Breve sociologia do futebol pernambucano

Rubro-negro símbolo, Pedro Corrêa amanheceu feliz
por Inácio França
Cursei dois semestres do curso de Sociologia, em meados dos anos 80, e não tive paciência para seguir adiante lendo Weber, Durkheim, Marx e outros menos cotados. Mas, hoje, apesar de não saber definir exatamente conceitos como representação social ou estratificação, vou me arriscar a traduzir um pouco das raízes das três maiores torcidas pernambucanas. Para isso, usarei meus escassos conhecimentos sobre a dinâmica das forças sociais, políticas e econômicas do estado.
Antes que os leitores pensem que o Blog do Santinha enveredou pelo pedantismo acadêmico, vou logo esclarecendo que comecei a pensar sobre isso ainda na noite de domingo, ruminando ódio. Me perguntava como eles conseguiam comemorar tanto e com tamanha arrogância um título conquistado com ajuda de árbitros e cartolas da Federação, todos mobilizados a partir das manobras de um dos seus dirigentes.
As falhas, erros grosseiros e fraudes cometidas a favor do atual campeão pernambucano sumiram da memória e dos registros dos jornais. As bandeiras estão penduradas nas janelas sem constrangimento, como se os cartolas não tivessem acertado tudo num almoço, longe dos gramados onde os crimes foram executados.
Mas, sigamos o raciocínio para não ficar só no desabafo rasteiro.
Não é difícil identificar os significados sociais do clube vermelho-e-branco situado na avenida Conselheiro Rosa e Silva. Aliás, os endereços dos estádios dos três clubes são esclarecedores. Quem conhece um pouco da história de Pernambuco, sabe que esse clube é a representação social dos senhores de engenho e usineiros, que tinham seus palacetes na mesma avenida.
O branco do açúcar misturado ao vermelho do sangue de índios, negros e trabalhadores rurais das Ligas Camponesas.
Óbvia também é a representação social do Santa Cruz Futebol Clube, time criado por jovens que aprendiam profissões humildes entre os padres salesianos, antes que estes se dedicassem a educar as elites católicas. A cor negra foi imposta ao vermelho-e-branco para negá-las e criar um novo significado multirracial.
O Santa Cruz representa os ex-escravos e migrantes que chegaram do interior e acabaram sendo empurrados para os alagados de Beberibe e alto dos morros de Casa Amarela, longe da elite branca e racista. Mas o endereço do nosso estádio também é revelador, pois o Arruda foi construído numa área pública, doada ilegalmente por um Maciel, daqueles que sem a fortuna dos Cavalcanti buscava o voto dos pobres para legitimar suas posições recém-conquistadas.
O desfecho do campeonato 2006 serviu para que compreendêssemos melhor os significados e representações do clube da praça da Bandeira. A coisa sempre foi vinculada visceralmente às camadas médias da capital pernambucana. Clube daqueles que gozavam da confiança da aristocracia para ocupar os cargos burocráticos do estado e que, de serviçais bajuladores, enriqueceram burlando as leis.
De acordo com esse meu simplório, porém lógico raciocínio, o clube que ganhou o título estadual deste ano é a representação social desta camada de novos-ricos, para quem o mais importante é o patrimônio financeiro, conquistado a qualquer custo. Historicamente, em todas as sociedade da era pós-revolução industrial para esses, a ética, a moral e os princípios podem subvertidos a todo instante, desde que isso gere lucros. Ou títulos de futebol.
Por isso, para essa camada da população pouco importa se o Ypiranga empatou uma partida com um gol legítimo que acabou anulado. Por essa razão, não há porque considerar o pênalti inventado a seu favor no primeiro jogo da decisão ou aquele não marcado no primeiro tempo da partida de domingo. Eles sentem orgulho disso, como se orgulham de vestir a camisa vermelha-e-preta da amoralidade e da indecência.
Então, tricolores, não há razão para tirarmos nossas bandeiras da janela ou deixarmos de ir ao estádio no próximo domingo. Torcer pelo Santa Cruz é resistir, é celebrar nossa humanidade.
64 comentáriosOs deuses do futebol estavam com pena dos moribundos
Por João Henrique, colaborador assíduo do Blog, pela graça de Deus.
Como não exerço a profissão de jornalista, apesar de ter esta formação, e nem desenvolvi um senso investigativo apurado, vou deixar para o implacável Inácio França a missão de noticiar as nossas falhas durante o campeonato e o que vamos precisar para fazermos uma primeira divisão classe A.
O que quero realmente analisar é o quadro nacional dos campeonatos estaduais. Fazendo uma analogia, aprendi nas artes do marketing político que toda eleição tem um mote mais ou menos universal. É um movimento que atinge quase todas as capitais e as grandes cidades, porque, em geral, todos fazemos parte de uma mesma pangéia social. Por exemplo, nas eleições para prefeito do ano retrasado, prevaleceu o continuísmo e as reeleições no Nordeste. Em 2000, o PT começou a emplacar nas maiores cidades do país, o que desencadeou na apoteose da eleição de Lula dois anos depois. Tudo acontece, em todo canto, de um jeito parecido. É tendência pura
Mas, fechando parênteses, voltamos a olhar para os campeonatos estaduais deste 2006. Se analisarmos com cuidado os resultados Brasil a fora, vamos perceber que houve um movimento histório-futebolístico dos deuses da Igreja de Charles Miller para dar um gostinho de campeão aos times que já viveram suas fases áureas, e hoje estão em decadência ou não são mais aquele balaio todo de outras épocas. Botafogo no Rio, Santos em São Paulo, Ceará no Ceará e a coisa em Pernambuco. Se procurarmos tem muito mais. Por isso, torcida coral, agora a gente tem que direcionar as energias pra o Brasileirão e esquecer esse pernambucano.
Até porque, como se vê, os deuses do futebol estavam com pena dos moribundos. E aí lascou.
J.
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