O caso do pai desnaturado (final)
por Inácio França
ilustração: Natacha Français, da agência Makplan
Atendendo a pedidos, antecipamos o fim da historinha…
Dito isso, Aurélio deu por encerrada a conversa e foi se levantando. A psicóloga não gostou da atitude do pai e ficou mais ousada, ensaiando um sermão: “É essa sua atitude que está despertando a rejeição no menino. Basta um gesto seu para desfazer essa fantasia de ser rejeitado”.
“E o que é que eu tenho de fazer?”
“Simples: levar Júnior para assistir a uma partida do time dele”. Foi dada a sentença.
“É o quêêêê!!!!! A senhora é louca, completamente maluca!!! Passar quatro, cinco anos na faculdade para receitar uma merda dessas… eu, Aurélio, na torcida da coisa??? Faça o seguinte, domingo o Santa joga contra a coisa, tome aqui dez reais e leve ele. Diga que fui eu quem dei o dinheiro…”
Aurélio esperneou, fez de tudo para evitar tamanha humilhação, mas de nada adiantou. Nos dias que se seguiram, a esposa interviu, os avós deram pitaco, a professora fez uma longa explanação sobre as dificuldades de relacionamento com os colegas e a pressão ficou insuportável.
Domingo, Aurélio arrumou uma camisa azul-claro, entregou Cássio a um primo que iria para as sociais do Arruda com o filho, marcaram de se encontrar na Colosso, e levou Júnior pela mão em direção ao outro lado do estádio. O pirralho, é bom frisar, vestiu-se com uma camisa do homem-aranha. Foi proibido de usar vestimentas vermelhas e pretas.
Jogo difícil, a coisa abriu o placar no início do primeiro tempo. A turba ao seu redor vibrou, o menino comemorou sem alarde, intimidado com o semblante homicida do pai (Júnior assistia a filmes de suspense e sabia que aquele olhar só quem tinha eram os assassinos). Em quinze minutos, tudo mudou e o Santa virou o jogo. Os adeptos da coisa sofreram murchando. Aurélio descobriu, naqueles minutos, que era um autêntico sádico. Quanto mais sofriam ao seu redor, mas ele sentia prazer.
Uma ducha de água fria no final do primeiro tempo: gol deles. Veio o segundo tempo e tudo levava a crer que seria 2 x 2. No finalzinho, Carlinhos Bala rouba uma bola do zagueiro e marca um golaço, por cobertura. Quase que Aurélio se trai, mas a visão da torcida comemorando no lado oposto compensou a desventura daquele domingo.
Na avenida beira-canal, ele se encontra com o primo que tinha ficado com Cássio. No caminho para a avenida Caxangá, o pau comeu no banco de trás do Palio branco. O primogênito (ô palavrinha com cheiro de sacristia) não suportou as gracinhas do caçula e do primo tricolores e acabou levando a pior. Aurélio, lembrando uma das recomendações da psicóloga, permaneceu neutro e avisou aos filhos e ao sobrinho: “Não quero nem saber, não sou tropa de choque para separar briga de torcida.”
Três contra dois dentro de campo. Dois contra um, fora. O pirralho rubro-negro levou a pior.
Tá tudo combinado! a Coralnet e o Blog do Santinha convocam a torcida para demonstrar nosso apoio ao elenco que ganhou do Goiás e do Fortaleza com raça e vontade! Vamos ao treino de sexta-feira, às 15h30min,no Arruda. É hora de retribuir aos jogadores a energia que contagiou a massa tricolor em duas partidas seguidas. Fizemos issona reta final da Segundona e deu uma sorte arretada!
O caso do pai desnaturado (parte 1)
por Inácio França
ilustração: Natacha Français, da agência Makplan
O aviso na agenda escolar do filho deixou Aurélio preocupado. A psicóloga do colégio o “convidava” para uma conversa sobre o comportamento de Júnior, seu filho mais velho.
Psicóloga de colégio construtivista, desses bem “cabeça”, chamar para conversar devia ser sinal de alguma complicação. Foi por isso que ele se preocupou, pois, além da indisfarçável preguiça para estudar, o pirralho não dava sinais de nenhum problema mais grave.
No dia e hora marcados, lá estava ele para o compromisso com a psicopedagoga “cabeça” do colégio “cabeça”. A moça fez rodeios, circunlóquios, tangenciou e, finalmente, foi à complicação: “Senhor Aurélio, seu filho está se sentindo rejeitado pelo pai. Ele acredita que o senhor não gosta dele, que tem vergonha dele e por isso o rejeita. Isso está gerando uma alteração em seu comportamento, principalmente no relacionamento com as outras crianças em sala de aula”.
Ele não entendeu nada. Como poderia estar rejeitando um menino tão amado, tão cheio das atenções. Havia algum engano ou, então, a psicóloga queria encravar alguma culpa na sua consciência só por perversão, cristã ou psicológica.
“Júnior, rejeitado!?!?! Agora lascou!!! Me explique bem direitinho…”
“Seu filho se sente em segundo plano, ele acredita piamente que o senhor prefere e ama mais o caçula, o Cássio…” “?!?!?!”
Aurélio não falou nada, só fez cara de ponto de exclamação, como nos gibis. A moça percebeu a perplexidade do pai e emendou: “Isso está acontecendo porque o senhor sempre leva Cássio para os jogos de futebol e deixa ele em casa, com a mãe”.
Finalmente, Aurélio vislumbrou alguma lógica na conversa e argumentou sem vacilar. “E a senhora queria o quê? Júnior foi atrás da conversa besta da mãe, foi atrás da empolgação dos tios rubro-negros – tios, veja bem a senhora, por parte de mãe, que na minha família não tem desse tipo de gente, não – e preferiu torcer pela coisa. Não posso fazer nada. Cássio é tricolor como eu, tem seis anos mas já sabe a escalação do Santinha na ponta da língua, então vai comigo. Se Júnior quiser ir no campo, que espere pelos tios”.
Dito isso, Aurélio deu por encerrada a conversa e foi se levantando. A psicóloga não gostou da atitude do pai e ficou mais ousada, ensaiando um sermão: “É essa sua atitude que está despertando a rejeição no menino. Basta um gesto seu para desfazer essa fantasia de ser rejeitado”.
continua amanhã…










