Han Solo é tricolor
A pedidos de alguns torcedores que enviaram mensagens para o endereço eletrônico blogdosantinha@gmail.com, o Blog do Santinha um texto de Inácio França veiculado originalmente no natimorto site da Confraria Ninho da Cobra, no início de 2005. Como a página do (aparentemente) falecido grupo de oposição tricolor ficou poucos dias no ar, resolvemos atender aos apelos desses leitores. Inicialmente, a idéia era escrever uma série de crônicas com personagens de outras áreas, mas tudo se resumiu a esse texto solitário.
por Inácio França, em 21 de março de 2005
Esse tema vem me perseguindo há algum tempo, desde que folheei um livro de crônicas de Paulo Mendes Campos na Livraria Arraial, ali na Tamarineira. Folheei, mas não comprei. Estava liso.
O gol é necessário é o título do livro, uma seleção de textos sobre futebol escritos por um dos melhores cronistas da língua portuguesa (pau-a-pau com Rubem Braga e Nélson Rodrigues). Numa das crônicas, Paulo Mendes enumera dezenas de escritores, poetas, compositores, músicos, escultores e pintores e, de acordo com as características de suas respectivas obras ou traços de suas personalidade, os associa a um dos quatro grandes clubes do futebol carioca.
Ali em pé no meio da loja, foi a única crônica que li inteira. É fácil perceber que o texto, saboroso e divertido, foi feito por um sujeito que possuía um conhecimento vasto, com muita leitura e sensibilidade ao ponto de identificar pontos em comum entre os clássicos da cultura universal e as almas das torcidas do seu querido Botafogo, do Flamengo, do Fluminense e do Vasco.
Fiquei sem entender muitos dos exemplos que ele dá. Conheço pouca coisa da vida e da obra dos gênios citados por Paulo Mendes Campos, mas não tenho dúvidas que ele teve uma sacada genial.
Com ajuda do Google encontrei um trecho dessa crônica na web. Entre os autores mencionados no tal parágrafo, só tenho, digamos, um pouco mais de “intimidade” com Dostoieski e Machado de Assis. O russo sofreu tanto que, com absoluta certeza, seria botafoguense caso tivesse nascido no Rio. Machado, apesar de não ser um grã-fino, seria Fluminense. O místico e religioso Johann Sebastian Bach é outro cheio de afinidades com o Botafogo. Quanto aos demais, não tenho a mínima idéia dos critérios utilizados pelo autor de O amor acaba.
Idéia boa tem mais é que ser copiada, por isso me inspiro no cronista para, a partir de agora, tentar fazer associações semelhantes com as torcidas do Santa, da “Coisa” e da “Barbie”. Como não tenho um milésimo do conhecimento e da “bagagem” de Paulo Mendes, quase sempre vou recorrer a personagens ou produtos da indústria cultural.
Até agora, só consegui estabelecer vínculos entre as torcidas pernambucanas e os personagens da série de filmes Guerra nas Estrelas. Afora esses, não lembrei de mais nenhum outro. Aí vai o resultado dessa minha “viagem”:
Han Solo e Chewbacca – aquele piloto de uma nave caindo aos pedaços e o seu mascote meio-cachorro-meio-abominável-homem-das-neves – são 100% tricolores, afinal batalham feito condenados para ganhar uns trocados, mas Harrison Ford ainda come a mocinha no final.
Outro tricolor de carteirinha é Obi-Wan-Kenobi, uma espécie de sábio muito sensato que transmite seus ensinamentos aos mais jovens.
A torcida alvirrubra é fácil de identificar: a princesa Lea e o irmão insosso dela, o herói Luke Skywalker. O pai deles, Anakim, nasceu alvirrubro, com aquela cara de bom menino que vive na decadência, mas tem “berço”. Depois, Anakim vira rubro-negro quando se transforma num megalomaníaco, acreditando que é o fantasiado mais poderoso do universo. Como ele não criou os filhos, Lea e Luke continuaram cor-de-rosa.
Além de Darth Vader/Anakim, os rubro-negros têm um torcedor de peso: é Jabba, aquele monstrão gordo e nojento que lidera uma máfia num planeta arenoso. Feio e prepotente, deve ter sido o criador do “casá-casá”, grito de guerra da quadrilha dele.
Lembrei de outro alvirrubro: Jar Jar Binks, um bicho esquisito, inconveniente e meio alesado do planeta Naboo. Nem é preciso fechar os olhos para imaginá-lo caminhando pela rua 48 gritando N-A-U…
Pronto, não consigo ir além disso, mas aceito sugestões. Reproduzo abaixo o trechinho que encontrei da crônica de Paulo Mendes Campos, se alguém souber explicar porque Camões não é Vasco, e sim flamenguista, por favor me diga. Antes de deixá-los com Paulo Mendes, volto a Dostoeviski para garantir que, se o autor de Crime e Castigo fosse pernambucano teria sofrido conosco lá no Arruda, nas últimas finais de campeonato.
“Miguel Ângelo é botafogo, Leonardo é flamengo, Rafael é fluminense; Stendhal é botafogo, Balzac é flamengo, Flaubert é fluminense; Bach é botafogo, Beethoven é flamengo, Mozart é fluminense. Sem desfazer dos outros, é com eles que eu fico, Miguel, Henrique, João Sebastião. Dostoievski é botafogo, Tolstoi é flamengo (na literatura russa não há fluminense); Baudelaire é fluminense, Verlaine é flamengo, Rimbaud é botafogo; Camões não é vasco, é flamengo, Garret é fluminense, Fernando Pessoa é botafogo. Sim, Machado de Assis é fluminense, mas no fundo, debaixo da cepa cética, Machado, um bairrista, morava onde? Laranjeiras!”
Tem Folha Seca nova no ar: www.pernambuco.com/copa/folhaseca
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