Terapia tricolor

Há duas semanas, recebi um convite do pessoal do Blog do Santinha para, vez por outra, escrever um texto e deixar aqui minhas impressões ou opiniões sobre o Mais Querido e sua torcida. Embora eles mesmos não saibam, o nascedouro deste convite remonta o dia da eleição no Arruda. Explico-me. Foi movido pelas emoções daquele dia que passei a escrever sobre o Santa Cruz, suas alegrias e tristezas.
Por coincidência, meu primeiro contato com o pessoal do blog também surgiu ali. Fui um dos 17 tricolores que pediu emprestada a caneta de Samarone, para acompanhar a apuração das urnas. Como tantos outros torcedores corais, fiquei até o fim da apuração e presenciei um dos momentos mais importantes da história do clube, que posteriomente transformei em vídeo. No dia seguinte, acordei entorpecido de esperanças e, tamanha era a minha vontade de falar sobre o assunto, que escrevi um texto sobre as eleições e enviei para o blog. O texto não foi publicado. Aliás, nem mesmo foram publicados os textos dos próprios editores do blog, pois a catarse daquela eleição associada a muita cerveja deve ter deixado todo mundo de ressaca. Mas a vontade persistia e acabei criando o meu próprio blog, o Torcedor Coral. Logo vieram as primeiras dificuldades, pois não entendia absolutamente nada de edição de imagens e vídeos e menos ainda de html e php. Ainda assim, toquei a idéia para frente.
Meu segundo contato com o pessoal do Blog do Santinha foi com Inácio França, no dia da posse. Já com câmera em punho, fui fazer a cobertura da solenidade para o Torcedor Coral. Reconheci Inácio pelas fotos aqui publicadas e fui pedir algumas dicas. Inácio, bastante solícito, não só me auxiliou, como também enviou um e-mail para Anízio Silva e Cláudio Machado, que também me estenderam a mão. A partir daí, o Torcedor Coral começou a pegar corpo, mesmo ainda estando longe do formato ideal.
Com o tempo, os contatos e as ligações foram se estreitando e culminaram com o convite de Cláudio. Mais que uma retribuição, o que me move é um grande prazer pessoal em atender ao convite, pois, além de leitor assíduo, sou fã daqueles que fazem o Blog do Santinha.
Mas como em toda estréia, bate um nervosismo natural. Mas esta é uma sensação gostosa. Pena mesmo é que a minha primeira participação no blog se dê em um momento difícil do clube, tanto pelo fraco desempenho do time no início do campeonato pernambucano, quanto pela delicada situação financeira.
Entretanto, dentre todas as dificuldades, neste começo de reconstrução do Santa Cruz, existe uma maior e se aloja no seio da torcida. Trata-se do apoio do torcedor à nova diretoria que pode balançar, por causa dos malogros iniciais.
A hora da verdade, ao que aparenta, veio mais cedo. É fácil apoiar um time cheio de craques e vitórias. Espero ver o mesmo apoio nos momentos difíceis, como o que passamos agora, dentro e fora das quatro linhas. Fred Arruda, Vice-Presidente do Executivo, em entrevista ao blog Torcedor Coral, já dizia: “o sucesso do clube depende da torcida”.
Até entendo o torcedor, afinal, sou um deles e, como tal, odeio perder. E tanto faz se o Santa Cruz está disputando uma partida de porrinha ou futebol de preguinho. Sei que o campeonato pernambucano mal começou e o Santa já está a cinco pontos do líder. E não é para menos, o goleiro vai mal, a defesa vai mal, o meio-campo vai mal e o ataque, não fica atrás. O torcedor é emoção. Chavão batido, mas verdadeiro. Mas é hora de deixar a emoção um pouco de lado e agir com bom senso. Por mais que eu sofra com os resultados em campo, não esqueço que o time foi reconstruído, que não há entrosamento, nem preparo físico. Daqui para frente, tudo irá depender da evolução do time.
Evolução. Essa é a palavra chave. Pois se o time precisa evoluir em campo, a torcida precisa evoluir fora dele. Foi-se o tempo em que o torcedor coral apenas cobrava. Nosso papel mudou nas eleições e é preciso compreender isso. Fizemos uma escolha. Optamos por uma mudança na força do voto e através dela, recuperamos a dignidade de ser tricolor. Esta mudança não terminou na eleição. Muito pelo contrário, ela, de fato, apenas começou. E como toda mudança, é preciso dar tempo ao tempo. Chavão batido, mas verdadeiro.
Entendo o sentimento da torcida, pois como disse, sou torcedor também. Porém, eis que há um porém, a minha esperança em um novo Santa Cruz não permite que eu me deixe contaminar por esses reveses. Ainda me assombram as figuras de Romerito Jatobá e do abominável homem Zé Neves. Dentro e fora de campo ainda há tormentas. Precisamos ser pacientes e aguardar que as ações da diretoria coral avancem também para o gramado.
Por isso, para quem ainda não percebeu o significado do momento atual, deixo o meu recado: a hora é de plantar, não de colher. Não se colhe antes de plantar, se planta primeiro. Vale sempre a pena lembrar onde estava o Santa Cruz antes da posse de Edinho. Não se sai de um buraco daquele tamanho do dia para a noite, como num passe de mágica.
Ao torcedor mais ansioso, recomendo terapia. Não me levem a mal, pois não estou sendo sarcástico. Vá lá e desabafe, solte os bichos e esculhambe todo mundo. Mas ao sair do consultório, continue com sua mensalidade de sócio em dia e mantenha a calma, pois não se perde o jogo no início do primeiro tempo. Continue firme, mesmo com o placar adverso, para que você não perca o melhor do jogo.
74 comentáriosLouco pelo Santa na cozinha do hotel
mercado da Boa Vista
por Rodrigo Falcão, administrador de empresas e especialista em gestão de Logística
Estava em São Caetano, no ABC paulista, participando de uma reunião do trabalho justamente no dia do jogo Santa x Grêmio, em Recife, o único jogo em que vencemos os gaúchos na série B de 2005 (gol de Xavier). Como não podia deixar de ser, decidi que eu tinha de arrumar um jeito de assistir ao jogo do Santinha, mas pela correria do trabalho só tive condições de chegar no hotel no final do primeiro tempo.
Corri para a TV e me deparei com o inesperado: a porra do jogo era no "pague pra ver" e o canal Sportv2 não estava disponível (um funcionário tinha me informado errado sobre a disponibilidade na partida no hotel). No desespero daquele momento, liguei para a recepção do hotel e procurei saber se havia algum bar ou similar que televisionasse jogo da série B, mas eles não souberam informar. Neste momento lembrei de ligar para um taxista conhecido de São Paulo.
Foi justamente aí que começou minha grande loucura daquele dia: liguei e pedi que ele viesse me buscar em São Caetano para me levar para algum lugar/bar de São Paulo onde estivessem televisionando a partida. Ele prontamente me disse: “Tú é doido cara? já acabou o primeiro tempo, vais gastar uma nota preta pra assistir nem 30 minutos de jogo?” E eu respondi também de pronto: “Vou sim!”
Não sei como ele fez, mas chegou tão rápido que deve ter ultrapassado todos os sinais vermelhos da Avenida. Paulista e das ruas do trajeto até o hotel no ABC. Lembro que partimos em direção de dois bares mas nenhum estava televisionando a série B. Os garçons ainda ficaram foi tirando onda comigo: “Série B? Santa Cruz? Não amigo, aqui só passa série A, Parmera, Curintia, Bambies…”
Quando achava que tudo estava perdido, do nada o meu amigo Gilmar ligou de seu celular pra o hotel Transamérica, um cinco estrelas onde trabalhava no período da noite e perguntou ao cozinheiro se estava passando na TV do hotel e a resposta foi sim. “Gilmar, porra, me leva pra cozinha do hotel, se lá tem TV e está passando o jogo do Santinha eu vou, quero nem saber!”
Tive que entrar escondido na cozinha do hotel, com a ajuda do meu amigo taxista e do recepcionista pra poder assistir minguados 20 minutos de jogo. O Santinha já ganhava o jogo, mas tive o prazer de ver o mundão lotado e fazendo a festa ao vivo e a cores, finalmente! Ainda consegui fazer alguns simpatizantes do Santinha, pois praticamente paralisei os trabalhos da cozinha devido a festa que fiz logo quando cheguei. O barulho acabou chamando a atenção dos funcionários e todos queriam ver que danado de time é esse que me proporcionava tanta alegria.
Agradeço muito ao amigo Gilmar, pois se não fosse ele eu não teria conseguido ver meu querido Santinha naquela noite fria de Sampa.
O resultado financeiro deste dia foi uma conta de R$ 130,00 de táxi, pois é, R$ 130,00 pra assistir a apenas 20 minutos de jogo… e olha que o motorista amenizou bastante a situação pra mim.
O Gilmar ficou tão impressionado com meu amor pelo Santinha, que uma hora depois do jogo contra a Portuguesa, na final da série B, ele me ligou feliz da vida da referida cozinha do hotel paulistano para me parabenizar pela volta à Primeira Divisão, me dizendo: "Tá vendo Rodrigão, seu esforço naquele dia foi recompensado, hein? Eu vi o jogo aqui na cozinha e quase todos os funcionários torceram pelo teu Santinha!"
Pois é… pena que aquela imensa alegria virou pó poucos meses depois.
Santa Sempre! Onde eu estiver!
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