Crônica da diferença

por Inácio França
A história da partida de ontem passa, necessariamente, pelo abismo que torna Santa Cruz x São Paulo tão diferentes, partes de realidades completamente distintas, como se fossem times de mundos opostos.
As cores da uniforme e o fato de possuírem dois enormes estádios são os únicos pontos em comum entre os dois clubes. Não há mais qualquer semelhança, nem dentro nem fora de campo.
As condições dos estádios do Morumbi e do Arruda, aliás, servem para ilustrar tal abismo. Interditado pela prefeitura em meados da década de 90 por conta do desgaste no concreto, o estádio do São Paulo ficou anos sendo usado parcialmente, enquanto era reformado. Apesar de não ser comparável aos estádios europeus, o Morumbi é confortável, sinalizado e com dezenas de portões para que seus torcedores não sejam tratados como animais.
As ferragens expostas do Arruda são de todos conhecidas.
É criminoso o tratamento dispensado à torcida na única, repito única, entrada disponível para as arquibancadas. Um crime que tem a famigerada Polícia Militar como cúmplice.
Mas o que esperar de uma diretoria isolada, centralizada, sem credibilidade para captar recursos e que se mantêm no poder graças a um mecanismo político antidemocrático? Aqui, as diferenças entre os dois tricolores ganham proporções absurdas.
Faz tempo que deixei a capital paulista, mas pelo que leio na web e na revista Placar, o São Paulo possui mais de 40 mil sócios em dia e oscargos da diretoria são disputados no voto por grupos consistentes, com projetos para o clube. No Santinha, os interesses pessoais e familiares estão acima de qualquer coisa. Já foi pior no tempo do ex-vereador, mas o caminho a ser trilhado ainda tem capangas de camisas pretas como obstáculos.
A consequência disso é planejamento, esmero na formação das categorias de base, cuidado na hora das contratações e uma elaboração coletiva da estratégia para conquistar títulos em todas as esferas.
O resultado está em campo. Do time do Santa Cruz que entrou em campo ontem, quantos foram formados o clube? Sidrailson e mais ninguém. Do outro lado, estavam Rogério Ceni, Lenilson, Thiago e, salvo engano, Edcarlos. O goleiro Ceni, por sinal, defende seu time de coração há uns 12 anos. O Santa é formado por nômades, oferecidos por atravessadores mafiosos que se autodenominam "empresários".
Por isso, senhores, discutir se a barreira abriu ou se fulano perdeu gols é pouco, é não sair da superfície. Insistir na velha tecla de que a torcida precisa chegar junto nos momentos difíceis é burrice. É preciso lutar para que as coisas mudem de vez.











