Carência de pai
por Inácio França
Pedrinho ainda não tinha completado três anos quando entrou no Arruda pela primeira vez. Foi num feriado de 7 de setembro, numa partida contra o Central. A tarde estava ensolarada e a partida foi sofrível, mas o Santinha venceu por 1 a 0.
De lá pra cá, eu e ele compartilhamos inúmeras tardes e umas poucas noites no cimento que abriga a torcida tricolor. No Arruda, Pedro realizou o sonho de ver o Santinha campeão. No Arruda, ele lambuzou-se de sorvete e guaraná, enquanto se apaixonava pelas cores preto-branco-e-vermelho. Nas gerais do Arruda, tomou seu primeiro banho de chuva para testemunhar uma vitória sofrida contra o Flamengo.
Foi se divertindo que meu filho aprendeu a amar o Santa Cruz. E foi sofrendo, chorando em alguns vexames de envergar a alma, que me ensinou que o amor por um clube de futebol é puro, livre de interesses, é forjado na dor e não apenas por vitórias.
“Nunca pensei em torcer por outro time. Nem mesmo naqueles dias em que a gente saiu chorando”. Ele me disse isso pouco antes de uma partida do ano passado, enquanto caminhávamos pela beira-canal a caminho do estádio.
Essas palavras, ditas com tranqüilidade e sem afetação, me emocionaram naquela tarde e voltam a me emocionar hoje, depois de mais uma derrota e enquanto Pedro cruza alguma estrada enlameada do norte do Mato Grosso, perto do rio Araguaia, onde meus filhos vão morar com a mãe.
Não sei quanto tempo ficarei distante do meu mais assíduo companheiro de futebol, mas já sinto uma falta enorme do aperto dos seus abraços na comemoração dos gols. Ou da sua cabeça, encostada silenciosa no meu corpo nos segundos prenhes de irrealidade que se seguem a uma derrota.
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