Blog do Santinha

Crônicas, opiniões, desabafos e comemorações sobre o Santa Cruz Futebol Clube, o Santinha, e a torcida coral.

Arquivo de Abril de 2006

Quando o racismo voltou ao futebol pernambucano


Ilustração de uma campanha contra
o racismo no futebol português

Em 2002, depois que a torcida da barbie ressuscitou o sentimento que, durante 60 anos, impediu que jogadores negros jogassem a camisa do time alvirrubro, o leitor Rodrigo Carneiro Leão de Moura escreveu o texto abaixo. Como não tinha onde publicar, ficou guardado nos arquivos do seu computador. Essa semana, ele percebeu o quanto seu desabafo continua atualizado. O problema é que, hoje, seu texto pode ser vestido como carapuça em alguns tricolores.

PATÉTICOS RACISTAS (título original)

Quem acompanha a imprensa esportiva com regularidade já deve ter conhecimento das manifestações racistas de torcedores europeus. São freqüentes os xingamentos e as faixas contra os jogadores negros, latinos e não-europeus em geral.

Talvez o caso mais marcante tenha sido o dos torcedores da Lazio, tradicional clube romano. As ofensas racistas vindas de sua torcida se tornaram tão constantes que o Presidente da Lazio - envergonhado - ameaçou proibir a entrada de seus próprios torcedores durante alguns jogos de sua equipe. Um dos jogadores mais atingidos por esses ataques racistas vem a ser, justamente, o Cafu, lateral direito do Roma (maior rival da Lazio).

Pois é: Cafu - titular da seleção brasileira.

Outro lateral titular da seleção - Roberto Carlos - já teve seu carro apedrejado e pichado por torcedores europeus com a seguinte ofensa: “Macaco”.

Pra quem ainda não sabe, os argentinos (que se pensam europeus acidentalmente nascidos na América Latina) costumam se referir aos brasileiros como “Los Macaquitos” - acredito que vocês não imaginam que eles estão nos elogiando.

Quem acompanhou a imprensa esportiva após o último jogo entre Náutico x Santa Cruz não viu nenhum comentário (nenhum!) sobre as manifestações racistas da torcida do Náutico. Quem foi ao estádio dos Aflitos sabe do que estou falando. Sempre que o goleiro do Santa (Nílson - que, além de excepcional goleiro, é negro) pegava na bola, os torcedores alvirrubros imitavam o barulho de um macaco. Talvez você imagine que era “coisa de uma minoria”. Se você foi ao estádio, você sabe que não. Tenho certeza que alguns torcedores do Náutico ficaram envergonhados e não participaram dessa palhaçada. Infelizmente, estes sim eram a minoria.

Se o racismo dos europeus pode ser classificado como vergonhoso e imbecil, o que dizer do racismo dos brasileiros (ainda mais nordestinos?!) ?

É curioso imaginar qual será o comportamento destes patéticos racistas durante a Copa. Sim, porque não sei se vocês perceberam, mas a atual seleção brasileira é a mais negra dos últimos anos.

Talvez, eles, os arianos-brasileiros, façam como Le Pen (o líder da extrema direita francesa afirmou não torcer para a seleção de seu país - campeã mundial - em razão da grande presença de negros e descendentes de imigrantes entre seus jogadores).

Não, é evidente que não.

Os racistas de anteontem certamente irão vibrar com os gols de Ronaldinho Gaúcho, de Rivaldo e de Edílson.

Porque esta é a face mais desprezível de nossa sociedade: a hipocrisia. É mais fácil manter e controlar nossas desigualdades sociais e raciais com a tão divulgada (e não menos falsa) “democracia racial” da sociedade brasileira.

E essa covarde hipocrisia está presente nos comentários do tipo “- Mas era só uma brincadeira. Uma provocação normal em jogo de futebol.” Duvido, porém, que a torcida do Náutico esteja preparando alguma provocação relacionada à cor da pele de Rodrigo Pontes (jogador do Santa que deu uma injustificável cotovelada no jogador Fumaça do Náutico. Detalhe: o agressor é branco e louro; o agredido é negro).

Também a absoluta omissão da imprensa pernambucana é vergonhosa. Mas não é surpreendente. Simplesmente porque nós achamos que foi uma “coisa normal”.

Mas, na verdade, eu queria agradecer aos racistas alvirrubros. Porque anteontem eles me fizeram lembrar de tudo o que eu mais desprezo na sociedade brasileira: sua elite medíocre, burra e covarde. Finalmente, eles me lembraram o orgulho de poder afirmar: “Eu sou preto, branco e vermelho”

Recife, 30 de maio de 2002

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Carlinhos Paulista bota as cartas na mesa

Carlinhos Paulista de alma escancarada

por Inácio França

Há uma semana, o Blog do Santinha publicou um artigo produzido a partir das informações colhidas com três diferentes fontes sobre um racha no elenco tricolor. Um dos responsáveis por esse suposto conflito seria o zagueiro Carlinhos Paulista, que leu e não gostou de ver seu nome envolvido na trama.

Pouco antes de embarcar para Porto Alegre, ele entrou em contato com a equipe do Blog para desabafar e acertou uma entrevista para deixar tudo em pratos limpos.

Ontem (quarta-feira, 26 de abril) finalmente aconteceu a conversa. Foram mais de 40 minutos de bate-papo na sala de entrevistas do Arrudão. Descontraído, bem-humorado e bastante paciente, Carlinhos não se esquivou de nenhuma pergunta, encarando de frente até as questões mais delicadas.

Além da sua versão sobre o que foi publicado, nossa conversa tocou em vários assuntos. Para facilitar a leitura, resolvi publicar tudo dividido em tópicos:

*****
a) Carlinhos Paulista por ele mesmo:

“Tenho 31 anos, sou de Campinas. Sou um cara que coloca sempre a família em primeiro lugar. Se minha mulher e meus filhos estão bem, então eu estou feliz. Tenho dois meninos, um de quatro anos e outro que vai completar dois anos. E atualmente estamos muito bem adaptados no Recife. Acho essa cidade fantástica e minha família se adaptou muito bem aqui. Tudo o que eu quero da vida está aqui em Recife”.
b) A vida dentro das quatro linhas:

“No futebol, comecei a jogar no Guarani, passei pelo Juventus de São Paulo, Juventude. Aí, fui pra Alemanha e disputei a segunda divisão de lá por um clube chamado Waldhof-Mannhein. Tive que me adaptar ao futebol alemão, até de líbero e de volante eu atuei. Depois que meu empresário brigou com a diretoria do clube, os caras se vingaram em mim. Voltei pro Brasil para jogar no Figueirense, onde fui campeão estadual e disputei as finais da série C. Em 2000, fui pro Bahia para jogar a Copa joão Havelange. Aí, voltei pro Figueirense para jogar a série A em 2002 e 2003. Tive outra passagem pelo Guarani e vim pro Santa Cruz no ano passado”.
c) A passagem pela seleção brasileira:
“Joguei em todas categorias de base da seleção: sub-15, sub-17, sub-19, sub-21, sub-tudo. Fui convocados cinco vezes para a seleção principal. Em 1995, até fiz um gol. Foi num amistoso em Manaus contra a Colômbia, após a reforma do estádio Vivaldo Lima, no dia 20 de dezembro de 1995. A partida estava empatada em 1 a 1 e fiz o segundo gol do Brasil. Ganhamos por 3 a 1″.
d) Carlinhos dá a sua versão sobre e contradiz o Blog do Santinha:
“Costumo tentar acertar quando percebo que as críticas são construtivas e tento ignorar as críticas que são feitas só para destruir. Mas quando li aquele texto, resolvi entrar em contato porque falou no meu comportamento extra-campo. Minha mulher ficou chocada e se perguntava ‘meu marido, fazendo isso?’ Nunca fui um sujeito desagregador, essa história de racha e briga com Roberto nunca existiu. Como é que eu poderia brigar com o cara que mais me ajudou a me entrosar quando cheguei aqui em 2005? Roberto foi o sujeito que, mesmo sabendo que iria disputar a posição com ele, facilitou minha vida assim que cheguei ao Recife. Tanto que ele foi o primeiro a saber que eu iria desmentir tudo”.
“O que deve ter acontecido é que as pessoas interpretaram nossas brigas em campo como racha, como brigas sérias mesmo. Porque, em campo, eu brigo muito com Roberto. Discuto mesmo. E brigo muito com Neto. Nos coletivos é a mesma coisa. Para quem está vendo tudo de fora, parece que a coisa é grave mesmo. Eu até brinco com Neto dizendo que a gente só não briga quando um dos dois está no banco”.
“Até o ano passado Roberto e Neto eram os dois principais representantes do elenco para discutir o valor das premiações junto com a diretoria. Esse ano, por causa da experiência e da liderança que também comecei a exercer, eu também a participar das negociações. Isso é natural no futebol, mas pode ser que alguém tenha interpretado como se fosse uma disputa”.
“Tirando aquela confusão entre Bala e Thiago, nunca houve nenhum conflito no elenco. O que realmente aconteceu é que, em 2005, havia um sentimento maior de união. Esse ano isso não aconteceu até pelo cansaço físico e mental. Todos nós só tivemos, no máximo, de 10 a 15 dias de férias depois do final da série B. Nos reapresentamos antes do Natal e começamos a jogar pelo estadual logo depois do Ano Novo. Ninguém se sentia muito disposto a, depois do treino, parar para conversar ou ficar mais uma hora treinando finalizações, por exemplo. Voltamos a fazer isso agora, depois que perdemos o campeonato pernambucano”.

e) A pressão na reta final do estadual:

“Quando começou a reviravolta no final do campeonato pernambucano, passamos a sofrer uma pressão muito grande. Eu senti uma pressão muito grande em cima de mim, principalmente porque todos falavam que a zaga tava mal, que a zaga tava batendo cabeça e tudo mais. Mas aí, quando se pensa em zaga, ninguém lembra que o sistema defensivo é composto por dois laterais, dois zagueiros e dois volantes”.
“A mudança de treinador aconteceu nesse momento, no início da reviravolta. E isso foi muito complicado para o grupo. Ninguém sabe, por exemplo, que na véspera da partida contra o Central (3 a 2, no Arruda), treinamos em dois expedientes, o que é comum lá em São Paulo onde Giba trabalhava, mas aqui não tínhamos esse condicionamento. E todo mundo se matou no treino para mostrar serviço por técnico novo. O resultado é que, no segundo tempo, eu, por exemplo, estava cansado demais, as pernas pareciam pesar cem quilos. E o cansaço deixou o time inseguro”.
f) O pênalti no primeiro jogo da decisão:

“Aquele pênalti não existiu. O juiz inventou e desestabilizou todo o nosso time. Depois do pênalti, ficamos irritados, nervosos. A desatenção no segundo gol foi provocado por essa irritação. O time estava revoltado com a arbitragem. O que mais me revoltou é que, depois do jogo, o juiz (Leonardo Gaciba, gaúcho de Pelotas) veio se justificar para mim. Ele falou: ‘Mas eu dei um pênalti para vocês também, mas vocês perderam’. Eu me irritei e disse assim: ‘Então dava primeiro pra gente, pô’”.
g) Carlinhos avalia a queda de rendimento em 2006:

“Aconteceu um negócio no inconsciente de todos nós do grupo: o fato de ter chegado à série A nos deu um status diferenciado. Botamos na cabeça que tínhamos que ganhar, jogar bonito e convencer sempre. Esquecemos da necessida de marcar quando estamos sem a bola, que é preciso correr e, às vezes, é preciso jogar feio para ganhar. Na série B, jogamos feio muitas vezes e ganhamos partidas na base da raça. Como não estávamos conversando muito, essa necessidade de jogar bonito ficou na cabeça de todos. Agora não, agora estamos conscientes que precisamos ser eficientes e estamos conversando muito sobre isso”.
h) A série A:

“Depois que a gente perdeu o estadual, o presidente Romerito me procurou e falou que iria precisar da minha liderança para ajudar a recuperar o ânimo do grupo. Eu respondi que iríamos botar uma pedra no passado e entrar na guerra do Brasileirão bastante concentrados e de astral renovado”.

“Acabou o jogo contra o Inter e ficamos todos olhando um para a cara do outro no vestiário, todo mundo em silêncio, pois sabíamos que poderíamos ter vencido a partida. Aí, eu pedi a palavra e falei que o resultado foi ruim, mas só conseguiríamos vencer os jogos se continuássemos a trabalhar para isso. Não sei se foi nesse jogo que Giba começou a dar a cara dele ao time, como você diz, porque ele usa um sistema de jogo diferente de Givanildo. Com Giba, por exemplo, os laterais jogam mais recuados. E nós ainda estamos assimilando isso. Ainda falta assimilar muita coisa, mas está sendo muito bom trabalhar com Giba”.
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Django não perdoava



Com a família, em Itu, numa foto recente (no alto);
comemorando gol contra a coisa em 1983 (acima)

por Inácio França

O Santa Cruz já havia perdido o primeiro turno do estadual de 1983 e as coisas não se encaminhavam bem no segundo. A imprensa e a torcida sabiam que o então treinador Carlos Alberto Silva queria um centroavante matador, que jogasse enfiado na área. Exatamente o que Giba pede 23 anos depois.

Quem desembarcou em Recife foi o desconhecido Django, apelido de Luiz Paulo Lemes, que aos 26 anos atuava no minúsculo Primavera, do interior de São Paulo. Grandalhão e meio desengonçado, ao chegar Django não inspirou muita confiança na torcida.

Por conta do seu jeito, do apelido e das entrevistas bem humoradas, era motivo de piada por parte dos radialistas e dos torcedores adversários. Depois do título do tri-supercampeonato e dos 16 gols marcados praticamente apenas no terceiro turno, só os tricolores davam risadas.

Django passou menos de seis meses no Recife, mas virou uma lenda no imaginário da torcida tricolor.

“O Santa Cruz tá precisando de alguém para jogar enfiado na área? Então eu vou voltar”, brincou ao ser localizado pelo Blog do Santinha em Itu, onde mora com a mulher Márcia e os dois filhos, Pedro e Stefan. Seu primogênito, Trévor, é atacante do Capivariano e em 2007 deve jogar no Puebla, do México.

No Recife, Django morou no hotel Jangadeiro, em plena praia de Boa Viagem, mas saudades mesmo ele sente do Arruda: “Rapaz, só tenho lembranças boas da torcida do Santa. Fui muito bem tratado aí no Recife. Até hoje recebo carinho dos tricolores”.

Pouco depois da estréia com a camisa tricolor, o centroavante foi o pivô de uma enorme confusão na decisão do segundo turno, vencida pelos alvirrubros. O Santa já havia tomado um gol, quando Django foi desarmado, o que possibilitou um contra-ataque do time da Rosa e Silva. “Você acha que o time ia tomar o segundo gol por minha culpa? De jeito nenhum”.

Nosso camisa 9 deu um pulo por cima do jogador alvirrubro (Baiano, salvo falha da memória), o que deu início a uma confusão generalizada, com cenas hilárias, como a de Zé do Carmo arrancando o pau da bandeira fincada no centro do gramado para usar como arma. Até o educado e sizudo Carlos Alberto Silva saiu no tapa. “No vestiário, ele veio se queixar que brigou por minha causa”.

Depois de ser campeão pernambucano, Django foi contratado pelo Ituano e se tornou o maior artilheiro da história do clube, com 147 gols - foram 349 em toda sua carreira. Depois de uma rápida passagem pelo futebol de Santa Catarina, transferiu-se para o Bremscheid, da Alemanha, onde jogou de 1987 a 1989.

Antes de encerrar a carreira e se fixar em Itu, rodou pelo interior paulista. Às vésperas de completar 50 anos, ele é dono de uma casa lotérica e de uma loja de celulares, mas alimenta o sonho de ver o filho marcando gols pelo Santa. Antes de encerrar a ligação dá o recado: “Manda um abraço pro Luís Neto. Ele foi um grande amigo que deixei aí”.

A foto de Django em sua passagem pelo Santa em 1983 pertence ao acervo do Diário de Pernambuco e foi cedida para o Blog do Santinha por intermédio do superintendente Joezil Barros.

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