Um fenômeno esquisito

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Pedimos desculpas aos tricolores por eventuais transtornos.
Enquanto isso fiquem com as reflexões do advogado André Orlando Duarte, que nos manda sua contribuição para o debate sobre o momento político do tricolor do Arruda. André escreveu um texto longo, mas a leitura vale a pena.
por André Orlando Duarte, advogado
Em meio às notícias sobre o nosso querido Santa Cruz, uma especial tem chamado a minha atenção. Trata-se da afirmação do Sr. José Neves, compactuada por Romerito Jatobá, de que a vindoura eleição dará vitória ao candidato da situação, o Sr. Alberto Lisboa, numa proporção de 3/1, isto é, 75% dos votos dos sócios aptos ao sufrágio.
A primeira vista, poderíamos estar mergulhando num posicionamento bastante otimista do atual Presidente do Conselho Deliberativo do Clube. Mas me parece que tal afirmação merece, detidamente, uma análise mais profunda, senão vejamos:
Todos nós que militamos no futebol sabemos que o perfil do torcedor, do sócio de um clube de futebol é linear em todo lugar. Quantas vezes nós presenciamos alguém do nosso lado xingar um jogador e depois vibrar feito um louco quando esse mesmo atleta faz o gol de seu time. Isso acontece com todos nós, torcedores. Caso seu time ande bem das pernas, o comparecimento aos jogos é constante, o apoio à direção, notadamente segue o mesmo caminho, inclusive quanto ao pagamento da obrigação perante o clube, como, por exemplo, o de ser sócio! Caso contrário, tudo se torna trágico, desmotivante. O torcedor deixa de ir aos jogos e aqueles sócios dantes fervorosos se esvaem pelos resultados e tornam pretensos inadimplentes perante o clube, muitas vezes aguardando a chegada do próximo ano para, com o perdão do clube acerca das não-contribuições passadas, novamente voltar a pagar sua mensalidade.
Com efeito, tudo isso é lógico, é normal, é natural. Sempre foi assim. E assim sempre será. Nesse aspecto não existe distinção, ressalvando alguns poucos casos, óbvio, mas, em regra, quando o time vai mal nas quarto linhas, os sócios deixam de pagar suas mensalidades, seja qual for o time que torce, seja qual for a região que mora, seja qual for sua condição financeira e social. O comportamento de sua excelência, o torcedor, é uniforme.
Todavia, tenho notado (e talvez seja isso a razão tão otimista dos atuais mandatários tricolores) um fenômeno, no mínimo, merecedor de reflexão no nosso Clube. É que nas eleições de 2004, ocorreu uma procura incessante dos sócios inadimplentes ao clube. O motivo seria, a princípio, gozar do direito a votar no futuro presidente da agremiação. Nada mais legítimo nisso. Porém, para isso acontecer, esses mesmos sócios teriam que honrar, quitar seus débitos perante o clube, débitos esses oriundos de meses e até anos passados.
Está aí a razão do fenômeno!!!
Em 2004, todos se lembram que o clube perdera o campeonato estadual de forma traumatizante (num jogo que poderia contar com os três resultados possíveis do futebol e ainda sim, dentro de sua própria casa, entregou o jogo ao adversário em apenas 4 minutos) e, no brasileiro, seguiu sua pífia trajetória de não subir à elite do futebol brasileiro. Pois bem, ainda sim, diante desses infindáveis atropelos, os sócios do Santa, esses honrosos tricolores, foram ao clube, pagaram suas dívidas, tornaram-se adimplentes e votaram na oposição encabeçada á época pelo Sr. Antonio Luiz Neto. Êpa!!! Alguma coisa está errada!??? Ah, esses sócios não votaram na oposição não!! Votaram na continuidade administrativa do clube (lembram dessa frase dita aos quatro cantos por Zé Neves?). Votaram em Romerito Jatobá! Pasme-se! Que fenômeno interessante!!!
Eu sócio e estou em débito com o clube. Aí - contrariando toda lógica, toda cultura, todo perfil do torcedor brasileiro e quiçá mundial - de sequer passar perto da agremiação nessas horas -, vou espontaneamente ao clube pago meu débito de meses em aberto e vou votar na chapa de situação!! Perfeito!! Fico pensando dessa forma: Puxa vida, eu sócio do Santa fiquei sem pagar ao clube durante todo campeonato pernambucano/brasileiro. Deixei de ir às sociais. Deixei de freqüentar o clube. Possivelmente não fui aos jogos do time. Mas, de uma hora pra outra, me bateu o espírito de tricolor, e aí vou correr ao clube pra ficar em dia e votar na atual gestão!
Será que é isso mesmo?
Por outro lado, o fenômeno persiste. Explico: É que os sócios aptos a votar, salvo engano, são os sócios atletas, sócios beneméritos, sócios patrimoniais e os sócios contribuintes. Então, pela demonstração da eleição passada, a oposição saiu-se vencedora em todas as categorias, salvo justamente na dos sócios contribuintes. Ou seja, até mesmo, sob o prisma de sócios, aconteceu um fenômeno diferencial, pois enquanto as demais categorias de sócios resolveram optar por mudanças, os sócios contribuintes, em sua maioria, entendeu justamente o inverso. São esses sócios (alguns deles, constatou-se nas eleições passadas que sequer sabiam onde se localizavam as dependências da sede social) que coincidentemente têm acesso ao clube de forma mais branda, talvez incontrolável. Não há como aumentar, da noite pro dia, os sócios atletas, os sócios beneméritos, mas os contribuintes sim, basta apenas se associarem.
O que me intriga é que o filme pode se repetir agora. Contrariando à lógica, ao sentimento de mudança, ao bom senso, aos sócios atletas, patrimoniais e beneméritos, sem falar, na grande massa tricolor que anseia por mudanças gerenciais no clube, apenas e tão somente apenas, um grupo - bastante poderoso no clube, diga-se de passagem, é que deu vitória e poderá dar nova vitória a chapa da situação. O grupo dos sócios contribuintes. É ou não é, amigos, um fenômeno mais que raro, raríssimo???
Tem mais. Não se trata apenas uma mera vitória, mas vitória esmagadora de 3/1. Fico pensando: hipoteticamente, se o presidente do Náutico se candidatasse hoje à reeleição e houvesse chapa de oposição, muito dificilmente se chegaria a tamanha proporção de 75% dos votos, mesmo se considerando o acesso do time a série A. Pergunta-se: Porque apenas no Santa Cruz esse fenômeno existe?
Meus amigos. Alguém me mostre situação semelhante a essa (tirando, talvez, a do Vasco da Gama)?
Sinceramente não vejo nenhuma lógica nisso. Não vejo, sincera e honestamente, nenhuma motivação racional ou emocional nisso tudo. Vou tentar explicar.
O ser humano é voltado pela razão e pela emoção. O torcedor, quase sempre pela emoção. Pela razão, a atual gestão administrativa tem fracassado. O clube vive sem credibilidade alguma. Jogadores deixam o Santa quase sempre reclamando, quer seja pela imprensa, quer seja mais tarde na Justiça do Trabalho de salários atrasados, compromissos que não são cumpridos, gerando intermináveis passivos financeiros. Tem mais: os funcionários do clube estão sem receber há meses. Não conseguem, com isso, viver com dignidade. Passam por necessidades básicas. Mas, por outro lado, gostaria de saber se o salário do Sr. Carlos Neves, por exemplo, também se encontra atrasado? Gostaria de saber se a empresa do Sr. Romerito que presta serviços ao Santa igualmente se encontra sem receber do Clube?
Não pára por aí. Essa atual gestão, não consegue aglutinar os tricolores. Certamente esse é o maior dos defeitos. Pelo contrário, encarregou-se até de afastar seus antigos pares, como é o caso do próprio Edinho, Silvio Belém, Fred Carvalho e outros, por divergência administrativa. E pasme-se!! Até o atual candidato da situação indicado por Romerito, Sr. Alberto Lisboa, afastou-se do clube, também, pelo mesmo discurso de divergência administrativa. Nossa quanta divergência! E o Santa virou uma ilha… Será que de propósito?
Não bastasse isso, diretores sem a menor experiência no futebol, estiveram à frente do clube, logo na primeira divisão. Com contratações erradas, venda dos principais atletas, com promessa de reforço qualificado no plantel que nunca chegou ao Arruda e um péssimo planejamento, o clube vem namorando a lanterna do brasileiro há muito tempo e, ao que tudo indica, vai se casar com ela.
O Santa serve hoje de gozação aos nossos adversários e de piada em todo território nacional. (Aqui deixo um registro importante: somente um clube da dimensão, da grandeza do Santa Cruz Futebol Clube é que suporta tamanhos desmandos administrativos e permanece, ainda, firme e forte, sobrevivendo graças à sua (in)terminável luz própria).
Em relação ao patrimônio do clube, notadamente ao Estádio José do Rego Maciel, orgulho da Torcida Tricolor, aguardaremos ansiosamente por algumas simples reformas, porque nessa atual gestão tal fato não aconteceu. Um placar eletrônico até agora se espera. Ninguém acredita que uma praça de futebol com capacidade hoje para 65 mil pessoas, não tenha um placar eletrônico, não tenha sequer um placar manual como antigamente. Os bares que geram receita ao clube são sujos, desorganizados e caros. Será que isso é tão difícil de se modificar pra melhor? Será que é coisa do outro mundo pedir melhorias, simples, mas de conduta, para o clube?
Quem passa pela Av. Beberibe toma um susto com aparência do nosso Clube. Mas parece um clube abandonado. Sujo, sem pintura, sem limpeza. As lojinhas, muitas fechadas, e outras, sem padronização alguma, perdem feio até para os boxes de mercados públicos existentes no Recife.
Apesar de ser árduo o trabalho a frente da comissão patrimonial, era preciso avançar mais e muito mais. Segundo registra nossa Polícia Militar, o Arruda é o estádio que mais merece reparos, não porque seja o maior, mais porque simplesmente não há um trabalho sério voltado para corrigir esses defeitos.
Pelo lado emocional, também não vejo motivo para votar em Lisboa. De início, até admitiria que a situação, em circunstâncias normais, lograsse êxito nas eleições, caso o Santa permanecesse na 1ª divisão, ou, caso as eleições tivessem sido realizadas no final do ano passado. Aí é o caso típico de emoção. O torcedor certamente diria: vou votar no homem, porque o Santa é de primeira!!! Nesse caso, confesso que o discurso da oposição enfrentaria uma forte contestação por parte dos sócios tricolores e da própria torcida. Não adiantaria falar em modelo administrativo, gestão do clube, parcerias, etc.. porque tudo isso se levaria a segundo plano face ao sucesso do time em campo.
Todavia, não foi isso que aconteceu. Pelo contrário. Perdemos um campeonato praticamente ganho. E pior. Acho que perdemos no bocão do Sr. Homero Lacerda que deitou e rolou; falou o que quis e que não quis, interviu na FPF, pediu árbitros de fora, pressionou por demais os juízes locais, a ponto da categoria se expor junto à imprensa contra o referido dirigente que chegou a dizer que determinando árbitro de tinha conduta de homossexual, etc.. Nessa brincadeirinha, pra se ter uma idéia, dos quatro jogos realizados entre Santa e sport (com s minúsculo de propósito) neste ano, três deles, o Tricolor saiu totalmente prejudicado pela arbitragem. No 1º jogo, o gol de empate da coisa saiu de uma falta que não existiu. A bola bateu no peito de Adriano e o juiz marcou falta. Nesse mesmo jogo o jovem Tiago sofreu um pênalti clamoroso e o juiz não deu. Resultado empate. No segundo jogo, pelo 2º turno, na estréia de Giba, foi pior. Com árbitro de fora, foi anulado um gol de Jr. Maranhão e um pênalti cabeludo que o zagueiro do sport tirou um cruzamento com as mãos. Resultado empate. E alí o Santa perdeu a chance de ouro de ter ganho o 2º turno e consequentemente o bi-campeonato. No 3º jogo, já nas finais, no Arruda, perdemos, com um gol de pênalti que não existiu. Em suma: O Sr. Homero Lacerda, atingiu o que queria, porque sabia que seu time não tinha condições de vencer o campeonato em campo, mas criou tamanhas confusões que acabaram por beneficiar a coisa. E perdemos um campeonato nos bastidores, sobretudo porque nossa diretoria assistiu o nosso adversário deitar e rolar…
No brasileiro, tudo foi horrível. Com jogadores de terceira, quarta divisão, sem até hoje termos uma meio campista de ligação, com dispensas de jogadores, salários atrasados, etc..estamos novamente na segunda divisão, depois de tanto esforço de parte desse mesmo grupo para que o Santa subisse e como foi bonita essa subida. De pouco ou quase nada adiantou!!!
Por ironia do destino, domingo, dia 26 de novembro de 2006, enfrentaremos o Fluminense, no Arruda. Esse mesmo Arruda que provavelmente terá um público não superior a 2 mil pessoas, simplesmente há um ano atrás (26/11/05) estava lotado com mais de 60 mil tricolores empurrando o Mais Querido para 1ª divisão, no jogo contra a Portuguesa de Desportos.
Então, pelos motivos apresentados, nem pela razão, tampouco pela emoção, vejo como e o por que votar em Alberto Lisboa, votar na situação. Claro que administrar um cube da grandeza do Santa Cruz não tarefa fácil. Muito pelo contrário. Mas convenhamos, se torna menos complicado se dirigido com pessoas compromissadas com o clube, com a transparência, com chamamento de velhos e novos tricolores, sem demagogia, sem falácia, de dizer que o clube está aberto e na prática ser totalmente diferente.
Eis aqui um recado a esses tricolores que irão votar na chapa de renovação(?) de Alberto Lisboa:
Lanço aqui o desafio: gostaria imensamente que os eleitores de Romerito, Zé Neves e Alberto Lisboa, aparecessem. Eu não consigo enxergá-los. Não os vejo nos jogos, nas sociais, em canto nenhum. Até parece que não existem. Apareçam!! Vocês são muito importantes. Vocês podem mudar meu voto ao me convencer em votar na situação!! Vocês certamente sabem de algo, muito valioso, que eu não sei, que poderão me fazer votar em Lisboa!!! Não sei o motivo que vocês votarão na continuidade administrativa, mas gostaria de saber até pra que eu possa votar neles também. Deixem de ser egoístas; apareçam e nos contem as razões para esse voto maciço, por favor. Vamos fazer um fórum de debates entre nós torcedores, sócios do Santa, o que vocês acham dessa idéia?
O Santa suportou a derrota na Bahia por 5×0. Depois suportou outra goleada para o Flamengo de 7×0. Mas essa goleada que tanto Sr. Zé Neves (o profeta!) propaga por aí de 3×1, essa, meus amigos, o Santa não suportará mais…
Sou Cobrão. Sou sócio em dia. Sou Santa Cruz Futebol de Corpo e Alma.
Eu existo!!!










