Blog do Santinha

Crônicas, opiniões, desabafos e comemorações sobre o Santa Cruz Futebol Clube, o Santinha, e a torcida coral.
Arquivo de 28 de abril de 2006

Quando o racismo voltou ao futebol pernambucano


Ilustração de uma campanha contra
o racismo no futebol português

Em 2002, depois que a torcida da barbie ressuscitou o sentimento que, durante 60 anos, impediu que jogadores negros jogassem a camisa do time alvirrubro, o leitor Rodrigo Carneiro Leão de Moura escreveu o texto abaixo. Como não tinha onde publicar, ficou guardado nos arquivos do seu computador. Essa semana, ele percebeu o quanto seu desabafo continua atualizado. O problema é que, hoje, seu texto pode ser vestido como carapuça em alguns tricolores.

PATÉTICOS RACISTAS (título original)

Quem acompanha a imprensa esportiva com regularidade já deve ter conhecimento das manifestações racistas de torcedores europeus. São freqüentes os xingamentos e as faixas contra os jogadores negros, latinos e não-europeus em geral.

Talvez o caso mais marcante tenha sido o dos torcedores da Lazio, tradicional clube romano. As ofensas racistas vindas de sua torcida se tornaram tão constantes que o Presidente da Lazio - envergonhado - ameaçou proibir a entrada de seus próprios torcedores durante alguns jogos de sua equipe. Um dos jogadores mais atingidos por esses ataques racistas vem a ser, justamente, o Cafu, lateral direito do Roma (maior rival da Lazio).

Pois é: Cafu - titular da seleção brasileira.

Outro lateral titular da seleção - Roberto Carlos - já teve seu carro apedrejado e pichado por torcedores europeus com a seguinte ofensa: “Macaco”.

Pra quem ainda não sabe, os argentinos (que se pensam europeus acidentalmente nascidos na América Latina) costumam se referir aos brasileiros como “Los Macaquitos” - acredito que vocês não imaginam que eles estão nos elogiando.

Quem acompanhou a imprensa esportiva após o último jogo entre Náutico x Santa Cruz não viu nenhum comentário (nenhum!) sobre as manifestações racistas da torcida do Náutico. Quem foi ao estádio dos Aflitos sabe do que estou falando. Sempre que o goleiro do Santa (Nílson - que, além de excepcional goleiro, é negro) pegava na bola, os torcedores alvirrubros imitavam o barulho de um macaco. Talvez você imagine que era “coisa de uma minoria”. Se você foi ao estádio, você sabe que não. Tenho certeza que alguns torcedores do Náutico ficaram envergonhados e não participaram dessa palhaçada. Infelizmente, estes sim eram a minoria.

Se o racismo dos europeus pode ser classificado como vergonhoso e imbecil, o que dizer do racismo dos brasileiros (ainda mais nordestinos?!) ?

É curioso imaginar qual será o comportamento destes patéticos racistas durante a Copa. Sim, porque não sei se vocês perceberam, mas a atual seleção brasileira é a mais negra dos últimos anos.

Talvez, eles, os arianos-brasileiros, façam como Le Pen (o líder da extrema direita francesa afirmou não torcer para a seleção de seu país - campeã mundial - em razão da grande presença de negros e descendentes de imigrantes entre seus jogadores).

Não, é evidente que não.

Os racistas de anteontem certamente irão vibrar com os gols de Ronaldinho Gaúcho, de Rivaldo e de Edílson.

Porque esta é a face mais desprezível de nossa sociedade: a hipocrisia. É mais fácil manter e controlar nossas desigualdades sociais e raciais com a tão divulgada (e não menos falsa) “democracia racial” da sociedade brasileira.

E essa covarde hipocrisia está presente nos comentários do tipo “- Mas era só uma brincadeira. Uma provocação normal em jogo de futebol.” Duvido, porém, que a torcida do Náutico esteja preparando alguma provocação relacionada à cor da pele de Rodrigo Pontes (jogador do Santa que deu uma injustificável cotovelada no jogador Fumaça do Náutico. Detalhe: o agressor é branco e louro; o agredido é negro).

Também a absoluta omissão da imprensa pernambucana é vergonhosa. Mas não é surpreendente. Simplesmente porque nós achamos que foi uma “coisa normal”.

Mas, na verdade, eu queria agradecer aos racistas alvirrubros. Porque anteontem eles me fizeram lembrar de tudo o que eu mais desprezo na sociedade brasileira: sua elite medíocre, burra e covarde. Finalmente, eles me lembraram o orgulho de poder afirmar: “Eu sou preto, branco e vermelho”

Recife, 30 de maio de 2002

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