Blog do Santinha

Crônicas, opiniões, desabafos e comemorações sobre o Santa Cruz Futebol Clube, o Santinha, e a torcida coral.
Arquivo de 11 de novembro de 2006

Reflexões de um plebeu das arquibancadas

por José Guibson Dantas, relações-públicas e mais conhecido como o google tricolor (ele responde qualquer pergunta sobre qualquer escalação ou acontecimento no Santa Cruz nos últimos 60 anos)

Gostaria de iniciar meu texto pedindo perdão por meu atrevimento, pois apesar de sempre ir ao Arruda (talvez por morar perto), ter sido atleta do clube e mascote nos anos 80, não me considero um torcedor exemplar, pois o Santa Cruz Futebol Clube não é prioridade em minha vida (antes está a minha família, minha atividade profissional e os livros).

Entretanto, ao entrar no estádio em trevas às 18h40, com sessenta e três pessoas sentadas nas arquibancadas, minha mente transformou-se num projetor audiovisual que exibia uma película contendo as glórias do Santa Cruz desde 1982, ano em que comecei a freqüentar o clube. Tomado pela nostalgia e por um sentimento de vazio interior, recordei o Arruda em êxtase com o gol de Rau contra o Volta Redonda, o povo voltando ao estádio correndo após o gol de Célio, o show de bola de Mancuso contra a seleção de Honduras e o pênalti cobrado por Tinho contra o Goiás. Foram tantas imagens que surgiam que só acordei para a realidade quando os refletores do Arruda foram acesos.

O jogo se desenvolvia no gramado, mas o que mais me chamava a atenção era a reação dos tricolores que me cercavam. Após o quarto gol, obra belíssima do garoto Jairo, vejo um jovem abraçado com seu filho com os olhos cheios de lágrimas, enquanto seu “colega de campo” – que mora em Vitória de Santo Antão e não perde um jogo do Mais Querido – chora, desabafa e grita “Eu amo esse clube!!!”. Fiquei filosofando comigo mesmo e tentando buscar uma resposta para esse sentimento de fidelidade e amor do torcedor tricolor por seu clube, mesmo numa época em que vestir suas cores simboliza o fracasso e a humilhação em território nacional.

Mas, ao final do jogo, quando os torcedores se confraternizavam e aplaudiam seus atletas (honrados por sinal), o ofício de resgatar e refletir sobre a grandeza do meu clube que ostentei durante toda a partida deu lugar a um sentimento de indignação e revolta quando vi um rapaz (que tem problemas físicos e psíquicos) distribuindo um belíssimo folder com a foto de Alberto Lisboa, que faz lembrar aqueles papéis bem elaborados e coloridos muito comuns na campanha eleitoral deste ano. Tive uma reação súbita, desesperada: tomei os papéis do rapaz (que não tem culpa, pois sua condição social o torna dependente dessa gente) e os rasguei aos berros.

Voltando para casa, ainda irritado com a campanha política (e ideológica) desenvolvida em plena arquibancada do lanterna do campeonato brasileiro, quando a sofrida e humilhada torcida comemorava um triunfo depois de tanto tempo, eu voltei a refletir e indagar as seguintes questões: por que tanto interesse desse cidadão em ser presidente do Santa Cruz a ponto de ordenar a distribuição de papel promocional em pleno jogo? O que o fez unir-se com a atual diretoria do clube se há alguns meses ele se posicionava como um crítico da mesma? Por que essa obsessão em ser o dirigente maior do clube, em vez de (como bom tricolor) contribuir com o Santa Cruz como sempre o fez?

O discurso de Lisboa após o jogo e os bonitos panfletos eleitorais que ele mandou produzir foram a prova definitiva de que o mesmo vai dar continuidade ao modelo “zénevisiano” de administração. Em vez de comentar o jogo do Santa Cruz Futebol Clube, os salários atrasados dos atletas, a violência praticada contra o bom zagueiro Valdson, ou seja, os problemas que prejudicaram o clube ao longo do certame, o cidadão só se preocupou em fazer campanha na rádio, expressando sua “pura” vontade de exercer a função de PRESIDENTE do clube, pois ele “não está para brincadeira e vai até o fim” – segundo suas próprias palavras.

Sem dúvida ele pode ir até o fim, pois candidatar-se ao posto máximo do clube é um direito que todo tricolor possui. Porém, Lisboa deveria ter, ao menos, um pouco de respeito a esta torcida maravilhosa que foi tão humilhada nesta temporada. Em vez de distribuir arte publicitária com sua foto, ele deveria assistir aos jogos junto da torcida para indagar o que ela pensa e sente. Em vez de ficar dando discursos vazios na rádio – instigado por repórteres simpatizantes de outros clubes -, Lisboa deveria apresentar propostas e responder ao que todo mundo se pergunta:

Por que rasgas elogios à pessoas que, meses atgrás, consideravas danosa ao clube?

Esta pergunta deverá ser aplicada, também, à chapa encabeçada por Edinho/Fred Arruda/Ferrer, caso concretizem um consenso com os desprezíveis seres que comandam atualmente o nosso clube. É esperar para ver e torcer que a oposição não fraqueje diante dos administradores “zénevisianos”. O que o Santa Cruz precisa é o que Antonio Gramsci chamava de “intelectuais orgânicos”, isto é, pessoas que não apenas teorizam mas que se engajam na luta por um ideal. Edinho/Fred Arruda/Ferrer podem ser estas pessoas, mas certamente um consenso com os “zénevisianos” enfraquecerá e corromperá seus ideais e boa vontade.

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Só para lembrar: amanhã tem passeata de protesto contra a atual diretoria saindo do Largo da Encruzilhada em direção ao Arruda, pouco antes do jogo.

P.S - Não apagaremos os comentários dos defensores da atual diretoria. O espaço dos comentários é democrático e aberto para os tricolores. Por meio desse espaço, por exemplo, a Comissão Patrimonial informou que as telas de proteção que deveriam ser alugadas à Companhia de Engrenagem seriam para proteger os ônibus dos visitantes.

Descartaremos apenas comentários ofensivos de torcedores de outros clubes ou xingamentos de baixo nível, como aqueles trocados no JC On Line. Exemplo disso são os comentários feitos por um torcedor cujo e-mail é julioalvesq@hotmail.com, que tenta fazer comentários com ofensivas racistas aos críticos da diretoria ou com ameaças aos blogueiros.

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