Blog do Santinha

Crônicas, opiniões, desabafos e comemorações sobre o Santa Cruz Futebol Clube, o Santinha, e a torcida coral.
Arquivo de 20 de abril de 2006

Tocando em frente

Por Samarone Lima

Confesso: a derrota nos pênaltis contra a coisa, quando a taça já estava caminhando pro Arruda, foi uma das minhas maiores dores futebolísticas. Não sei o que houve, se a circunstância, o excesso de emoção, o gol no último segundo, mas voltei para casa arrasado. Me doeu tanto quanto a derrota da seleçao canarinha contra a Itália, em 1982, quando eu tinha apenas 13 anos. Certas dores, muito precoces, podem desalinhar uma alma, fazer estragos irreversíveis.

Aos 36 anos, sou um bom perdedor. Inúmeras decisões e derrotas, tanto no futebol, quanto na vida, enfrentei com relativa tranqüilidade. Doía muito, mas eu tomava um porre, ia dormir, no outro dia não olhava as bancas de revista, programas esportivos ou coisas do tipo.

Mas a derrota nos pênaltis me acertou em cheio. Primeiro, não consegui ficar bêbado. Segundo, não consegui dormir. Pior que isso, a cena do Lecheva perdendo o pênalti, ficou remoendo meu juízo a noite inteira. Pela primeira vez na vida, acordei sem dormir.

Durante vários dias, mergulhei num baixo-astral arrombante. Comecei a achar meu trabalho uma merda, meu bairro uma desgraça, o Recife feio, o futebol algo esquisito e histérico, pensei em terminar o namoro e viajar para a Amazônia. Escrevi uma carta de demissão ao Blog, pensei em recolher minhas chuteiras. Chega de crônicas sobre o Mais Querido e sua torcida. Por sorte, Inácio França pediu que eu repensasse, pois estava num momento de profundo sofrimento.

“Nessas horas, a prudência pode ajudar”, vaticinou.

Aos poucos, os amigos começaram a comentar: “Samarone, estás com cara de doente”.

Foram vários dias assim. Pior que isso era ver, em meio à festa adversária, os relatos de velhos e apaixonados tricolores, e aquelas frases que doem na alma: “não merecíamos perder aquele pênalti”; “eu pensei que o Lecheva ía soltar um limão”; “a festa estava pronta lá em casa”; “minha mãe chorou mais que eu”; “Luquinhas está arrasado”.

Até que fui me recompondo. A cena do pênalti foi sumindo do cabeção. Cancelei o pedido de demissão do Blog. Fui tocando a vida, renascendo das cinzas. Hoje, dez dias após o fatídico jogo, diria que voltei à normalidade.

E fiquei pensando sobre esse mistério, que é a presença do futebol na minha vida - e na vida de tanta gente. O futebol determinando alegrias e tristezas, numa paixão fulminante. As loucuras que fazemos, nos momentos de maior emoção. Vamos do êxtase ao abismo, conhecemos a glória e a dor mais lancinante, num intervalo de segundos. No gol do Santa contra a coisa, naquele finzinho de jogo, eu vivi um dos momentos mais estranhos da minha vida. Penso que perdi a noção de tempo e espaço, o céu se misturou com a terra, como diria o Manuel Bandeira. Perdi a noção do individual. Eu era uma massa de tricolores, no mais absoluto transe.

Talvez tenha sido esta a lição dos últimos dias: mesmo em meio à maior derrota, a vida segue e se renova. Os idiotas da objetividade, como diria o sábio Nelson Rodrigues, não entendem como um sujeito pode andar se arrastando, se sentindo um miserável, um infeliz, “só porque perdeu um título”.

Andei cabisbaixo, triste mesmo, macambúzio, dolorido, mas já estou pronto para outra.

O futebol tem me ensinado que nenhuma derrota é definitiva. Ou, como diria o velho Raul Seixas, “é de batalhas que se vive a vida”.

Alguém duvida se estarei na Ilha do Retiro, no próximo jogo do Santa contra a coisa?

Amanhã, dia de Tiradentes, desfilarei com meu manto coral. Tenho pra mim que Tiradentes foi um tricolor, muito antes de o Santa existir. Todo libertário é um tricolor de carteirinha.

Levantemos a poeira. Vamos lá, dar a volta por cima.

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