Arquivo de Dezembro de 2006
Santa Cruz, Música e Carnaval

Raul e João (os Irmãos Valença), Capiba e Nelson Ferreira:
célebres carnavalescos e tricolores
Por Julio Vila Nova
Embora não haja qualquer dúvida quanto à importância do futebol, da música popular e do carnaval para a formação da nossa identidade cultural, as ligações entre essas três vertentes coronárias da alma brasileira ainda não renderam frutos em quantidade e qualidade suficientes, no panorama de nossas artes, diante da grandeza que representam para o povo brasileiro.
O tema é recorrente e tem sido abordado na imprensa, de modo geral, em vários momentos. Lamenta-se o fato de compositores boleiros famosos, como Chico Buarque, terem feito tão poucas músicas falando de futebol. Ou ainda a falta de maior divulgação de canções e discos sobre o tema. Cite-se, como exemplo, o excelente “Novos Baianos F.C.”, de 1973, com fotos da galera batendo pelada no sítio em que vivia a comunidade de Moraes, Baby, Pepeu, Galvão e companhia. Um disco que vale mais como LP, pela qualidade gráfica das fotos e textos (bem reduzida em CD), sem falar, é claro, das músicas, de primeira!
Em Pernambuco, especificamente, esse tríplice alicerce sobre o qual nos esbaldamos em plena folia é honrosamente preservado, graças à sólida sustentação do amor desregrado devotado a um clube em particular: o Santa Cruz Futebol Clube, sem dúvida a agremiação futebolística de maior simpatia entre as camadas mais populares, o que lhe valeu apelidos carinhosos como “Clube das Multidões”, “O Mais Querido”, “Clube da Poeira”.
Na galeria de tricolores ilustres na história de nossa música popular – e, curiosamente, entre os artistas mais ligados à música carnavalesca - figuram nomes do quilate dos Irmãos Valença (autores do Hino Oficial do Santa Cruz e do frevo-canção O Papa-Taças, além de outras obras-primas como O teu cabelo não nega, Saudade e Um sonho que durou três dias); Capiba (autor da música que é por muitos considerada o hino do clube, mas que na verdade é uma homenagem ao primeiro supercampeonato, a marcha-exaltação O Mais Querido); Nelson Ferreira (que inclusive presenteou com frevos antológicos os outros dois clubes da capital); Edgard e Raul Moraes (os mestres do frevo-de-bloco); os maestros Edson Rodrigues, José Menezes, Nunes e Spok; os compositores Braúlio de Castro e Fátima de Castro, Getúlio Cavalcanti, Alírio Moraes, Sebastião Lopes, Marambá, Inaldo Moreira, Fernando Neves, Leôncio Rodrigues, Chico Nunes, Carlos Fernando.
A lista inclui ainda Antônio Carlos Nóbrega e Naná Vasconcelos, os cantores Bubuska, Walmir Chagas e Edy Carlos, além de artistas não necessariamente ligados à cena carnavalesca, como Maciel Melo, Nando Cordel, Canibal e a turma da Eddie.
Na elaboração de uma lista dessas, sempre se corre o risco de esquecer alguém, o que provavelmente deve ter acontecido. Não importa. Aqueles que por involuntária omissão foram deixados de fora, reclamem o seu orgulho tricolor e perdoem a ignorância de quem escreve.
O que importa mesmo é saber que, graças à sua origem simples (sabe-se que eram jovens estudantes os seus fundadores), o Santa Cruz conseguiu reunir em perfeita comunhão, ao longo de sua história, três maiúsculas paixões do povão pernambucano: o futebol, a música e o carnaval.
E graças a essa feliz comunhão, para comemorar com mais entusiasmo o novo momento do Santa Cruz, com o sopro vigoroso de participação democrática da torcida para este ano de 2007, estaremos prontos para gritar os refrões da vitória, como aquele de Bráulio de Castro: “ Não adianta mudar, seu doutor! Meu coração sempre será tricolor! Eu não me canso de dizer: SOU SANTA CRUZ ATÉ MORRER!” (Nasci Santa Cruz, do CD Veneno da Cobra Coral).
Um abraço a toda torcida coral. Muita saúde ! Sucesso em 2007, no gramado do Arrudão e na grande área da vida inteira!
Julio Vila Nova é professor, presidente do Bloco Líricos Cordas e Retalhos e pai de Lívia de Castro Alves Vila Nova, decassílaba filha que canta “Papai Tricolor” desde que aprendeu a falar.
*****
Nota do Editor Assistente Jr, Anizio Silva: Amigos, 2006 vai chegando ao fim, embora para a nação tricolor 2007 começou há um mês, com a revolução que ajudamos a promover no clube. Com este inspirado artigo de Julio, que prepara o espírito e anuncia o carnaval tricolor que vem aí, o Blog do Santinha se despede e manda um forte abraço. A não ser, claro, que os editores senior apareçam para dar um alô.
24 comentáriosRetrospectiva 2006: Maio
No mês de maio o time, aos trancos e barrancos, dispensou o esforçado Giba e contratou Valdir Espinosa (vai-te!).
Nessa época, diversos bares e restaurantes abrigaram (MAL) a torcida coral. Depois da péssima experiência de ver o time perder, e ainda por cima serem mal atendidos, alguns torcedores pediram encarecidamente a Samarone que ele montasse um novo bar.
Eis a resposta dele:
Sete motivos para não ter um bar coral
"Amigos corais, andaram me sugerindo que eu continuasse minha conhecida carreira de dono de Bar, depois das empreitadas do La Prensa e Garraffus, que se tornaram, obviamente, reduto coral. Elenco alguns motivos para indeferir os pedidos e continuar a buscar, com a massa coral, o “nosso boteco”.
(…)
Motivo 2: A derrota é sempre culpa do bar, e o dono do bar é sempre um pé-frio
Não adianta. O Santa pode ganhar 221 jogos no bar, colecionar títulos, recordes, dominar o futebol no estado, no Nordeste, no Brasil, mas basta uma derrota, um reles 1 x 0 quando já estava classificado, que soltam a acusação, à boca miúda:
“Esse bar é que está dando azar”.
“O Samarone é realmente um pé frio”.
“Não volto mais aqui”.
“Não te avisei?”
Texto completo (e hilário) + Comentários:
Sete motivos para não ter um bar coral
Confira também o artigo sobre o Bar do Tricolor:
Em Peixinhos, um porto seguro para os tricolores
Aqui vai uma confissão: estou de alma lavada.
.
Por Samarone Lima, do Blog do Santinha
Amigos corais, depois da vitória nas eleições, quando tiramos o entulho autoritário do Arruda, tive que cair na estrada. Comemorei a vitória de Edinho e Companhia em barracas as mais diversas, mas tive que partir logo em seguida para o Semi-Árido de Pernambuco, Paraíba e Alagoas. Fiquei acompanhando a ressurreição de longe. Até a confraternização no Mercado da Boa Vista eu perdi.
Na volta ao Recife, me veio aquele aperto espiritual. E o Santinha? Como anda o meu clube? Vi relatos, depoimentos, matérias no Blog, nos jornais, mas preciso ver, sentir o clima, o cheiro, olhar na cara das pessoas, para aceitar certas informações. Coisa de jornalista já meio cansado de guerra. Mais que isso, eu tinha uma paranóia emocional: a urgência de virar sócio, coisa que vinha relutando por questões políticas.
Nesta quinta-feira, 28 de dezembro de 2006, às 16h07, cheguei ao Arruda com duas missões: virar sócio e escrever uma crônica sobre os novos tempos.
Cheguei ao guichê para me associar e tinha três pessoas na minha frente. Já gostei da cena. Um senhor de bigode e cavanhaque assinou um cheque e entregou.
"Enquanto tivesse aquela diretoria, eu não voltava", disse, com aquela cara de feliz.
A atendente, dona Alda, sorria dos pés à cabeça. Súbito, olhei para trás e cinco camaradas tinham acabado de chegar.
Quando chegou a minha vez, comecei a tremer de emoção. Vou ser sócio do Mais Querido!
Deu errado. Dona Alda me informou que precisava da xérox da identidade e CPF, mas o clube não tem xérox.
"Tem débito automático, para eu pagar umas parcelas adiantado?", perguntei.
Necas de pitibiriba.
Como já estava entardecendo, peguei três formulários (eu, Naná e Diazepan) e fui perambular pelos arredores do clube. Voltarei nesta sexta-feira para engrossar a fileira de novos sócios.
Subi ao primeiro andar. Estava tudo vazio. Dei uma volta, lembrando aquele memorável dia 1/12/2006, quando arrancamos o Santa de volta e o devolvemos ao povo. Pude ver a cena, a emoção, no nervosismo, o negro sereno que era a esperança coral, avisando que tudo daria certo. Procurei meu lenço, mas tinha ficado na bolsa.
Lembrei que tinha que escrever uma crônica e fui ver se o presidente Edson Nogueira se lembrava de mim. Cheguei à secretaria e disse que precisava falar com Edinho.
"É de onde?"
"Do Blog do Santinha?"
"Do Bloco de quê?"
"Não, minha senhora, é Blog!"
Ela pegou o telefone e ligou para alguém.
"É um rapaz de um Bloque…"
Silêncio do outro lado da linha.
"É um bloque, um bloque, bloque…"
Comecei a ficar nervoso. Quem me salvou foi o próprio Edson Nogueira, que foi passando e lembrou de mim. Me agarrou pelo braço com aquela suavidade típica e fui sendo arrastado rumo ao parque aquático.
"Samarone, fiz um requerimento a São Pedro para ver se ele me dá mais cinco horas por dia", disse, enquanto meu braço ficava rôxo.
Estava acompanhado do gerente de Marketing da Via Sport, Márcio Araújo, que é tricolor de corpo e alma e vai dar sua contribuição ao clube como profissional liberal.
Chegamos àquele descampado cercado de mato que chamam de Escolinha.
"Aqui eu quero dois campos de futebol societe. Ali eu quero uma pilha".
Não entendi o negócio da pilha, mas tudo bem.
"Isso daqui é uma mina de ouro e ninguém sabe explorar", comentou o Márcio.
Olhei ao fundo, uma frase pintada na parede, já meio coberta por um matagal imenso:
"Aqui se formam os craques do futuro".
Os dois ficaram conversando sobre um monte de coisas que vão fazer, mas não dá para botar aqui, porque gastei duas canetas BIC inteirinhas em vinte e dois minutos de conversa.
Lá pelas tantas, fiquei sabendo de duas coisas extraordinárias: todas as cotas do Santa, de 2007, já foram repassadas com antecipação, e não tem um tostão. Paparam tudo. Até a Finta já pagou as cotas de 2007 e entregou todo o material esportivo do ano que vem. Não ficou nada.
"Não tem nada. Vão continuar entregando o material esportivo na base da camaradagem", explicou Edinho.
Fiquei sabendo também que vem uma auditoria caprichada por aí. A empresa já foi contratada.
"Quero uma auditoria séria nos últimos quatro anos, e nos próximos dois", disse o presidente.
Outro dia, um torcedor perguntou:
"Mas o senhor anda sozinho aqui?"
"No dia em que eu precisar de segurança para andar no meu clube, eu vou embora", respondeu Edinho.
Ele puxa meu braço (o outro braço, sem a marca rôxa) para mais uma volta. Fala de outros projetos, parcerias, da força que está sentindo vir da torcida.
"Estou tendo apoio maciço de todo lado".
Perto da fila de novos sócios, encontro o José Lourenço Sobral Filho, que acabou de pagar R$ 300,00 de sua anuidade como sócio. O camarada é sócio do Santa desde 1965. Amigos, são simplesmente 41 anos contribuindo com o Mais Querido.
"Mudou completamente por aqui. Mudou tudo", diz, com um sorriso, antes de tomar sua garapinha com amigos no restaurante do Galvão, no primeiro andar.
Passei no Galvão pela primeira vez na vida. Estavam lá o Ridoval Veras, gerente comercial de uma multinacional. Acabou de pagar R$ 180,00 de anuidade, mais a anuidade das quatro cadeiras. Como tem quatro cadeiras, é só multiplicar 180,00 vezes quatro. Aqui na minha calculadora, deu R$ 720,00. Do outro lado da mesa, o Abrahão Lucas, também mamando sua cervejinha, com vista para o Arruda. Os dois já compraram ingressos, junto com mais três amigos, para o jantar de adesão ao Santa, que vai ser dia 8/01, no Spettus. Cada um vai entrar com R$ 250,00.
Como o Blog do Santinha não tem essa grana toda, vou combinar com Inácio. Rachamos os R$ 250,00 e cada um se compromete a jantar somente a metade. Se for o caso, a gente usa somente um prato e faz uma linha divisória. Metade é teu, metade é meu. Estão vendendo 1.000 senhas, é melhor correr.
Ridoval e Abrahão encheram um copo e tive que beber. Depois queriam que eu ficasse bebendo, com aquela velha tática de encher o copo a todo segundo. Lembrei que faltava ver o treino. Bebi um gute-gute e caí fora.
No campo, estava toda a diretoria de futebol, a mesma turma que saiu do clube em agosto de 2005, quando o Santa ganhava tudo em campo, mas quem me reconheceu de longe foi o assessor de Imprensa, Álvaro Claudino. Conversamos umas besteirinhas, depois fui ver a diretoria de futebol. Fred Rosemberg disse que o que tem de craque sendo oferecido ao Santa, é um negócio.
"Todo mundo que oferecem para o Santa, é perfeito. O cara dribla bem, chuta com as duas pernas, cabeceia que é uma maravilha, se posiciona bem", informou.
Rosembrick queria R$ 45 mil por mês. O sujeito agora usa três celulares. Mais freeescooo…
Olhei o racha. Givanildo olhava quieto o racha. Até em pelada de esquina, Givanildo olha com seriedade. Jogo de dominó ele olha sério. Porrinha ele olha sério. Givanildo é o típico sujeito que não precisa dar carão em ninguém. Basta ele olhar para o camarada e ficar calado, que é pior que um cascudo. No final, Edinho, a diretoria de futebol e Givanildo ficaram conversando. Fiquei de longe, olhando. Me chamaram para a roda. Fiquei tão empolgado, que resolvi fazer uma mini-entrevista para o Blog.
"Tás animado com o clima no Santa, Givanildo?"
"Tô…" começou ele a responder, coçando a cabeça.
Pensei que ele estava pensando no que iria dizer. Fiquei com o bloco na mão e fez um silêncio de cinema.
A resposta era só aquela mesma, amigos, a resposta mais curta do Brasil, em 2006:
"Tô".
Fiz mais duas perguntas que não levaram a nada, quando, pela graça divina, chegou João Braga, presidente da Comissão Patrimonial, e a conversa tomou outro rumo.
Fiquei por ali, olhando as arquibancadas vazias. O sol começava a cair e uma brisa suave passava pelo campo. Olhei para o céu, que ainda estava azulzinho, com poucas nuvens.
Saí do Arruda com aquele sentimento simples, mas exuberante: estou de alma lavada.
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