Por que a Timemania?
O texto abaixo foi publicado pelo ex-jogador Sócrates em sua coluna na revista Carta Capital.
E não é que os cartolas do nosso futebol finalmente conseguiram aprovar a Timemania? Trata-se de uma loteria que, teoricamente, deve servir para que paguem as dívidas que os clubes que dirigem devem à União. Quer dizer: nós é que vamos pagar pelos desmandos que eles sempre cometeram sem que exista qualquer contrapartida. É, na verdade, um prêmio ao que eles já fizeram pelo nosso futebol. E olhem que não fizeram pouco.
Quebraram praticamente todos os clubes com a sua incapacidade de gestão e esperteza de ação. E saíram soltando fogos e sorrisos, pois não é todo santo dia que cai no colo de quem quer que seja uma bolada dessas sem que se tenha de prestar contas a ninguém.
Só no Brasil mesmo! Um país que hipocritamente evita a liberação do funcionamento dos cassinos tendo uma centena de modalidades oficiais de jogos de azar – a Timemania será só mais um deles – e que não só permite que esses sanguessugas se mantenham eternamente no poder como lhes oferece uma bolsa estupenda para que continuem se locupletando. Quando será que tomaremos jeito?
Nunca vi uma sociedade tão corrompida e suja em sua elite. Ignorante por natureza e manipuladora da grande massa, pois detém o monopólio da informação, explora ao máximo os cofres que se avizinham. E se acha o máximo por isso. Mas continuo acreditando que tudo isso um dia terá fim. Basta que essa maioria silenciosa se levante e reaja contra essa realidade. Se não através do conhecimento, já que pouco lhes é oferecido, que seja por atitudes simples e corajosas, como, por exemplo, deixar de comprar esses engodos em forma de bilhetes.
Os cartolas do nosso futebol podem achar que essa loteria lhes oferecerá a comutação dos seus desvios de gestão, mas não será tão fácil assim. Está certo que, temporariamente, eles poderão usufruir as benesses públicas. Como, certamente, as suas condutas não se modificarão, os rombos nos balanços dos clubes que dirigem serão cada vez maiores e isto lhes trará, com certeza, alguns dissabores. A cada centavo descontado pelo dinheiro obtido por essa loteria, outro ou vários serão computados nas dívidas que por certo continuarão a fazer.
Especula-se que poderão faturar em torno de 500 milhões de reais anualmente, o que não seria pouco, mas ouso imaginar que a sensibilidade popular e a rejeição à forma de administrar dos nossos cartolas poderão produzir uma grande revolta que inviabilizaria uma maciça participação de apostadores, ainda que apaixonados por seus clubes de coração.
Muitos brasileiros estavam tentando se organizar para que o número de votos nulos nas próximas eleições pudesse anular as mesmas, o que se comprovou um erro conceitual, além de extremamente alienante e excludente. Quem pensa em votar nulo poderia muito bem utilizar a vontade de demonstrar insatisfação para com a falta de honradez e despropósito dos nossos dirigentes e promover uma sonora sabotagem a essa loteria fajuta – aqui, sim, uma tremenda oportunidade de promover justiça pela simples indiferença.
Chega de financiar casas em Angra dos Reis e Miami, além de contas bancárias nos mais diversos paraísos fiscais do planeta. Chega de enriquecer ainda mais essa gente que não faz nada mais que sugar até a última gota a saúde do nosso futebol. Chega de dar guarita a quem não zela pelo patrimônio de outrem. Chega de ver nossos melhores jogadores saindo a todo instante do nosso território só para encobrir os negócios que existem nos bastidores provocados por verdadeiros aproveitadores de plantão.
Só para ter uma idéia do quanto essa loteria será inútil para sanear as contas dos clubes, lembremos do que aconteceu com as diversas parcerias que já foram feitas com grandes investidores. Todos saíram com uma mão na frente e outra atrás e nem assim as dívidas dos clubes desapareceram. Como por encanto o dinheiro sumiu nos porões dos balanços e a inadimplência das instituições continuou na mesma. Sem a contrapartida da profissionalização dos departamentos de futebol, nada mudará. Ou melhor, deve tornar-se mais intensa a sangria, pois mais recursos poderão aportar nas mãos dos cartolas.
O resultado está aí nos nossos gramados, com jogos de péssima qualidade que afugentam o público. Se disputássemos o último mundial só com jogadores que atuam por aqui, nem da primeira fase passaríamos. Sentiríamos vergonha de perder para seleções sem tradição e sem técnica. Tudo isso porque estamos acabando com o nosso esporte. É isso que queremos para o nosso futebol?
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