Blog do Santinha

Crônicas, opiniões, desabafos e comemorações sobre o Santa Cruz Futebol Clube, o Santinha, e a torcida coral.
Arquivo de 4 de maio de 2006

Em Peixinhos, um porto seguro para os tricolores


Zé Carlos e sua maior relíquia, o pôster do time pentacampeão em 1973


por Inácio França

"Você vai pela presidente Kennedy, aí quando passar o mercadinho Campeão, precisa dobrar à esquerda logo no primeiro retorno. Depois é só perguntar que todo mundo sabe onde é". Acostumado a andar pelos territórios conhecidos dos bairros de classe média da capital pernambucana, com ruas pavimentadas, avenidas iluminadas, placas de sinalização e gente metida a besta, admito que não levei muita fé na última parte das instruções fornecidas por Zé Carlos, o tricolor dono do Bar do Tricolor. Fui lá acompanhado por Geraldo Lima, que atende por Gerrá quando carrega sua zabumba, e boa parte do pessoal que acompanha a Sanfona Coral na arquibancada. Dobramos à esquerda no tal retorno e, logo na primeira esquina, resolvemos testar a credibilidade do tricolor-dono-de-bar: havia cinco rapazes e duas moças conversando na calçada. Pagode e funk tocavam em casas da vizinhança, no que parecia ser uma disputa entre os proprietários das melhores caixas de som da periferia de Olinda. "Por favor, algum de vocês sabe onde é o Bar do Tricolor?"

Todos os sete adolescentes, eu disse todos, apontaram em direção a uma rua sem calçamento mais adiante. A rua de barro têm um nome pomposo: avenida Nacional. Há 25 anos esse é o endereço do estabelecimento de José Carlos da Silva, nascido e criado no bairro de Peixinhos.

O bar é simples, cadeiras de plástico e de metal espalhadas na calçada e protegidas da chuva por um enorme toldo branco. A decoração é caótica, misturando pôsteres do Santa Cruz, cartazes de cerveja e calendários. Um botequim como milhares de outros nos bairros pobres do Grande Recife. A diferença está na alegria contagiante de Zé Carlos e de seus filhos que o ajudam no serviço.

O ambiente ideal para uma farra sem quaisquer frescuras. Dois minutos depois de chegar, já estávamos do outro lado do balcão, beliscando os petiscos e dando pitaco na decoração do bar.

"Isso aqui é um reduto dos tricolores de Olinda. Em dia de jogo televisionado vem gente de Peixinhos, Jardim Brasil , Águas Compridas, Caixa D´água, Sítio Novo… parece uma romaria de gente chegando com camisa do Santa", conta Zé Carlos, que exibe com orgulho uma foto sua com o treinador Nereu Pinheiro, feita logo depois do vice-campeonato da Segundona, em 1999.

"Não vou entregar os nomes dos jogadores que já passaram por aqui. Tem uns que ainda estão na ativa e não quero sujar ninguém. Dos ex-jogadores, Luís Neto e Ramón aparecem de vez em quando".

Apesar do nome e da ótima fama, a pintura do local não é preta, branco e vermelha, como poderia se esperar. Zé Carlos explica que a cervejaria que patrocina o estabelecimento mudou a cor da fachada, condição para publicar uma foto numa revista que circula entre donos de boteco pelo País afora. "Mas já estamos providenciando a pintura tricolor de novo. Vai tudo voltar ao normal".

Saímos do bar com a sensação de que, depois de muita busca, encontramos o lugar com o clima ideal para acompanharmos o Santinha nos estádios da primeira divisão. Um lugar com a cara e o jeito do povo, como o Santa Cruz Futebol Clube.

 

 

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Sete motivos para não ter um bar coral

por Samarone Lima

Amigos corais, andaram me sugerindo que eu continuasse minha conhecida carreira de dono de Bar, depois das empreitadas do La Prensa e Garraffus, que se tornaram, obviamente, reduto coral. Elenco alguns motivos para indeferir os pedidos e continuar a buscar, com a massa coral, o “nosso boteco”.

Motivo 1: A síndrome-do-problema-técnico-quando-o Santa-entra-em-campo.

Você acorda cedo, é domingo, todo mundo está na praia, você, feito uma rapariga, está contando as cervejas, vendo se já estão gelando, para João Magro Amarelo Valadares não ficar enchendo o saco, porque a cerveja pode estar congelada, que ele sempre diz que a cerveja está quente. Você confere a NET, liga tudo, duas horas antes do jogo, a imagem está linda, começam a ligar.

“Vai passar o jogo do Santa?”

Milhares de tricolores se preparam para a invasão, tudo vai ser lindo. Tudo segue perfeito, cerveja gelada, se João ainda não reclamou, é porque não chegou. Joãozinho Peruca chega com a namorada, a família, amigos, Saulo já chega meio cego. O Santa entra em campo, a galera vem abaixo:

“Tri, tricolor, tri tri tri tri tricolor”.

Então, a imagem inexplicavelmente some, por algum fio que saiu do canto, algum problema de última hora, mesmo que a mensalidade da Sky esteja rigorosamente em dia. Você se torna o pior vilão do Recife, o mais elegante te chama de burro, fora os que dizem que “esse cara não quer ganhar dinheiro”. O pior é aquele “de novo!”, que arrasa o dia do sujeito.

Todos vão embora, cantando pneu, e dificilmente retornam. Se voltarem, vai ser pior, porque já chegam esculhambando, perguntando se você pagou a Sky.

Motivo 2: A derrota é sempre culpa do bar, e o dono do bar é sempre um pé-frio

Não adianta. O Santa pode ganhar 221 jogos no bar, colecionar títulos, recordes, dominar o futebol no estado, no Nordeste, no Brasil, mas basta uma derrota, um reles 1 x 0 quando já estava classificado, que soltam a acusação, à boca miúda:

“Esse bar é que está dando azar”.

“O Samarone é realmente um pé frio”.

“Não volto mais aqui”.

“Não te avisei?”

Motivo 3: Se o time perder, você precisa contratar mais cinco caixas

Se o time chegar a perder, o dono do bar precisa ter cinco caixas de reserva, com as contas todas somadas, dinheiro para troco e agilidade de um McDonalds. Todos resolvem ir embora de uma vez, os pedidos da cozinha são cancelados, todos perdem a fome, e dois minutos de atraso na conta resultam numa guerra civil entre os tricolores e o dono do bar, que se torna imediatamente um feladaputa de marca maior. Os amigos chegam e falam, na cara dura:

“Tu não tem jeito de se organizar, né Sama?”

Motivo 4: O dono do bar quer matar o garçom rubronegro ou alvirrubro

Durante o jogo, você flagra várias vezes o garçom rubronegro ou alvirrubro fazendo figa, lamentando uma bola perdida pelo adversário. Você olha para a cozinha, repleta de facas, e pensa em acertar um deles, como fazem no circo. Pior: o garçom usa o isqueiro com o símbolo do clube adversário. Em caso de derrota, o que mata é aquele sorrisinho falso com o canto da boca.

Motivo 5: Como os adversários sabem que o bar é de tricolor, querem tirar onda

Basta uma vitória sobre o Treze de Campina Grande, que barbies e coisas chegam aos magotes, para comemorar. Como você precisa pagar as contas, não pode dar cadeiradas no quengo deles, e fica vendo as tais camisas em seu reduto. Pior, parece que o dono do bar tem um ímã, e ficam todos ao redor, enchendo o saco, feito aquelas moscas de padaria.

Motivo 6: Nas vitórias, muitos esquecem de pagar a conta

O Santa ganhou aquele jogo, faturou o título, a festa rola solta, e a negada enche o caneco. Daqui a pouco, misturam as mesas, quem bebeu diz que “tomei só cinco”, quando foram umas doze, e você ainda é esculhambado no dia de comemorar o título.

Motivo 7: Se o cozinheiro for tricolor, o bar vai ter problemas

Se o cozinheiro for tricolor e gostar de beber, na metade do primeiro tempo ele já está fazendo um bife ao molho madeira com pedaços de fígado assado, e no intervalo ele vai dizer que “precisa comprar um cigarro”, mas toma dois quartinhos de cana no boteco mais próximo. No segundo tempo, ele vai estar chumbado, e quando você entrar na cozinha, ele vai partir para o abraço:

“Samarone, você é um tricolor do caralho” – enquanto a baba escorre pela roupa. Pior: ele vai continuar”, com aquele famoso bafo de Pitú:

“Sabia que eu sou tricolor de corpo e alma?”

Diante dos motivos acima citados, acho melhor este Blog do Santinha fazer uma campanha,uma votação, uma enquete, sei lá, para saber onde vamos ver os jogos do Mais Querido.

Jogador se aposenta, bancário se aposenta, jornalista se aposenta, o Inácio França um dia vai se aposentar, e no meu caso particular, após duas experiências no ramo, afirmo:

Pendurei as chuteiras para a vida de dono de bar.

E cá entre nós: o tal do João Valadares reclamando da cerveja quente é um chute no ovo.

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