Blog do Santinha

Crônicas, opiniões, desabafos e comemorações sobre o Santa Cruz Futebol Clube, o Santinha, e a torcida coral.
Arquivo de 12 de junho de 2006

Austrália x Japão pelo rádio (que nem na Copa de 38)

 
Austrália 3 x 1 Japão (por Marcel Tito)

Pedi paciência e argumentei. Copa do Mundo só acontece de quatro em quatro anos. Não adiantou. Ele permaneceu irredutível. Apelei para a minha descedência australiana. Como resposta, um olhar de desdém. Contei a verdade. Precisava ver Japão x Austrália para escrever para o Blog do Santinha. Confiei na audiência do site. “Não tem fantinha, tainha, nem Juquinha”, respondeu o senhor Adriano.

A síndrome do mau humor de quem trabalha durante a Copa do Mundo, creio. E assim, às 9h23 desta segunda-feira, pela segunda vez no ano, a impaciente Celpe privou a minha residência dos seus serviços. Por causa de duas contas atrasadas. Antes eram três. Maldita privatização. Era preciso pensar rápido. E veio a solução para não escutar Samarone Lima e Inácio França durante um mês me chamando de farrapeiro: acompanhar a partida pelo rádio. Japão x Austrália. Eu mereço.

A transmissão começa com o hino do Japão. E vem as escalações. Austrália: Shuazerz; Nil, Moure, Colina e Emerton; Viduca, Keyes, Guela e Chiperfild; Wilkshaire e Bresciano. Agora o negócio vai ficar bom. Lá vem o Japão: Kawagushi; Komano, Miamoto, Nakata e Takahara; Nakamura, Yanagisawa, Santos (um brasileiro, que beleza!) e Fukurishi; Tinsuboy e Nakasawa. Acho que é isso.

Primeiro tempo

“O time do Japão abre o olho.” O primeiro trocadilho infame veio antes dos cinco minutos. Viduca vai, Viduca vem, Viduca chuta e “Kawagushi sensaaaaccccccccccional. Duas vezes”. Lá vem Viduca de novo. E a torcida canta em português! Tem muito brasileiro no estádio torcendo por Zico. Incrível o carisma dele. Dez minutos de jogo e só dá Austrália.

Quinze minutos. Vinte e um minutos. Eita joguinho. E Nakata chuta. Para fora. E olha o gol da Austrália. Quase. “Não cai por um milagre a cidadela do Japão.” E “Viduca pintando miséria.” Esse cara coloca fácil Nenê e cia. no bolso. Todo mundo toca na bola. Menos Santos. Sacanagem comigo. Eis que no meio da vinheta publicitária… “Passou pelo goleiro e GOL!” De quem? “Komano passou para Yanagisawa. Ele cruzou e a bola passou por Nakamura e o goleiro da Austrália ficou reclamando.” Quem colocou para dentro? Agora o outro diz que quem cruzou foi Nakamura. Enfim, Japão 1 x 0.

E a torcida do Japão faz a festa. “Ão, ão, ão, segunda divisão.” Estão menosprezando a Austrália. Trinta minutos e nada de Santos no jogo. O tempo passa devagar. Trinta e cinco minutos. O negócio tá complicado. Já disseram que está 1 x 0 para a Austrália, que está 0 x 0. Tem gente na rádio querendo ganhar o bolão da Copa de qualquer maneira. E tem Viduca de novo. Pisou na bola. Que é isso Viduca. Fim do primeiro tempo, graças a Deus. Acho que Santos não volta para o segundo tempo. É uma pena.

Intervalo

“Austrália e Japão fizeram um bom primeiro tempo. Um futebol ativo, de bom toque de bola. E a Austrália jogou melhor. O melhor jogador do Japão foi o goleiro. O gol me pareceu irregular. Me pareceu que o jogador Nakamura estava impedido. Depois me pareceu que ele deslocou o goleiro. De qualquer forma, o gol foi validado pela arbitragem e o Japão vence por 1 x 0. Isso é o que importa.” É muito parecer. Realmente, Juarez é, até o momento, o melhor comentarista da Copa. Pelo menos agora sei quem marcou o gol. Sem substituições no intervalo.

Segundo tempo

O jogo recomeça sem o som da torcida. Ou a partida está ruim e todos preferiram continuar comento salsichão nos corredores do estádio ou operador de áudio dormiu. Cinco minutos. E volta a torcida gritando “olé”. Falta muito tempo ainda. Confiança demais dos japoneses. Substituição na Austrália: Sai Bresciano, entra Caiu. Substituição no Japão. Sai Tinsuboy, entra Monivar.

Dez minutos. Quinze minutos. Outra substituição na Austrália. Sai Moure, entra Kennedy. Propaganda da Celpe? Só pode ser brincadeira. “Fique em dia e acompanhe a Copa do Mundo com tranqüilidade.” Agora é que eles avisam. A torcida pede mudança. “Ah, é Rosembrik”. A negociação com o Palmeiras era só fachada. Tá explicado. Quando o mago entrar o negócio vai pegar fogo. Deve ser na Austrália.

Vinte minutos. “É uma das melhores partidas da Copa”, diz o comentarista. Estou ouvindo. Até aqui, só teve chute para fora. A torcida vaia. Entendo a revolta. O sofrimento não tem fim. Lá vem Viduca. Falta perigosa para a Austrália. Posso apostar dez reais que vai para fora. Lá vai. “Barreira compacta do Japão. Partiu Viduca… DE-FEN-DEU sensacionalmente Kawagushi!!!”. Com um goleiro desse O Santa Cruz não perdia o Campeonato Pernambucano nem a pau.

Trinta minutos. Faltam 15 somente. Os comentaristas começam a trocar elogios. Isso é porque o jogo está bom. Terceira substituição da Austrália: entra Aloíse, sai Wilkshaire. A estréia de Rosembrik na Copa fica para o próximo jogo. Entra Onu e sai Yanagisawa, no Japão. É o jogo da paz. Outra intervenção da torcida japonesa. “Mais um, mais um”. O cara deve ser o elemento surpresa. Trinta e cinco minutos. ´

Notícia da seleção brasileira…

“O lateral-direito e capitão do Brasil, Cafu, acaba de ser condenado pela justiça italiana a dez meses por utilizar passaporte falso.” É bronca. Deviam prender era os pernas-de-pau da Austrália e Japão. Qualquer coisa, coloca Cicinho. Tem nada não. E gol da Austrália! Caiu. Mais um brilhante trocadilho: “Esse empate cai como uma luva para o Brasil”. Caía. Quarenta e quatro minutos, Caiu vira a partida com um “chute flamejante da entrada da área.”

Três minutos de acréscimo para completar a angústia. Entra Oguro no lugar de Monivar, no Japão e GOL! “Alóise faz o terceiro para a Austrália. Eu disse que ia ter virada!”, brada o locutor. Eu não escutei isso, mas deixa para lá. Acabou o sofrimento. Que experiência. Vou indo pagar as contas atrasadas.

A próxima atualização será amanhã, antes do jogo do Brasil, com texto de Samarone Lima sobre o clássico Togo x Coréia do Sul.

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Essas coisas que dizem durante a Copa…

Por Samarone Lima

Depois de algumas rodadas da Copa, descobri que ainda não assisti a dois jogos no mesmo lugar, o que me deixa confiante quanto ao Hexa. Não tem nada a ver uma coisa com a outra, mas quem disse que na vida, como no futebol, algo é lógico?

De cada lugar, como observador anônimo, contratado pelo Blog do Santinha, colhi fragmentos que revelam a alma de nosso povo. Não, amigos, não somos “a pátria de chuteiras”, como bem disse o saudoso Nelson Rodrigues, mas “a pátria de comentaristas de boteco”, muitos dos quais não sabem que a trava da chuteira não tem nada a ver com a trava da porta.

Vejamos então as pérolas coletadas:

Impedimento

“Impedimento é quando um outro está na frente de dois outros, no campo do outro”.
(Aninha, psicóloga, na casa de Zeca)

Dúvida existencial

“Eles (os jogadores) tomam banho no intervalo?”
(Lucila, logo após o final do primeiro tempo de Argentina x Costa do Marfim)

Mudança de barra

“Só é ruim quando eles (os jogadores) mudam de barra, porque eu me confundo toda. Fico torcendo pelo mesmo lado, e não é”.
(Ibdem)

No meio de um jogo importante:

Amiga 1 – Pois eu, quando nasci, cheguei no quarto e minha mãe disse: “essa não é minha!”
Amiga 2 – Eu não sei se essa conversa rolou na tua plástica…
(Por motivos diversos, declino o nome das duas amigas, capazes de uma conversa deste tipo em um jogo da Copa)

Torcida pra valer

“Vou torcer pela Holanda, que é a única que joga bola, fora o Brasil”,
(Minha tia Flocely, de 79 anos, antes do jogo da Holanda)

Generosidade estética

“O problema do Ronaldinho Gaúcho é aqueles dentes. Ele não é tão feio..”.
(Uma amiga, exagerando na generosidade estética)

A percepção mais rápida da Copa, até o momento…

“Esse time de Angola é muito infantil”.
(Garoto, aos dez minutos de Portugal X Angola)

Discurso no setor de eletrodomésticos do Carrefour

Estávamos, os malandros de sempre, assistindo Trinidad y Tobago X Suécia, quando um sujeito começou um discurso inflamado.

“Pois estou torcendo pelas seleções da América do Sul, porque são do nosso continente, precisamos estar juntos”, uma conversa inflamadíssima.

Depois que ele terminou, todos ficamos em silêncio, ninguém olhava mais para o jogo. Ele percebeu a gafe que estava cometendo e complementou:

“Menos pela Argentina, é claro…”

Irromperam aplausos frenéticos e ele quase foi levado nos braços pela torcida no Carrefour.


Eleito o torcedor brasileiro mais mau-caráter da Copa

Acabo de eleger Zeca o amigo e torcedor brasileiro mais mau-caráter da Copa de 2006. Ele foi capaz de torcer pela Argentina, no jogo contra a Costa do Marfim, “somente” porque tinha colocado 2 x 1 para a Argentina no bolão.

Desde já, meus votos que ele erre todos os demais resultados – menos o do Brasil, claro.

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