Blog do Santinha

Crônicas, opiniões, desabafos e comemorações sobre o Santa Cruz Futebol Clube, o Santinha, e a torcida coral.
Arquivo de 21 de janeiro de 2007

Louco pelo Santa em Chetumal

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por Felipe Pimentel, biólogo, direto da Cidade do México

Atualmente moro no México, na cidade do México, onde estou fazendo um meu doutorado em ecologia. Mas como muitos ecólogos, coleto meu dados no campo, especificamente na floresta, no meio do mato mesmo, para onde viajo regularmente. Meu sítio de estudo fica no extremo sul do México, fronteira com Belize, entre ruínas Maias e lagos subterrâneos, num povoado a uns 50 km da cidade mais próxima, Chetumal, que tem uns 50.000 habitantes, um "pueblito".

Eis então que me encontro aí, há poucos dias de decisão da segundona de 2005, coletando sementes e plantas, com uma imensidão de trabalho por fazer e pouco tempo para terminá-lo. Chega o glorioso dia e não me aguentei, larguei o trabalho, peguei uma caminhonete velha emprestada por um amigo e fui embora rumo a Chetumal, os velhos 50 km de distância que me separam da civilização industrial e que se percorre em relativamente pouco tempo por uma estrada razoável.

A maldita caminhonete, porém, tinha um defeito grave, a tração 4×4 às vezes se destrambelhava e causava muita fricção nas rodas dianteiras ao acelerar a mais de 50 km/h. Fui advertido pelo meu amigo sobre o defeito. Então fiz os cálculos, são duas horas de fuso-horário, uma hora de caminho e chegaria justo na hora do jogo. Mas fiz tudo errado, acelerei demais, por ansiedade, as rodas dianteiras esquentaram e cheguei a Chetumal com o carro fumaçando e os pneus quase derretidos.

Fui a uma internet, paguei antecipado três horas de uso do computador, me conectei à Rádio Jornal e comecei a escutar a transmissão: foi aquele sufoco, 1×0 para a Portuguesa e eu soltei um "puta-que-pariu" bem sonoro na loja. Mas ninguém entendeu mesmo. Aqueles que já foram num lugar desses, onde alugam computadores para navegação em rede, sabem mais ou menos como é o ambiente: cabines isoladas, um montão de autistas vendo quem sabe quanta porcaria na rede, e nesse dia um louco pelo Santa gritando impropérios.

 Mas veio o gol de empate, o da virada e eu gritava mais…"gooooooollllll! O Santa ganhou, pooooorrrrraaaa!" Saí da loja, tinha ainda meia hora de internet, a "muchacha" que atendia me olhou sorrindo: "Esqueceu seu troco senhor…"
Respondi: "fique com ele". Então ela me perguntou:  "¿su equipo ganó?" Eu lhe disse: "Siiiiiiimmmm!!" Ela não entendeu meus puta-que-pariu, mas sim, sabia muito bem o que era Gooooollll. Ela via na minha cara a felicidade estampada, via no meu corpo o manto sagrado tricolor, via uma pessoa feliz.

Saí diretamente ao bar, comprei umas cervejas e as abri ali mesmo na rua (nota: é proibido beber na rua aqui no México) e fui em direção ao carro. Um dos pneus havia realmente se derretido, troquei-o. Fui pra casa de um amigo na cidade mesmo, ele estava viajando, eu estava só. Sem nenhum tricolor ao alcance para compartilhar minha alegria, mas eu tinha um consolo. Minha mulher estava na Cidade do México, é rubro-negra (ninguém é perfeito), liguei pra ela, eu tinha que falar, que gritar, nem que fosse pra tirar onda com uma rubro-negra. Nessa noite, tomei algumas cervas, aí sozinho, com um sorriso que não saia da minha cara. Numa cidade estranha, no terraço de uma casa alheia, eu olhava a tranqüilidade da rua à noite, os cachorros vagando, um carro que passava… e vislumbrava as ruas de Recife cheias de tricolores, cheias de festa, cheias da poesia resultante da alegria de ser torcedor, eu escutava a Sanfona Coral dentro da minha cabeça… Estava em Recife.

Pouco tempo depois comprei uma moto pra trabalhar, era melhor que a caminhonete emprestada que me deu mais prejuízo que serventia. Quando fui à agência comprar a moto…EUREKA! Parecia um sinal de Deus, aquela moto tricolor, do jeito que eu queria, própria para o trabalho de campo. "Essa é a última dessa cor, cavalheiro" - disse a moça da agência. Agora é minha. Ela, o Blog do Santinha e meu filho são minhas únicas companhias tricolores nesses confins.

Agora é com a moto tricolor que vou à cidade escutar os jogos por internet quando estou no campo.

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