Crônica de uma derrota anunciada
Por Samarone Lima
Tem coisas que eu faço e depois fico me esculhambando em praça pública. No dia do jogo da seleçãozinha do Parreira contra a Françona, fiquei tão concentrado assistindo o Portugal do Felipão detonar a Inglaterra Futebol de Regatas, que consegui uma proeza existencial-futebolística: às 15h, eu estava dentro do ônibus do Cabo, com destino ao Recife. Vários amigos me esperavam, desde cedo, os churrascos comendo no centro, enquanto o otário aqui esperava o motorista dar a partida.
Não vou contar a viagem, porque teve de tudo. Gente com corneta, mulheres cheias de sacolas (o que diabo as mulheres fazem com um monte de sacolas, em dia de jogo decisivo da seleçãozinha?) O fato principal do dia foi a chegada à avenida Dantas Barreto pontualmente às 16h, quando estava começando o jogo. E agora? Onde assistir ao jogo?
Em casos de indecisão, acho melhor seguir a intuição. Melhor, a multidão. Acabei no Pátio de São Pedro, onde uma multidão assistia a pelada num telão gigantesco. É por aqui mesmo, pensei, e comecei a bebericar no Buraco do Sargento. Como não tinha ninguém para ficar comentando comigo, paguei a cerva e dei o fora. Num outro boteco, mais decadente, descolei uma mesinha, sentei muito contente, e só depois do primeiro gole, reparei que a imagem mostrava 44 jogadores em campo. Fiquei por ali um tempinho, mas aos 33 minutos do primeiro tempo, eu já estava gritando a plenos pulmões que o Parreira tinha que mudar o time. Infelizmente, ele não me escutou.
No intervalo, dei uma volta pelo Pátio. Começou uma música baiana, e o povão tome a dançar e beber. Ao meu lado, um sujeito começou a dançar, imitando uma estripe tease, depois subiu na cadeira. O PM ao lado, comentou comigo:
“Esse é cem por cento frango”.
Logo apareceu outro, rebolando ainda mais.
“Esse aí é duzentos por cento frango”, completou o PM.
Quando aqueles pilantras voltaram para o segundo tempo, eu não acreditei. O treinador não mexeu no time!
“Ele vai esperar a gente levar o primeiro gol, para mudar”, vaticinei.
Mudei de bar novamente, para dar mais sorte. Em pouco tempo, encontrei os meus.
“Vai, caralho!”
“Xadê o meio de campo?”
“Cafu, doente!”
Faltando dez minutos, achei que estava dando azar e fui para uma barraquinha fuleiríssima na Dantas Barreto, tomar uma Schin gelada. Ao lado, numa mesinha simples, os caneiros. Fiquei ao lado, mas eles insistiram.
“Vem pra cá, rapaz! Vai ver o desastre sozinho?”
Eu fui. Comemos macaxeira com guizado e tomei umas lapadas.
“Sabe o que é isso? Síndrome de 98. Essa Copa vai ser de Portugal”, me disse um deles, que repetia o tempo inteiro: “Estou bêbado”.
Já perto do finalzinho, com a desilusão rondando todos, um dos meus amigos soltou essa:
“Ôx, o Santa Cruz tá jogando melhor”.
Aparece a cara do Parreira, na TV, e ele emenda:
“Sai, cara de gia!”
O outro arremata:
“É importante dizer que eu perdi dez cervejas!”
O juiz apita o final do jogo, a Copa acabou para o Brasil. Uma multidão começa a sair do Pátio, passando pela Dantas Barreto. Uma multidão de tristes, chateados, alguns inconsoláveis. Mas há mais raiva que tristeza. O time não jogou nada, e isso ajuda a abafar qualquer sofrimento. Ruim é perder jogando um bolão, com um vacilo no final. Ao meu lado, o camarada que disse estar muito bêbado, me olha atentamente e confessa:
“Tô triste. Tô muito triste”.
E começa a chorar.
Como chorei todas as minhas lágrimas futebolísticas com a Seleção de 82, fiquei olhando o desamparo do amigo, depois tomei mais umas e fui embora.
Aqui vai uma confissão: o último estadual, que perdemos nos pênaltis, me doeu muito mais.
Na coluna Folha Seca, do Pernambuco.com (www.pernambuco.com/copa/folhaseca), Inácio França diz obrigado, Zidane.
25 comentários







