte aos jogos do Santa, somente para ver o que vi no dia anterior, no estádio, mas, estranhamente, não vi. Lembro de um fato realmente inacreditável. Quando fizemos o gol, fiquei tão louco, os óculos voaram arquibancada abaixo. Fiquei tateando cegamente no cimento (4,5 graus de miopia no olho esquerdo; 4,75 no olho direito), enquanto milhares pulavam, possivelmente em cima dele. Lá pelas tantas, encontrei o dito cujo, mas estava sem a lente esquerda. Puta merda, agora é que não vejo nada mesmo, pensei. Um sujeito me olhou muito preocupado e disse: “Vamos procurar”. Eu já tinha perdido as esperanças, achava que a lente já tinha virado poeira, quando ele, dois ou três minutos depois, encontrou a lente debaixo dos pés de alguém e me entregou, com um sorriso. Estava sem um arranhão. Encaixei no óculos e voltei a enxergar. Foi aí que o jogo acabou. Amanhã, vou me comportar, prometo. Uma cervejinha de leve na Colosso e nada de exageros. Daqui a pouco, os leitores deste Blog vão começar a dizer que não tenho visão de jogo. Terei que concordar e fazer somente uma correção: está me faltando é a visão do jogo.

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