Blog do Santinha

Crônicas, opiniões, desabafos e comemorações sobre o Santa Cruz Futebol Clube, o Santinha, e a torcida coral.
Arquivo de 27 de janeiro de 2007

O velho e bom "clássico do domingo"

Foto/Arte: Anizio Silva

Por Samarone Lima, da equipe do Blog do Santinha

Amigos corais, vamos ao fato principal deste começo de ano: o clássico do domingo. Mais que isso: o Santa tem a obrigação de vencer. Eu adoro quando o Santinha entra em campo mordido, zangado, já com a obrigação de fazer gols. A barbie que se cuide.

Sim, amigos, domingão de sol e de clássico. Não aqueles jogos contra os times do interior, mas a velha rivalidade em campo.

O camarada acorda no domingo e a primeira coisa que vem à cabeça é somente o jogo, “a mais tarde”, como o povão gosta de dizer.

O sujeito levanta animadíssimo, dá um pulo da cama, mais parecendo um tigre, acha o banheiro lindo, toma banho cantando, lembra de escovar os dentes, e mesmo casado há 23 anos com a mesma senhora, já meio sambadona pelo tempo, descobre subitamente que a esposa é linda.

Vai na sala, está lá, por debaixo da porta, o jornal do domingo. O sujeito pula todas as partes. Deixa de lado os crimes hediondos, as novidades do Lula ou de Dudu, a briga pela presidência da Câmara e do Senado e vai à notícia mais importante do dia: hoje tem clássico no Arruda.

É imprescindível fazer uma boa cera. Nada de precipitações. O domingo de clássico tem seu próprio ritmo, uma série de rituais. Primeiro, é preciso fazer os demais familiares acreditarem que você não está pensando somente naquilo, que sua obsessão existencial é chegar ao Arruda. Ficar por ali, perambulando. Por sorte, não há casamento, batizado, aniversário, ninguém adoeceu no sábado, você não precisa ir pegar nenhum parente no aeroporto à tarde. É preciso somente “fazer o meio de campo”, como diz um velho amigo. Tomar café, falar umas evasivas, ligar a TV descompromissadamente. Se tiver passarinhos, olhar os passarinhos. Ter vontade de soltá-los.

Lá pelo meio-dia, o bicho tricolor que tem dentro da pessoa desperta de chofre. O indivíduo é sacolejado pelo coralismus crônicus. Fim da tapeação. É a hora de agir, de admitir o apego incondicional ao Mais Querido. O fardamento completo, preparado e fiscalizado desde o dia anterior. A camisa que deu sorte no último clássico. A cueca daquele mesmo clássico, muito embora já rasgada. O radinho.

Depois, a cerimônia dos telefonemas:

“Onde tu estás, bicho?”.

“Já estou a caminho”.

“Comprasse meu ingresso?”

“Já tomasse quantas?”

“É dois a zero fácil”.

Ao fechar a porta de casa e seguir para o Arruda, o mais sério dos homens vira um menino com seu time de futebol de botão, lá pelos cinco ou seis anos.

A três ou quatro quarteirões do nosso estádio, algo em definitivo já se transformou. O rumor da torcida, as bandeiras, os bares nos arredores, tudo fica misteriosamente bem. O camarada vai andando para a Colosso, vê aquele mar de tricolores, sente como uma onda de alegria se espalhar. É fundamental dar uma boa inspirada, encher os pulmões. A vida lateja neste instante. O mundo fica mais bonito.

Chega-se à Colosso, estão lá, aqueles pilantras todos, já com a mesa principal. Recomenda-se um bom galeto, antes de entrar pesado nos birinaites.

Como é dia de clássico, a Sanfona Coral dará o ar da graça, tocando fogo em tudo. Faltando uma hora para o início da partida, é preciso estar já soltando fogo pelas ventas.

Depois daquele ruge-ruge, finalmente o encontro com a multidão coral. Depois, o Santa entra em campo. É fundamental olhar para trás. Será possível ver algum torcedor muito simples vibrando de olhos fechados, ocultando as lágrimas.

“Esse é o meu Santinha”, certamente ele dirá, segurando o radinho ao pé do ouvido.

Na hora do segundo gol, este camarada será seu amigo de infância.

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