Arquivo de Março de 2007
O velho lobo do mar
Foto: Dimas Lins

Um turista tricolor no Arruda
Por Dimas Lins
Quarta-feira teve jogo do Santa e eu ia aproveitar a oportunidade para chamar meu irmão, de férias com a esposa aqui em Recife, para ir comigo. Jonas, o irmão, esteve ausente da cidade por mais de 26 anos. Aos 17, ingressou na marinha de guerra, porque achava papai durão. Acreditava que lá sua vida não seria tão dura e, anos depois, mandou avisar que tinha razão. Só mais velho pude entender que o marinheiro apenas não quis dar o braço a torcer.
Da marinha de guerra, Jonas passou para a marinha mercante onde trabalhou por toda a sua vida e girou o mundo. Nesse meio tempo, fixou residência no Rio e, seis anos atrás, mudou-se para São Paulo, quando se casou com a paulista Silvia. Sua última passagem por Recife, até então, havia sido no início da década de oitenta.
De lá para cá, muita coisa mudou. A cidade cresceu aos seus olhos e poucas são as coisas que mantém os traços originais, como a velha Rua Padre Floriano, aquela mesma do Galo da Madrugada, onde crescemos e fomos criados por entre as mais ricas formas de expressão cultural do nosso carnaval. Em visita ao velho bairro, Jonas ainda pôde ver que o antigo Beco do Veado (o nome deriva do ungulado da família dos cervídeos e não do mamífero bípede de trejeitos efeminados ou pusilânimes) mantém uma pequena escultura do animal pendurada em uma de suas esquinas, como há trinta anos. Aposentado, o velho marinheiro ainda acalenta o sonho de tornar a viver em sua terra natal, cidade que nunca esqueceu.
Quanta mudança. Tantas que o vivente até deixou de beber (abriu exceção agora nas férias). Mas algo se manteve intacto, inquebrantável: a paixão pelo Santa Cruz. Mesmo passando a maior parte de sua vida no Rio, Jonas não se deixou levar pela sedução dos clubes cariocas. Um bom exemplo para paraibanos e alagoanos. Três anos atrás (ele diz que a cronologia dos fatos remete a mais de dez anos), prometi lhe enviar uma camisa oficial do Santa Cruz. Finalmente, no final do ano passado, quando estive em São Paulo, paguei a dívida contraída, entregando-lhe a camisa coral.
Mas volto ao cerne da questão. Eu ia aproveitar a oportunidade, notem a imperfeição pretérita do verbo, para convidá-lo a ir ao jogo comigo. Acabei desistindo porque pensei como é que o cara passa 26 anos sem aparecer em Recife e eu o levo para assistir a um jogo nos Aflitos? Meio aflito com esta questão filosófica, imaginei o seguinte diálogo que me fez desistir definitivamente da idéia.
– Animado para ir ao jogo?
– Jovem, não vejo a hora – esse negócio de chamar os outros de jovem deve vir da convivência nefasta com cariocas.
– Beleza.
– O Santa vai jogar contra quem?
– Contra o Central de Caruaru, lembra?
– Lembro, vai ser mole.
– Mais ou menos…
– Como assim “mais ou menos”?
– Sabe como é, né? O Santa anda derrapando no campeonato…
– Mas é o Central!
– Pois é… mesmo assim é bom não cantar vitória antes do tempo.
– Tá bom. Mas tô doido mesmo é para ir ao Arruda.
– Mas o jogo não vai ser lá.
– Vai ser onde?!
– Nos Aflitos.
– Mas esse não é o estádio do Náutico?
– Estádio não, olha o respeito! Casa da barbie!
– E por que o Santa vai jogar lá?
– Por causa de um rubro-negro que dirige a Federação Pernambucana de Futebol.
– Espera aí, o jogo contra o Central não vai ser mole, nós vamos jogar na casa da, como é mesmo, barbie e por causa de um rubro-negro?
Percebendo que o sujeito poderia perder o chão, decidi levá-lo ao Arruda, verdadeiro templo do futebol, mesmo vazio, mesmo sem jogo. Levei-o no dia seguinte ao empate com o Central. Duas horas de atraso (como membro da família, Jonas sabe que não temos raízes britânicas), seguimos Murilo (outro irmão), ele e eu ao Mundão. Levá-lo ao Arruda teria a função de trazer um pouco mais daquela sensação familiar, esquecida pelos longos anos ausentes. Era mais uma razão para lembrar ao irmão tricolor que ele realmente estava em casa.
A entrada pelas sociais trouxe de volta lembranças adormecidas. Naquela altura, o treino mal terminara, mas todos os jogadores, reservas evidentemente, ainda estavam em campo. Ao longe, Charles Muniz dava entrevistas, provavelmente tentando explicar mais um fracasso do time, enquanto o velho marinheiro tricolor tirava fotos do estádio, como um turista encantado com a grandeza do Mundão. Lembrava da última vez que estivera ali, nos idos de 1982, e apontava as partes da arquibancada que ainda não estavam construídas.
O resto do dia seguiu-se no Aroeira, onde tomamos umas cervejas e relembramos velhos tempos do Mais Querido. Jonas está de partida na madrugada do próximo domingo e não poderá assistir ao próximo jogo do Santa. Mesmo assim, levará na bagagem o orgulho renovado de ser tricolor.
Ainda guardamos a esperança, quem sabe em uma tarde serena e um vento soprando a favor, que qualquer dia desses um navio de bandeira coral atraque no porto trazendo de vez o velho lobo do mar para junto da família e para as sociais do Mundão do Arruda, desta vez nos dias de jogos.
22 comentáriosVinte anos de paixão
Por Samarone Lima
Cheguei ao Recife em 1987, vindo de Fortaleza, depois de ter vivido em várias cidades, dezenas de casas e destinos incertos. Meu pai, funcionário do Banco do Brasil, se mudava com rara facilidade, e era difícil se apegar à primeira casa que encontrávamos. Uma vida meio cigana, naquele Brasil do "Milagre" dos anos 70.
Graças a essas aventuras, assisti jogos inusitados, como o de um Sampaio Correia versus algum outro time que não lembro o nome, na distante Imperatriz. Ex-jogador de futebol de salão (outro dia encontrei uma pasta somente com os recortes falando dele), meu pai era um aficcionado torcedor do Fluminense, que tinha um Samarone naquele distante 1969. Graças a Deus, meu pai não me batizou de Cafuringa.
Durante muitos anos, julguei que gostava de algum clube. Em 1987, cheguei ao Recife com uma caixa de livros, umas roupas e muitos sonhos. Vim morar sozinho, arriscando tudo. E logo nas primeiras semanas, um dos funcionários da loja de vidros me falou, com os olhos brilhando:
"Você precisa ver o Santa Cruz no Arrudão".
Ele estufava o peito. Almoçávamos ali em Casa Amarela, no mercado mesmo, onde a massa coral se espalha. A Zona Norte é coalhada de tricolores.
Lembro a primeira vez que fui ao Arruda, e tudo aquilo parecia mesmo destinado a mim. Finalmente, eu estava em casa. Meu pai tinha o clube dele, meu irmão tinha o seu, e tive que seguir minha migração, até encontrar o Santa.
Somente aos 18 anos, descobri onde estava o meu povo, a minha gente, o meu canto, o meu clube. Havia lirismo no Arruda, um poesia naqueles senhores velhos que gritavam "vamos, Santinha". Era a minha casa, na vitória ou na derrota, na alegria ou na tristeza.
Outro dia, descobri que estou completando vinte anos de Santa Cruz. Tenho uma inveja irreversível desses meninos que já nascem e ganham o manto coral, que entram como mascotes junto com o time, ou que simplesmente vão ao estádio ver um jogo do Santa com o pai. Eles não perderam tempo como eu.
Durante 18 anos, estive por aí, zanzando, errando, como um bêbado que vai de bar em bar, buscando aquele seu boteco, onde se sente em casa.
Um dia, em julho de 1987, esbarrei no Arruda, ao lado do velho Almir, e na hora do primeiro gol do Santa, já éramos irmãos.
O Santa, meu boteco, minha cerveja, meu reduto, minha alegria.
Vamos lá, Santinha, levantar a poeira, e dar a volta por cima…
92 comentáriosPapo de tricolor no táxi
Por Gerrá Lima, zabumbeiro da Sanfona Coral
Ontem, deixei o carro na oficina para a famosa revisão, na qual o cara troca um monte de peça, e você nunca sabe se era pra trocar ou não. E quando a gente vai buscar o veículo, o mecânico diz: “Olha aí dotô, tudo o que foi trocado”. Nesse momento a gente pensa: “E daí, o que porra eu vou fazer com isto?”.
Mas voltando ao assunto, peguei um táxi e a primeira coisa que vejo é um escudo desbotado do amarelo-rubro-negro no tabelier do veículo. “Puta que pariu, é hoje”, falei calado. O motorista era um sujeito moreno, barba modelo Sama, aparentando umas 43 primaveras. Pois bem, fiquei na minha, esperando a conversa começar, porque taxista que não conversa não é motorista de táxi.
Uma vez, um deles afirmou com toda convicção, que aquele assassinato das meninas lá em Serrambi, tinha sido cometido pelo pai de uma delas. Segundo o motorista, o pai tinha um caso com a amiga da filha e a filha descobriu, aí ele matou as duas, “queima de arquivo, né dotô? (num sei porque tem gente que acha que sou médico). “Rapaz!? Será?”, falei. “Foooi, tenho certeza”. “É, acho que foi mesmo” me convenci.
Pois sim, em poucos instantes o silêncio é quebrado dentro do táxi.
O barbudo começa: “Quer ouvir um sonzinho?”
Eu: “Bota aí…” - falei invocado, como diz Chiló.
Motorista: “O senhor tem cara de quem gosta de um brega!”
Eu: “Agora fudeu”, pensei. “Mais ou menos, gosto mais de forró, mas fique à vontade”.
Motorista: “Oxen, tenho aqui também, esse tal de mp3 é arretado né? é música até umas horas. O senhor gosta de pé-de-serra ou forró de putaria mesmo?”
Pro burro-negro não me chamar de tabacudo, respondi: “Rapaz gosto de tudo, mas coloca pé-de-serra.”
E o sujeito, para minha surpresa, bota Maciel Melo.
Motorista: “Esse cara é um poeta, conhece?”
Motorista: “É bom, né não? Aquela caboco sonhador é uma poesia.”
Aí aproveitei a deixa pra tira minha onda: “E então. Melhor ainda porque ele é tricolor”.
De novo pra minha surpresa, o barbudo vem com essa: “Eita, agora é que eu gosto mesmo. me disseram que Nando Cordel é também do Santa Cruz.”
Eu: “é sim. Capiba também é, Chico Science, Véio Mangaba, Edy Carlos, André Rios, Chacrinha, Luiz Gonzaga, Lampião era também…” , aproveitei e saí dizendo o nome de meio mundo de gente.
O camarada endoidou: “Danou-se, esse povo todo. E aquele Romero Lacerda ainda vem dizer que a torcida do finado burro-negro é maior.” (foi Romero mesmo que ele falou).
Eu: “É conversa dele. Ei, mas me diz uma coisa, tu torce pelo Santa Cruz?”
Motorista: “Claro. Desde menino. Nasci e me criei em Água Fria, hoje moro em Dois Unidos.”
Eu, já mais à vontade: “E esse escudo nojento aí?”
Motorista: “É do dono do carro. Não é por nada não, mas boto pra f* nesse carro, e todo dia de manhã, dou uma dedada pra esse leão frango. Sou p* com aquela turma. Se eu pudesse nem na Abdias eu passava. Mas tenho que garantira a bolacha dos meninos, né?”.
Eu: “Pensei que você era torcedor da coisa!”
Motorista: “Todo mundo pensa, por causa dessa porra desse escudo. Olhe, eu fico arretado quando entra torcedor do finado aqui no táxi e vem dizendo: bora rubro-negro!!! A vontade que dá é de mandar o cara tomar no c*”
Motorista: “Raiva?!, eu tenho é ódio, meu amigo. Outro dia, peguei uma corrida já no fim da tarde, e o camarada já entrou dizendo, pelo finado tudo. Eu tava muito arretado nesse dia, e respondi: "Ah é, então deixa eu botar a minha cobrinha no teu gramado!”
Motorista: “Oxem, ele mandou eu parar e desceu! Fiquei muito p*. Cheguei em casa botando fogo pela venta de raiva. Tive que tomar uma cerveja pra relaxar. Minha mulher diz que isto é revolta minha porque não tenho carro, e que eu devia procurar um psicólogo pra fazer fisioterapia (sic). Pode até ser revolta mesmo, mas não gosto daquela raça e pronto.”
Nesse momento, meu passeio tava acabando, pois, já estava chegando perto de casa. Perguntei: "E da barbie, tem raiva também?"
Motorista: “Nada, deles eu tenho pena. Aquilo é time de moça. Domingo a gente ganha de novo.”
Eu: “E então.Vira na próxima à direita. Pronto, nesse prédio aí.”
Paguei o serviço e pedi para ele esperar um pouco. Peguei uma camisa da Sanfona Coral, dei pra ele e disse: “Essa é pra você usar quando tiver trabalhando”.
O sorriso dele veio no canto da boca. “Eita, obrigado. Eu era doido por uma camisa dessa. Como é mesmo seu nome?”
- Geraldo, mas pode me chamar de Gerrá. E o teu?
- Adeilton, mas pode me chamar de Déo.
Déo foi indo embora, dando a famosa buzinadinha: tri, tri-co-lor, tri-tri-tri-tri tri-co-lor”
Nota da redação: o fato narrado por Gerrá ocorreu no dia 19/03; portanto, antes da fatídica partida de domingo. E continuamos aceitando contribuições, entre em contato pelo email blogdosantinha@gmail.com
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