Crônica tardia da ressurreição do Santinha

A trupe das "Maria-fantasma"; colocamos uma tarja no rosto, que nem nos programas policiais

A implacável fiscalização de Edinho ajudou a evitar maiores trambiques

Edinho nos braços da torcida após o resultado final (foto: Robson Sena)
Por Samarone Lima
Amigos corais, antes de tudo, vai o pedido de desculpas. Como um dos editores do Blog do Santinha, deveria no sábado de manhã ter deixado a euforia de lado para escrever algumas linhas sobre a épica vitória da Oposição, na eleição do dia 1 de dezembro de 2006. Deveria ter contado tudo nos mínimos detalhes, para alimentar ainda mais a paixão dos milhares de tricolores espalhados pelo mundo. Deveria ter relembrado os momentos de apreensão, de tristeza, euforia súbita, até que começamos a acreditar que a vitória chegaria. A esperança, na sexta-feira histórica do nosso clube, foi chegando de mansinho, de fininho, era uma equilibrista, no meio de um mar de eleitores falsos e tricolores apaixonados.
Confesso. Fui movido pelos excessos de felicidade. Escrevo este texto somente na tarde de segunda-feira, ainda com a ressaca dominando todos os poros. Estive por aí, nestes dois dias, comemorando muito, pleno de felicidade. Como bem lembrou o Artur Perrusi, no belíssimo texto sobre nossa vitória, resgatamos “A dignidade de tentar”.
Sim, amigos, circulei pelos bares, botecos, andei por aí. E ao contrário de todos os meses anteriores, ganhei um arroubo futebolístico inesperado. Entrei em mercados e bares de peito estufado, com a camisa “Edinho presidente – Credibilidade e competência”, que o Anizio me entregou, pouco antes da votação. Com aquela camisa, a camisa da vitória, o escudo do Santa no meio do peito, eu estava três degraus acima de rubronegros ou alvirrubros. Ninguém ousou falar do meu Santa sem que eu respondesse a frase mais deliciosa dos últimos tempos:
“Derrubamos uma ditadura. Vocês agora que se cuidem”.
Vou então por partes. Convido vocês para um passeio por dentro do nosso clube, naquela antológica tarde/noite de sexta-feira, quando a esperança renasceu e livramos o Santa Cruz de anos de escuridão.
A tarde - Cheguei ao Arruda umas 14h03, e tinha gente batendo na canela. A lista de eleitores aptos para votar: 2.860. Puta que o pariu, pensei, vai ser foda, mas nosso dever é lutar. Rapidamente encontrei um bocado de amigos. Daqui a pouco esbarro em um sujeito novo, com um paletó escuro, e perguntei:
“Maracutaia não, rapaz”, respondeu o camarada.
Era a turma chegando ao Arruda, e o baixo astral chegando. Nunca vi tanta mulher sócia do Santa, em dia. Muitas não sabiam sequer onde ficava a parada de ônibus. Qualquer tentativa de tirar fotos, elas se escondiam. Arranjei um bate boca pesado.
“A senhora está com vergonha de votar no seu clube? Tem alguma coisa errada?”
Geralmente tinha. Mas foi aí que começamos a vencer, amigos. Houve uma pressão imensa da torcida em cima dos eleitores-fantasmas. Ganhamos muitos votos na base da pressão.
A tarde foi na secura mesmo. Não vendiam bebida nenhuma. De longe, vi a turma da então situação (que vai embora dia 9). Para minha surpresa, havia algo de tensão no ar. Eles não pareciam certos da vitória.
Já participei de muitas batalhas nesta vida, e sei que podemos ganhar ou perder. Mas meu Deus do céu, como eu queria ganhar aquela eleição! Como eu queria que a truculência, o abuso de poder, a arrogância, fossem embora do Santinha! Como eu sonhava em um dia andar dentro da sede sem ter que esbarrar em torpezas, em seguranças, em “donos” do nosso Santa!
A urnas e a esperança - Lá pelas 18h33 as urnas começaram a ser abertas. Primeira urna (Contribuinte VIP e Benemérito): demos uma boa sova de 37 a 8.
“Isso eles tiram só na primeira urna de sócio-contribuinte”, me disse alguém. Me disseram muitas coisas naquela noite.
A segunda urna foi a de Patrimonial: demos outra boa sova, de 129 a 13. Em duas urnas, acumulamos 166 votos. Vi alguns olhares atônitos. Havia algo no ar. A multidão que ficou era formada por uns 200/250 torcedores, e todos tinha a mesma profissão: matemáticos. Nunca vi tanto cálculo na vida. Emprestei minha caneta 17 vezes e comecei a fumar cigarros emprestados.
Veio a terceira urna (também patrimonial): mandamos um 106 a 17. Então, amigos, abrimos 255 votos em três urnas. A vibração se acentuou. Vi os primeiros olhares cheios de esperança. São esses olhares que têm gana, paixão, força. Todos os revolucionários do mundo, os que lutam pela liberdade, em algum momento, ficam com esse olhar.
Lá pelas tantas, a urna de sócios-atletas.
“Vamos levar uma chibatada”, me sussurraram.
Pela graça divina, o Santa quase não tem sócio-atleta. Perdemos somente de 17 a 11. Ainda estamos com 249 votos.
O seu Dorgival ia separando os votos. O voto branco era nosso, o azul era deles. Então eu descobri que ele contava em lotes de 10. Fiquei ao lado de um tricolor muito bacana (esqueci o nome dele agora), numa ação verdadeiramente absurda. Acompanhávamos um a um, repetindo “nosso”, “deles”, “nosso”, “deles”.
Quando veio a primeira urna de “Contribuinte” (a 5a urna), o rumo da prosa mudou. Começamos a repetir “deles”, “deles”, “deles”, “deles”, e de vez em quando um “nosso”. Perdemos por 26 votos (60 a 86).
“Começou a merda. Não tem jeito, vão ganhar no roubo de novo”, alguém disse.
Me deu um frio na espinha. Pensei numa geração de grandes tricolores que ficariam de fora, no grupo que tinha tantos projetos e idéias para o Santa. Pior era o sentimento de impotência, de tristeza. A esperança muitas vezes perde, todos sabemos. Porra, esses caras vão ficar mais dois anos fudendo com nosso clube, era o que eu pensava. Eu e mais uma legião.
A esperança é negra – Então aconteceu um milagre. Um senhor negro, muito simples, fumando seu Hollywoodizinho, uma pessoa modesta, com uma camisa desbotada, muito silencioso, me olhou com um sorriso e falou:
“Não se preocupe, filho. Essa eleição a gente já venceu”.
Ele abriu um sorriso e deu uma baforada. Era a esperança, na minha frente, uma esperança negra, calma e sem arrobos.
“Essa é nossa”.
Fiquei zanzando por ali. Era uma confusão do caralho. Fomos tomados por um frenesi. A cada urna, eu esperava a gritaria, abraçava os tricolores, e chamava Sylvio Belém.
“E aí, Sylvio?”
“Parece que vai dar. Mas se der, vai ser por pouco”.
Veio então a 6a urna: 95 a 64 (para eles), e a diferença começou a diminuir. Estávamos somente 192 votos à frente.
E então, aconteceu um pequeno milagre. Na sétima urna, começamos a contar “nosso”, “deles”, “nosso”, “deles”, e os votos brancos começaram a ser muitos. Algo tinha acontecido. Perdemos somente por 9 votos (61 a 76). Tínhamos 183 votos de diferença, e eles tinham somente duas urnas para tirar a desvantagem. O detalhe fabuloso: a última urna, pequena (35 votos) era nossa. Corri para Fred Arruda:
“E aí, Fred?”
“Vamos ganhar. Em nenhuma urna eles tiveram uma votação tão grande”.
Então foi o momento do infarto. Em três urnas, poderíamos perder tudo. Calculei o seguinte: cada urna vai representar dez anos para o futuro do Santa. Olhei para o negro. Ele estava sozinho, muito quieto.
“Não tenha medo. Já ganhamos”.
O Dorgival contou os votos e depois leu, ao microfone: 101 a 76. Pouco mais de 25 votos de diferença. Ainda tínhamos 158 votinhos de reserva.
Começamos a cantar. “Madeira do Rosarinho” começou a sair, espontaneamente. “Edinho! Edinho!”. Era um fato concreto. Poderíamos vencer. Mas o que eu queria, amigos, era ligar para o meu amigo Inácio, que estava em Natal, e dizer:
“O milagre aconteceu, Inácio, vencemos!”
A urna das “Marias” – Então veio o terror total. Vinha pela frente o que começou a ser chamado de “Urna das Marias”. Era a urna com os votos das mulheres, onde estava o grosso da fraude. Amigos, nunca tive tanta raiva de mulher na vida. Só votantes com o nome “Maria”, tinha umas 60. Lembrei que minha mãe se chama Maria, minha avó se chama Maria, mas não teve jeito: eu estava puto com as Marias do Arruda.
Mas não teve Maria nem Joana nem Isabel, nem Antônia que desse jeito. Eles ganharam por 145 a 86, abrindo uma diferença de reles 59 votos (precisavam de no mínimo 80/90 votos).
Estava acabando a ditadura. Melhor, já tinha acabado. Eles não tinham mais como vencer.
Nasceu espontaneamente um grito só:
“Ôôôô fora! Fora! Fora!”
A última urna sacramentou tudo. Ganharam por 115 a 72 (vantagem de 43 para eles). Por fim, a última: ganhamos de 29 a 6.
Tivemos 731 abençoados votos, contra 674.
Apenas 57 santos, lindos, abençoados, doces votos. Cada voto, um ano a mais para o Santa.
Depois, foram muitos abraços, lágrimas, aquela euforia das grandes vitórias. Uma vitória que teve gosto de um supercampeonato. Uma vitória sem acertos, sem acordos, sem negociações espúrias. Uma vitória do clube que sempre foi e será das multidões.
Nos últimos dias, ando olhando para os rubronegros e barbies de cima pra baixo.
Eles subiram à Primeira Divisão, é até uma alegria boa, mas nós, do Santinha, saímos da lanterna do Brasileirão e fomos direto ao paraíso.
Esta crônica eu dedico ao meu amigo Inácio França, criador do Blog do Santinha, que ajudou muito nesta conspiração do bem, e a todos os que nos ajudaram a fazer o Blog funcionar, ao logo dos últimos intensos meses.
SERVIÇO DE ORIENTAÇÃO AO TRICOLOR
Alerta tricolores!!!!!
Enquanto o gato não chega, o rato faz a festa. Pois bem, fiquemos todos ligados para que não seja feito nenhum tipo de pagamento ao Santa Cruz nesta semana.
Deixemos para quitar nossas dívidas, em especial, as cadeiras cativas e camarotes, somente quando a nova gestão assumir o clube.
Cuidado com grandes ofertas e/ou propostas, pois elas podem sair pelo “cano ladrão”.








