Um artista do povo
por Inácio França
Josemar da Silva Lima apareceu logo numa das primeiras apresentações da Sanfona Coral no estádio do Arruda. Foi, provavelmente, na partida contra o São Raimundo, mas ninguém que acompanha os músicos tem certeza de quando isso aconteceu. Ele foi chegando e, lá no meio da arquibancada, pegou o triângulo que estava nas mãos de Malvina. No jogo seguinte, lá estava Josemar de novo, desta vez com seu próprio triângulo. Todos que acompanhavam o grupo achavam que ele estava ali porque era amigo de alguém. No meio de um grupo de amigos formado por gente de classe média, nem todos perceberam o que ele é realmente: um artista popular, desses que fazem arte e reinventam a vida a partir de qualquer coisa. Um gol perdido, uma confusão na porta do estádio ou uma viagem cansativa são transformados em matéria-prima para repentes e músicas improvisadas.
No segundo tempo de Santa x Central, por exemplo, ele foi uma atração a parte lá nas gerais. O Santinha se arrastava em campo, enganando a torcida, mas ninguém que estava perto de Josemar deixou de rir um só minuto: o sujeito narrou o jogo todo, como se fosse locutor de rádio, num ritmo tão acelerado que perdi o fôlego só de escutar. Vou me corrigir: com seu bom humor, ele é muito mais talentoso do que qualquer locutor das nossas emissoras de rádio. "Vai Carlinhos Bala pá pá pá, mata ele Carlinhos…" O "pá pá pá" pra quem não entendeu, é a onomatopéia que imita o som dos tiros de um revólver.
Desempregado - "tô fazendo uma ôia de pintor de paredes" -, ele se tornou fundamental para o pessoal que acompanha a Sanfona. Tanto que, quando está liso, sempre aparece alguém para bancar o ingresso.
Mas um mistério sobre Josemar precisa ser esclarecido: o que diabos ele toma antes de ir pro estádio? Ele não pára de gritar, fazer repentes, cantar, tirar onda e tocar triângulo, ganzá e até zabumba. Sim, porque artista popular que se preza é multimídia. Ele só não toca sanfona porque Chiló não deixa.
Depois do jogo de ida contra o Central, por exemplo, já era alta madrugada no ônibus com o pneu estourado, e ele greiando, fazendo poesia com o miserável do barulho da borracha do pneu batendo na lataria do busão. Na partida de quarta-feira, ele destoava da morgação geral na saída do estádio, tocando zabumba e puxando músicas na rampa.










