Blog do Santinha

Crônicas, opiniões, desabafos e comemorações sobre o Santa Cruz Futebol Clube, o Santinha, e a torcida coral.
Arquivo de 15 de janeiro de 2007

Paixão e solidão nas arquibancadas do Arruda

Por Samarone Lima, do Blog do Santinha

Era metade do primeiro tempo, o Santa já tinha furado o primeiro gol no escrete do Belo Jardim e tudo estava bem. Como sempre, eu assistia a partida escorado na muretinha, junto ao fosso, o único lugar do Arruda em que você pode chamar o bandeirinha de “fela da puta”, sabendo que ele vai escutar. Ao meu lado, João Valadares, que já tinha tomado umas garapas e soltava gritos lancinantes contra o bandeirinha. Todo bandeirinha, para mim, já se torna um mau-caráter só pelo fato de entrar em campo. Bem, mas isso é para outra crônica. Bebericávamos uma Skol, novidade no Arruda. Não somos mais obrigados a engolir a Nova Schin.

Daqui a pouco chega um senhor gordinho, na faixa dos cinqüenta e poucos anos.

“Está de quanto?”, perguntou.

“Um a zero”.

Ele pegou a vaga ao meu lado e ficou. Eu nem imaginava que esta pergunta seria repetida várias vezes, ao longo do jogo. Lá pelas tantas, ele viu meu copo de cerveja e não resistiu.

“Um gole”, disse.

Estendi o copo e olhei para trás, para ver como estava a mobilização da Sanfona Coral. O camarada ao lado virou o copo quase inteiro, num desespero.

“Ei, rapaz, era só um gole”, reclamei.

Ele deixou só um dedo de cerveja.

Então olhei para o camarada. Ele tinha os olhos perdidos e a voz pastosa. Fumava um cigarro e a mão tremia muito. Pensei comigo “esse cara não está bem”, mas nas arquibancadas do Arruda, dependendo do contexto, muita gente não fica bem. Perguntei seu nome. Roberto.

“Como é o nome completo?”.

“Não sei”.

João completou meu copo e dei mais um gole de cerveja. Ele bebeu novamente, com sofreguidão. João me cutucou. "Esta é a matéria do jogo".

Do nada, surgiu uma senhora muito séria e rígida, com os dizeres “orgulho de ser tricolor”, e afastou o copo do meu amigo.

“Ele não pode beber. Toma remédio controlado".

Para o Roberto, foi pior que um gol contra do Santa.

Comecei a conversar com a senhora. O Roberto está internado em uma clínica na Encruzilhada. Ela mora ao lado. Me contou que nos dias de jogo do Santa, ele fica muito agitado, acompanhando tudo pelo radinho. Já acorda pensando no Santa. Coloca a única camisa do Mais Querido e fica andando, de um lado para o outro, com o radinho no pé da orelha. Um irmão manda um táxi, para levá-lo ao Arruda. Ela não sabe o nome do irmão, nem o nome completo do Roberto.

“Ele vem, assiste o jogo, depois volta para a clínica e eu volto para casa”, disse a mulher, uma criatura dotada de um senso prático inacreditável.

Ela está ali para cumprir uma missão, e cumpre. Ivanete Maria Silva, o nome da fera. “Quando eu não posso, vem meu filho”. Perguntei se ele vinha a todos os jogos.

“Ele só vem quando o Santa ganha”.

Eu estava ao lado de um predestinado e não sabia.

Olhei o meu amigo nos olhos, ele me parecia um homem preso dentro de si mesmo. Muitas vezes, senti que ele queria dizer algo, mas não conseguia. Em alguns momentos, parecia um pedido de socorro.

Perguntei o que ele fazia antes de ir para a clínica.

“Ele não é nada não, é aposentado”.

A resposta doeu.

Aproveitei alguns deslizes dela e passei uns golinhos de cerveja para o Roberto sem sobrenome. Ele bebia do mesmo jeito, com sofreguidão.

No segundo tempo, eles saíram, acho que ele foi ao banheiro. Quando voltou, ficou em outro lugar. Acho que dona Ivanete não curtiu muito as novas amizades do Roberto.

Então reparei nele. Estava com uma bermuda, a cueca aparecendo um pouco, e o número quatro bem grande, às costas. Número de zagueiro. Tentei imaginar uma vida para aquele camarada, para chegar àquele ponto. Onde viveu, o que fez, onde anda esse irmão, se tem filhos.

Fiquei com aquela imagem. A de um homem apaixonado por seu clube, que não consegue falar sequer o nome completo, preso e entorpecido. Seus olhos pediam socorro. Havia muita tristeza naquele tricolor, talvez o mais solitário da tarde de domingo.

Veio o pênalti e o segundo gol. Olhei para o Roberto, ele estava rindo como um menino.

Talvez, o único sorriso possível daquele homem com jeito de menino, confinado em sua imensa solidão.

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