E você pensa que é fanático…
Mesa posta para uma refeição tricolor
A sala, lugar para conversar sobre o futebol do Santinha
Por Inácio França, com fotos de Gerrá da Zabumba
Fazia tempo que o Blog do Santinha estava devendo um texto sobre aquele que talvez seja, literalmente, o mais tricolor dos tricolores: Bacalhau. Chegou a hora de pagar a dívida.
Bacalhau se tornou uma espécie de celebridade em Garanhuns, assim como no Arruda em dias de jogos do Santa Cruz. Todos o cumprimentam, pais fotografam os filhos ao seu lado. Os meios de comunicação já se fartaram de exibir imagens e fotos de sua casa, de seus dentes ou dos seus cabelos pintados em preto-branco-e-vermelho.
Mas, quem é Bacalhau?
Nascido há 64 anos em Gameleira, uma miserável cidade na Zona da Mata Sul de Pernambuco, Jairo Mariano da Silva tinha 10 anos quando foi a um jogo do Santa pela primeira vez. Seu pai, Antônio Mariano, era tricolor e fez o sacrifício de viajar até o Recife para que o filho assistisse uma partida do time. Tudo para despertar no garoto o interesse pelo clube.
Em 1954, seu Antônio morreu. Aos 12 anos, o menino Jairo sofreu muito, sofreu uma dor proporcional à ligação que tinha com o pai. "Quando papai morreu eu fiz a promessa de torcer pelo Santa Cruz, de ir a todos os jogos e acompanhar os treinos de vez em quando", conta Bacalhau.
A promessa transformou-se em paixão, confndiram-se o amor pelo pai e pelo clube. Como diz a letra de uma canção ainda inédita do compositor Bráulio de Castro, Bacalhau passou a ver o mundo preto, branco e vermelho.
Fugindo do serviço militar obrigatório, Bacalhau foi parar em Garanhuns. "Foi a cidade que me acolheu. Por isso, eu amo o povo de Garanhuns". Marceneiro, pintor, pedreiro, eletricista, encanador e "qualquer coisa que aparecer", ele se tornou um personagem típico da cidade, quase uma atração turística. Tudo por conta de sua casa completamente tricolor e de sua simpatia.
Suas histórias são contadas nos bares e circulam pela cidade. Uma delas: há alguns anos, ele vivia com uma mulher que acabou se revelando uma golpista, pois fugiu com todos seus móveis e eletrodomésticos. Depois disso, Bacalhau fez a mobília toda de cimento para impedir novos furtos. "O pessoal diz que sou doido por ter feito as coisas de cimento. Pelo contrário, eu seria doido se deixasse tudo solto pra outra mulher levar de novo".
Sua dedicação ao Santa Cruz é extrema, uma obsessão. "Eu pensei que dava para pintar os dentes, mas não tinha como. Aí, mandei o dentista arrancar todos e fazer uma chapa tricolor. Ele fez, mas pediu que eu nunca dissesse o nome dele a ninguém". E não adianta fazer cara de espanto, ele conta isso como se fosse a coisa mais normal do mundo, algo como tomar um refrigerante na lanchonete da esquina.
Como se não bastassem os cabelos, os brincos, os dentes, o óculos, as roupas, a casa, o animal de estimação e um monte de outras coisas, ele decidiu criar cobras no quintal. "Mas é tudo coral". Melhor assim.
Precavido, se preparou para continuar torcendo mesmo depois da morte. Seu túmulo já está comprado: "Já botei tijolo no fundo, passei massa, cimentei e pintei de tricolor. Tá tudo pronto, o caixão também. Botei um radinho nele, com pilha e tudo. Vai que dá para ouvir jogo do Santa na vida do lado de lá!"
Se você se considera um fanático, é o momento de rever seus conceitos. Fanático é Bacalhau, o resto é torcedor.
37 comentáriosCrônica de uma tragédia futura
Tricolores passam pelas catracas pontiagudas cuja única serventia é provocar ferimentos
Mais sufoco, desta vez para passar os bilhetes eletrônicos pela catraca. Mais desrespeito para domesticar o gado
Humilhados, os animais, ou melhor, os torcedores driblam as goteiras de mijo para encontrar um lugar sob o sol. Pra quê conforto, se o dinheiro dos ingressos já está nas mãos dos cartolas? Quando o time vence, ninguém lembra das filas…
por Inácio França
A fila começou a ser formada uma hora antes da partida começar. Uma fila extensa, do portão de entrada para as arquibancadas até a avenida Beberibe, milhares de pessoas sob o sol nordestino.
Passaram-se vinte minutos e a fila não andou, todos estavam com sede e calor, muitas crianças no colo dos pais choramingavam, fermentando a impaciência.
Cientes de que a Polícia e os seguranças do clube não têm qualquer compromisso com seus direitos, centenas torcedores começaram a se acotovelar junto ao ponto de entrada.
Poucos minutos depois já não havia mais fila, e sim uma compacta massa humana, impaciente, irritada e desrespeitada querendo entrar no local do espetáculo para o qual pagaram o equivalente a nove litros de leite.
Tocados como gado pela violenta e omissa PM, os torcedores precisaram de habilidade para não se machucar nas enormes "borboletas", semelhantes às antigas catracas de ônibus, colocadas entre o portão e as catracas eletrônicas. As pontas de ferro das "borboletas" não possuem proteção, são pontiagudas, um perigo a mais para quem vinha correndo, tentando entrar no estádio. Como acontece em todos os jogos, alguns se machucaram. Crianças, se feriram, choraram, e voltaram para casa apavoradas.
Vencido esse obstáculo, mais sufoco provocado pela incompetência e irresponsabilidade dos dirigentes do Santa Cruz Futebol Clube: a multidão se espremeu para passar pelas catracas eletrônicas. Colocar o bilhete em posição correta na estreita fenda, sendo empurrado por dezenas de pessoas, é uma operação complicada, leva alguns segundos, o que retardou a entrada e aumentou a aglomeração.
De repente, a tragédia: um corre-corre, um grito de pega-ladrão, um atrito entre um policial e um cidadão comum. Não se sabe ao certo o que deu início ao tumulto, mas se conhecem seus resultados: pessoas morreram pisoteadas, esmagadas entre as catracas e a massa humana, muitos se machucaram, cortes profundos, pernas e braços quebrados. Sangue e dor na única entrada de acesso às arquibancadas do estádio José do Rego Maciel, numa tarde ensolarada de domingo.
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Com exceção do trecho em negrito, o relato acima corresponde integralmente à verdade. É exatamente isso o que acontece no Arruda antes de qualquer partida com público acima de 20 mil torcedores. Não é uma exceção, não se trata de fatos isolados. É regra, é rotina.
Domingo foi assim, mas não houve gente pisoteada, ninguém morreu. Ainda. O palco para a tragédia, porém, está pronto.
É incompreensível como se promovem jogos de futebol há mais de três décadas no mesmo local e não se é capaz de organizar o fluxo de entrada nas arquibancadas (assim como nas gerais e até mesmo nas sociais) sem desrespeito os torcedores, já extorquidos no instante da compra dos ingressos.
É absurdo assegurar apenas uma entrada para as arquibancadas, ou seja, um portão para quase 25 mil pessoas.
Como já disse acima, o empurra-empurra acontece, impreterivelmente, em todas as partidas com público acima da média. Mas quem passou por tudo isso no domingo e, no dia seguinte, lê jornais, assiste ao noticiário esportivo na TV ou escuta resenhas nas rádios, tem a sensação que nada aconteceu. Foi obra da imaginação.
Adaptados à mediocridade do jornalismo feito apenas de declarações, os repórteres e editores dos jornais ignoram (ou fingem ignorar, apoiados na alegação da falta de espaço e de papel) o que acontece nos bastidores do espetáculo. Às emissoras de TV não convêm exibir imagens "sujas" ou "feias" do show, pois para a TV, a torcida é um cenário.
E os radialistas? Ah, os radialistas.. quantas vezes eles não usaram seus microfones para recomendar aos torcedores se afastar da política do clube ou se contentar apenas em torcer, jamais em protestar? Esses senhores apenas cumprem a função de amplificar a opinião dos responsáveis diretos pela situação e se limitam a culpar os torcedores por entrar no estádio em cima da hoa ou pedir resignação, "pois em todos os lugares isso acontece".
Mentira. As vítimas não são culpadas. Quem conhece o Arruda sabe o que é suportar o calor das arquibancadas às 14h30min, 15h. Entrar antes, significa gastar mais dinheiro com água, cerveja ou refrigerante, vendidos a preços altíssimos por bares controlados pela família do presidente do clube. Além disso, é possível citar, sem muito esforço de memória, vários exemplos de estádio com inúmeros portões de acesso, abertos simultaneamente até mesmo em jogos sem grande público: Machadão (Natal), Batistão (Aracaju), Pacaembu (São Paulo), Morumbi (São Paulo), Brinco de Ouro (Campinas) e Serra Dourada (Goiânia).
Culpados existem. Existem responsáveis pela tragédia anunciada. Serão os cartolas tricolores? Os dirigentes da Federação Pernambucana de Futebol? A Polícia Militar? Se, um dia, os promotores e procuradores do Ministério Público levantarem das suas poltronas, saírem do ar-condicionado dos seus gabinetes e demonstrarem algum interesse pelo que acontece com os torcedores do Santa Cruz, talvez seja possível conhecer os nomes e caras dos culpados.
Ou será que vai ser preciso morrer gente?
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