Blog do Santinha

Crônicas, opiniões, desabafos e comemorações sobre o Santa Cruz Futebol Clube, o Santinha, e a torcida coral.
Arquivo de 13 de janeiro de 2007

A distância não importa; para mim só importa o Santa Cruz

 
Marco viaja 297 km para reencontrar sua paixão

Por Marco Aurélio Freire

Tenho 28 anos e sou formado em Ciências Biológicas, tendo acabado de concluir o Doutorado sobre o mesmo tema.

Desde que me entendo por gente sou torcedor do Santa Cruz Futebol Clube. Não sei precisar muito bem de onde vem minha paixão, embora tenha a impressão nítida de já ter nascido com ela.

Sempre gostei de futebol, tenho inclusive jogado nas divisões de base do América de Natal, para onde me mudei ainda criança, por força de uma transferência de trabalho do meu pai. Desde meus sete anos acompanho o Santa Cruz, e minha primeira lembrança é ver meu pai, que é Tricolor, ouvindo jogos do Mais Querido no rádio e comemorado efusivamente o bi-campeonato Pernambucano de 1987, bem como a cara feia de minha mãe que, infelizmente, é torcedora da coisa.

A partir daí nunca mais deixei de acompanhar os passos do Tricolor, para onde quer que ele fosse, sempre me identificando como torcedor do Santa Cruz, para alegria de meu pai e desalento de minha mãe. Meu irmão, dois anos mais novo que eu, e minha irmã, que tem 22, também viraram Tricolores mais tarde, muito pelo fato de eu falar insistentemente no Santa Cruz em casa.

Lembro-me da primeira vez que entrei no José do Rêgo Maciel: neste mesmo ano de 1987, campeonato brasileiro da primeira divisão (onde apenas o Santa Cruz representava o Estado), para ver o Santa Cruz enfrentar o Santos. No final vencemos por 3×1 e a sensação que tive, que é a de toda a criancinha de 8 anos que se depara com algo grandioso, foi ficar maravilhado com aquela construção gigantesca e imponente, o Colosso do Arruda. No ano seguinte tive que sair de Recife, por conta de seguidas transferências de meu pai, mas aquela primeira imagem nunca se apagou de minha retina.

Acompanhei o rebaixamento do Clube à segunda divisão em 1988 na casa de minha avó materna, no interior de PE. E nesse dia a vi muito triste, já que ela é Tricolor roxa. Isso me marcou muito, até hoje me lembro da cena.

E mesmo de longe, continuei acompanhando o Santa Cruz como podia. Meu pai foi novamente transferido, agora para bem mais longe, o que aumentou minha angústia e meu desejo de voltar para perto do Santa Cruz. E de bem longe acompanhei tudo o que se passava no Clube, seu lento e gradual processo de arruinamento por gente inescrupulosa.

Na metade de 2005, ainda fazendo o Doutorado, tive a notícia que tanto ansiava: a oportunidade de voltar a morar em Natal, e ficar mais perto do Clube das Multidões. E a primeira coisa que fiz foi estabelecer contato com Tricolores pela Internet. E hoje alguns deles se tornaram muito meus amigos, inclusive me dando “assistência logística” quando saio de madrugada aqui de Natal para ir a Recife apenas pra ir ao Arruda ver o Tricolor jogar.

E o ano de 2006 se tornou emblemático pra mim: vendo o Santa Cruz sendo destruído por pessoas que de maneira nenhuma podem ser Tricolores, o sentimento de revolta cresceu em meu peito. E esta mesma revolta estava latente em outros Tricolores que, como eu, ansiavam por mudanças. Como uma coisa puxa a outra, nos vimos envolvidos em um movimento que objetivava apenas ajudar a salvar o Clube.

Passamos todo o mês de novembro na luta, quando podíamos e quando não podíamos, negligenciando trabalho, estudo e todo nosso tempo livre. Então o dia 1º de dezembro chegou. E neste dia vencemos uma batalha sangrenta, a batalha fundamental. Tivemos o prazer e a honra de presenciar uma epopéia. Temos o que contar a nossos netos, participamos de algo grandioso.

Este momento épico entra para a História como uma das maiores vitórias de um oprimido contra um opressor, ávido por dizimar as poucas resistências que restavam ao agredido.

E sem qualquer medo de errar ou mesmo de fazer um uso inadequado de uma conhecida figura de linguagem (a hipérbole), esta eleição apoteótica para todos nós Tricolores pode ser comparada a uma das maiores batalhas já travadas na História da humanidade, a batalha de Stalingrado. Tal como os soviéticos sitiados em poucos palmos de chão, o povão Tricolor resistiu bravamente ao cerco da ditadura.

Contando com muita competência de seus generais (Edson Nogueira, Fred Arruda, Alexandre Ferrer, Sylvio Belém etc.), uma disposição ímpar dos soldados (o povão, a massa Tricolor) e por que não dizer com uma bela dose de sorte também, vencemos o cerco e empurramos os nazistas, digo, os representantes da ditadura para longe, para fora de nossa casa. Marchamos de cabeça erguida! Nos livramos do cerco! Vencemos!

Mas ainda nos resta a tarefa mais árdua, a guerra ainda não acabou. Vencemos a batalha fundamental, é bem verdade, mas ainda estamos em combate. Todos ainda militam na frente de batalha. Tricolores humildes, abastados, próximos ou distantes, que façam parte das “letrinhas” ou não. E acredito que todos têm claro em suas cabeças que é sempre mais difícil dar o primeiro passo que o segundo… e já demos dois. O primeiro: A mobilização de todos os Tricolores em torno de um desejo comum: salvar o Santa Cruz. Nos aglutinamos e deu certo. E o segundo: Tirar aquela turma de lá. Tiramos, deu certo.

Agora vêm os outros passos. Um após o outro. Vejo o Santa Cruz como um corpo que estava estendido no chão. Ergueu-se com muita luta, tentando manter-se de pé. Após isso é a hora de fincar bem os dois pés no chão, tal qual um bebê que alcança o sublime ato de ser pôr de pé e caminhar pela primeira vez. Apenas dois passos ainda, mas passos gigantescos. E para a frente, que é o que importa.

E que a caminhada seja agora em passos cada vez mais largos em direção ao futuro. É hora de trabalhar duro, arregaçar as mangas e reconstruir tudo o que foi arrasado por 21 anos de uma ditadura obscura, irresponsável, inconseqüente e, sobretudo incompetente. É hora do resgate, é hora do renascimento total, como a Fênix que se agiganta a cada retorno das cinzas. E que a máxima de um torcedor anônimo, um legítimo Tricolor, se faça cumprir: “Santa Cruz, tu és do Povo e ao Povo tornarás”.

E agora, pelo menos uma vez por mês, estarei no Arrudão só para acompanhar minha paixão maior de perto: o Time do Povo. Ah, que orgulho de ser Tricolor…

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