Valença e a vocação para herói
Por Samarone Lima
Amigos, ganhamos mais um jogo, o Juventude saiu envelhecido do Arruda, a brasa da esperança ganhou um soprinho, mas não posso deixar de invocar mentalmente, espiritualmente, psicologicamente, uma cena para a galeria dos grandes momentos do Santa Cruz: o zagueiro Valença.
Mais que isso: Valença jogando com uma faixa, para que o queixo não desabasse.
Poucos jogadores tiveram a oportunidade de sair do panteão dos que têm "amor à camisa", para entrar na galeria dos heróis, aqueles capazes de lutar apenas com um canivete, se as suas armas tivessem ficado no lamaçal das batalhas. Lembro do Beckembauer, na Copa de 70, jogando com o ombro deslocado. Algum jogador por aí, com a faixa na cabeça, também mostrou amor à camisa. Mas faltava ao Santa, nesta campanha, algum ato heroico, algo que ficasse gravado em nossa memória.
Por motivos os mais diversos, acabei assistindo a partida em um boteco derrubado, em Olinda. Estávamos eu e outro tricolor, ocupando duas mesas. Do lado direito, uma mesa repleta de rubronegros. Não, amigos, não era gente comum, seres humanos normais. Eram urubus, com a boca pingando, à espera de nossa carniça.
Humildemente, peguei meu Rum Montilla e fui bebericando. De leve, para não ficar cego, como Saulo Profeta, ou Joãozinho Peruca, de leve. O jogo começou. Os rubronegros calados, exalavam veneno. Havia cheiro de enxofre no ar. O coroa, ao meu lado, começou a soltar seus uivos:
"Estão secando o meu tricolor….vôte!"
A partida seguia. Eu, quieto, bebericando meu aperitivo. O tricolor continuava.
"Eu sinto que estão secando o Mais Querido… saravá!", berrava ele.
Lá pelas tantas, acontece o improvável. Valença leva uma bordoada, fica em campo. Algo grave aconteceu, porque Valença não é de ficar no chão. O choque atingiu em cheio nosso zagueiro.
"O mau olhado já está fazendo efeito. Querem derrubar o meu tricolor!", continuava.
Então, a TV mostrou o nosso zagueiro. Estava enfaixado, à altura do queixo. Teria que jogar em silêncio. Ali, amigos, Valença entrou para a galeria dos heróis corais. Um homem amordaçado, correndo como um louco para tirar o Santinha da lanterna do campeonato.
"Só o Valença, amigo, só o Valença para jogar baleado desse jeito", confessou meu amigo do lado. Depois, arregalou os olhos e completou:
"Valença não tem medo nem da morte".
Quando o Santa fez o gol, corremos e nos abraçamos. Faltou pouco para meu amigo soltar impropérios contra a mesa rubronegra. O restante do jogo, ele ficou entre mugidos:
"Ainda estão secando o meu tricolor".
E a cada jogada de Valença, ele gritava:
"Esse homem é um herói. Merece uma estátua no Arruda".
Do jogo do domingo, amigos, me ficou esta imagem do nosso Valença jogando todo enfaixado.
Amigos, temos um jogador com vocação para herói. Nossa esperança, portanto, é maior que a soma de todas as outras torcidas deste Brasileirão.
E como já dizia o lendário Nelson Rodrigues, " se os fatos estão contra mim, pior para os fatos".
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