Agora sim, o Santa Cruz somos nós!
O auditório lotado testemunhou a emoção de Edinho, o homem que dizia que não se emocionava com futebol

Mesmo assim, todos que superlotaram o abafado auditório da sede na noite de sábado, 9 de dezembro, sabem que presenciaram um momento histórico: o momento em que o Santa Cruz deixou de ser propriedade de uma família e voltou a ser da torcida tricolor.
Não vou perder tempo com narrativas e descrições que já devem estar nas resenhas e nas páginas dos jornais. Pretendo me apegar aos detalhes, àquelas minúcias que ficarão na memória e serão repetidas sempre que a história for contada.
Os portões abertos poderiam simbolizar os novos tempos. As pessoas chegavam e, orientados por um funcionário bem educado, estacionavam e seus carros no interior da sede. No espaço entre o estádio e o parque aquático, normalmente destinado aos carros de jogadores ou dos dirigentes, havia carros populares de todas as marcas. A cordialidade dos vigilantes, aliás, também era indício de que havia algo de diferente na avenida Beberibe.
No auditório, tricolores se abraçavam, recordando eleições e lutas passadas, como as reuniões que fazíamos no Sindicato dos Jornalistas, ou as reclamações nos programas de rádio.
No único momento de mau-humor da torcida, as merecidas vaias para João Caixero foram abafadas por pedidos de boa educação. Caixero foi o remanescente da ditadura que compareceu e que continuará a trabalhar no Arruda por força de um casuísmo do estatuto, que lhe garante uma função na Comissão Patrimonial até 2008.
Entre os detalhes inesquecíveis, as lágrimas e os soluços de Edinho em seu discurso de posse me fizeram lembrar uma entrevista que ele concedeu ao blog há quase um ano. Na época, ele disse que era um "dirigente racional e que não se emocionava com futebol". Foi desmentido pelo próprio choro e pelo carinho com que abraçou as netas Sofia e Maria Eduarda na hora do hino.
A pouco mais de um metro de Edinho, o ex-presidente Rodolfo Aguiar também não lembrava o homem amargurado e triste que costumava falar do Santa Cruz sem esperanças, usando os verbos sempre no passado. Rodolfo parecia um menino, sorrindo, puxando gritos de "tri-tricolor" e cantando o hino do clube com toda força.
No final, Aguiar, já com uns 15 ou 14 anos, pulou do palco onde estava a mesa e foi distribuir abraços entre os amigos. Para mim, o ex-presidente gritou: "Fizemos a revolução tricolor". Quando eu era menino como ele é agora, Rodolfo Aguiar era um ídolo da estirpe de Nunes ou de Givanildo. Imaginem a minha emoção que, além de conselheiro democraticamente eleito (sim, sou conselheiro, mas sobre isso escreverei outro dia), ainda ganhei um abraço do ex-presidente.
No final da cerimônia, os tricolores ficaram pelos corredores, olhando para todos os cantos, como se estivessem voltando para casa depois de muitos anos de ausência.
Nessa festa, os leitores do blog vão entregar a Edinho o dinheiro que seria gasto com cerveja e tira-gosto. O total arrecadado será usado para quitar a folha de pagamento de janeiro de 2006 (isso mesmo: janeiro passado!).
Quem colaborar, participará do sorteio.










