Blog do Santinha

Crônicas, opiniões, desabafos e comemorações sobre o Santa Cruz Futebol Clube, o Santinha, e a torcida coral.
Arquivo de 24 de julho de 2006

Torcer e vencer na Amazônia

por Inácio França, enviado especial a Vila Rica (MT), com colaboração especial de Pedro Lopes de França.

É melhor começar contextualizando: pra chegar em Vila Rica, primeiro é preciso pegar um ônibus no TIP com destino a Palmas, capital de Tocantins. O ônibus é um autêntico pinga-pinga. Ele pára em Ribeirão, Rio Largo (AL), entra na rodoviária de Maceió, depois em São Miguel dos Campos (AL), Própria (SE), Aracaju, Estância (SE), Esplanada (BA) – onde há o pior self-service do nordeste -, Feira de Santana, Itaberaba (BA), Seabra (o centro geográfico da Bahia…), Ibotirama - nas margens do São Francisco -, Barreiras, Mimoso, entra em Tocantins depois de um trecho ladeira acima sem asfalto, faz umas duas paradas num lugarzinhos onde nem perguntei o nome porque não valia a pena, Porto Nacional e, finalmente Palmas, 36 horas depois de sair do Recife. Fim da parte mais longa da viagem.

Agora vem a pior parte: depois de passar a madrugada na rodoviária, nove horas de viagem num ônibus muito ruim e lotado, que faz umas cinco paradas antes de atravessar o rio Araguaia de balsa. A travessia dura menos de meia-hora, mas a balsa grande o bastante para levar o ônibus demorou quase duas horas para dar o ar de sua graça. E, pronto, chegamos a Vila Rica, norte do Mato Grosso, fronteira com o Pará.

Havia floresta em torno da cidade, hoje só vestígios de queimadas, restos de mata, bois bem criados e uma mistura de gaúchos, paranaenses, goianos, paulistas do interior e poucos nordestinos. Entre eles, Pedro e Júlia, meus filhos, que vieram morar aqui com a mãe, médica e também Santa Cruz numa região carente de profissionais de saúde e tricolores.

Foi por causa deles que fiz essa viagem toda. Faz pouco mais de dois meses que saíram daqui e eu precisava revê-los. Saudade mata a gente. Óbvio que é mais barato eu viajar sozinho de ônibus que duas crianças e a babá atravessar o país de avião, com a Varig em crise e sem tarifas promocionais da Gol.

Quando Pedro foi ao Arruda pela última vez, o Santa empatou com a Ponte Preta e Giba foi demitido. Quando ele viajou, o Santinha já era o lanterna e nos envergonhava.

Ontem, voltei a ver o Santa Cruz jogar ao lado de Pedrinho. Numa situação meio surreal: na casa de uma família de pernambucanos, rubro-negros, na beirada da Amazônia. Ficamos sozinhos na sala. Nos abraçamos com força a cada gol e, depois do gol de Nenê, ainda ouvi ele me recriminar porque eu havia reclamado do time no início do jogo.

“Nunca gosto de antecipar qual vai ser o resultado de um jogo do Santa só porque o começo não foi bom”.

Calado estava, calado fiquei. Afinal, proporcionalmente, Pedro já tem mais tempo de Arruda do que eu. Explico: só comecei a ir ao estádio depois dos seis anos. Ele entrou no Arruda antes do terceiro aniversário.

Aqui do meu lado, ele conta que, na semana passada, quando assistia ao Globo Esporte esperando pelos gols de Santa x Goiás, desanimou quando foi exibido primeiro o gol do time goiano. “Pensei: é, perdemos de novo”.

Pedro tinha uma motivação a mais para vencer o Goiás: assim que chegou em Vila Rica, Mateus um colega da escola, de origem goiana, o provocou: “Você torce pelo Santa Cruz? Pô, que time ruim…” A partir daquele dia, o Goiás ficou atravessado em sua garganta.

Pai responsável que sou, prefiro não me meter em discussões de adolescentes, mas estou torcendo para que ele dê uma passadinha na casa do menino e o chame para uma análise rápida sobre a tabela do Brasileirão. Na falta dos adeptos da coisa, é sempre bom ter por perto torcedores do Goiás ou mesmo do Flamengo, torcidas que não faltam pelas bandas de cá.
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O Santa das crianças na vitória sobre o menguinho

Por Samarone Lima

Amigos corais, o dia ontem começou logo cedo. Pela primeira vez, minha patota chegou à lendária Churrascaria Colosso antes do meio dia. Comemos o famoso frango completo e bebemos várias, tranquilamente, até a chegada de Joãozinho Peruca e sua gangue. Viramos muitos copos, na busca da tal cegueira, essa coisa infantil do Saulo, brindamos muito, compramos bandeira do nosso clube (assinada por todos) e quando a Sanfona Coral rasgou, o mundo pegou fogo. Resultado: Santa 3 x 0 no Framengo Clube de Regatas.

Não vou falar sobre o jogo, porque isso é coisa com a crônica desportiva, dos jornais etc. Me atenho ao que foi mais emocionante, envolvendo o nosso clube: as crianças. Ah, amigos, como uma máquina fotográfica fez falta, no dia de ontem!

Logo cedo, nove horas da manhã, eu voltava da pelada domingueira, com a chuteira pendurada no pescoço, consciente de ter jogado uma ótima partida, exausto, já pensando no jogo da tarde, no Arruda, duando dois meninos, dois molecotes aqui do bairro, me abordaram. Perguntaram se eu já tinha ingressos. Respondi que sim, presente do Oswaldo Titio. Eles me informaram que estavam indo ao Arruda, comprar os ingressos deles.

Mais que isso: estavam indo à pé. Não sei a distância do Poço da Panela ao Arruda, mas garanto que esses moleques não iriam andar menos de dez quilômetros. E eles lá estavam se importanto?

Amigos, foi uma das cenas mais tocantes do dia. Dois tricolores que não contavam com a paixão paterna do pai, para ir ao estádio, se movimentavam pela vida, em busca do ingresso. Juntaram os trocados durante a semana, completaram com o apoio de parentes. Acabei emprestando minha bicicleta, eles consertaram o pneu de outra, e daqui a pouco estavam de volta, com o sorriso iluminando o rosto de norte a sul. Mostraram os ingressos como quem exibe um troféu. No Arruda, eles vieram falar comigo. Estavam em estado de graça. Depois viriam os três gols, para a felicidade ser completa.

Outra cena aconteceu no início da tarde. Estávamos na Colosso, tomando nossa garapazinha básica e comendo o tal galeto completo, quando chega Rosa, assessora da vereadora Luciana Azevedo. Rosa estava com o filho, um pirralho lindo, com a camisa do Mais Querido. Detalhe: o pai é rubronegro e a mãe é alvirrubra. Um belo dia, o menino olhou para os pais e declarou:

"Eu sou do Tanta Cluz".

Os pais disfarçaram, mas o menino brilhava os olhos, quando via as imagens do time, na TV.

"Tanta Cluz", dizia, apontando.

Sabe-se que foram inúmeras as tentativas para fazer o menino recuar. Passeios no shopping, presentes, idas a outros estádios, mas não teve jeito. O menino olhava para as arquibancadas, para os torcedores de outros clubes, e não se sentia bem, acusava um enfado no espírito. Lá pelas tantas, o menino começou a exigir sua camisa do "Tanta Cluz", e não teve jeito. É o caso clássico de ter nascido já tricolor. Como diz João Valadares, o menino é um exemplo da evolução da espécie.

O momento mais bonito do dia foi quando ele tirou a camisa do Santa para vestir sua pequena camisa da Sanfona Coral. Gerrá, que vai ser papai, marejou os olhos, já imaginando seu filhote nos dias de jogo. Malvina botou a mão na barriga, emocionada. Quando a Sanfona entrou rasgando, o menino arregalou os olhos e começou a cantarolar o hino do Mais Querido.

Nas arquibancadas, o menino deu um show. Empurrou o time, cantou, pulou, a exemplo dos milhares de tricolores que lotaram o Arrudão, ontem, na vitória contra o Framengo. Pena que não guardei o nome dele, e nosso setor de fotografias do Blog andou de folga. A vitória foi espetacular, o time engrenou de vez, mas ontem, quem roubou a cena foi a pirralhada. Louvadas sejam as crianças corais!

Ao final do match, a Sanfona Coral emplacou o primeiro sucesso da Série A: o hino do Framengo Esporte de Regatas.

"Nunca mais Framengo, nunca Framengo
Nunca Framengo eu hei de ser
É meu maior prazer
no Arrudão
dar no Framengo
e a multidão:
Perder, perder, perder
Nunca mais Framengo,
Framengo é meu freguês".

Ps. Gerrá-zabumba já iniciou a composição do hino do Corínthias PCC Paulista. Diz mais ou menos assim:

"Pau no Corínthians
Quando cair no Arrudão
e o meu Santinha
incendiando o povão…"

Aceitamos colaborações.

Ps. Recebemos uma belíssima foto de Beto Figueirôa, mas minha burrice crônica está impedindo de publicá-la. Joãozinho Peruca e Macksandra tentarão fazer isso. Aguardem.

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