Blog do Santinha

Crônicas, opiniões, desabafos e comemorações sobre o Santa Cruz Futebol Clube, o Santinha, e a torcida coral.
Arquivo de 11 de junho de 2006

“Coisa” ruim

Portugal 1 x 0 Angola

(por Inácio França)

Cancelei a presença numa farra, decorei trechos de livros de José Eduardo Agualusa e de Lobo Antunes para esnobar os leitores na crônica e, finalmente, me posicionei na frente da TV com um saquinho de amendoim. Aguardava pelo jogo Angola x Portugal desde o dia do sorteio dos grupos da Copa.

Havia um caráter ideológico para tamanha ansiedade. Angola foi saqueada pela predatória política colonial portuguesa durante séculos. Portugal não alisou na África e ficou agarrado ao osso até meados da década de 1970, quando saiu deixando um rastro de violência e miséria. Boa parte da sociedade portuguesa achou pouco e, atualmente, tem gente que ainda guarda uma dose de preconceito racial contra os angolanos que tentam a vida na Europa.

Além de tudo, seria a partida de um simpático time mais fraco contra a seleção vice-campeã da Europa.

Ou seja, tinha motivos de sobra para torcer por Angola na sua estréia em Copas exatamente contra os antigos saqueadores. Lembro que foi com esse estado de espírito que assisti à épica vitória do Irã em cima dos Estados Unidos, em 1998.

Mas eu tinha esquecido um detalhe.

Esse detalhe mudou completamente minha opinião e o alvo da minha simpatia ainda no início da transmissão: a bandeira da Angola é preta e vermelha, com uma foice amarela no meio. Preto, vermelho e amarelo!

Uma foice amarela! Tiveram a chance de escolher o branco e botaram amarelo no desenho da bandeira! Mau gosto da gota-serena da bubônica-do-rato. É a coisa africana. Ora, que se lasquem os angolanos. Quem manda não fazer nem a bandeira direito.

Pra piorar a camisa da torcida parece com a da Torcida Jovem.

Aí, lembrei que sempre fui com a cara de Felipão. Bom treinador, sujeito decente, pentacampeão mundial. E no banco ainda tinha Deco, brasileiro também. Ainda estavam tocando o hino quando comecei a falar sozinho: “Portugal tem que massacrar esses rubro-negros…”

O começo foi arrasador. Mais ou menos como fizeram nas colônias além-mar, o time de Portugal se mostrou disposto a acabar com a raça de Angola. Golaço aos quatro minutos, uma bola na trave no meio do primeiro tempo, e, como reação, uns ataques meio desajeitados dos angolanos. A guerrilha do MPLA era mais eficiente. Por falar nisso, o 21, um tal de Delgado, estava disposto a concretizar uma vingança histórica. Bateu demais. Do pescoço pra baixo era canela, do pescoço pra cima também.

Imbuídos do espírito dos colonizadores europeus, o time de Portugal passou a se comportar como se tivesse o direito natural de vencer os rubro-negros. Cientes da sua superioridade, passaram a enfeitar e fazer firula. O problema é que eles não têm jeito pra isso. Aí o jogo ficou sem graça, enjoado, daqueles que dá vontade de desligar a TV. O segundo tempo foi pior do que Equador x Polônia.

Com jogo amarrado, até que deu vontade voltar a torcer por um time que tem Zé Kalanga (dizem que o pai dele é dono de um pega-bêbo em Luanda), Locó e Jamba. Mas Angola é fraca de dar dó, apesar da vontade e da coragem os caras não acertavam uma jogada no ataque.

Faltava uns 20 minutos pro fim e eu percebi que já estava neutro, torcendo pro juiz acabar logo com aquela tortura e me liberar pra escrever, botar esse troço no ar e tirar um cochilo.

A próxima atualização no blog será amanhã à noite, com Marcel Tito escrevendo sobre um jogo que ele ainda não escolheu.

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