Genival: entre a vida e o futebol
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Há boatos de que seja Genival e sua vestimenta tradicional de
Carnaval (foto divulgada pelo tricolor Paulo Aguiar).
(Artigo publicado originalmente no Blog dos Perrusi e no Blog de Juca Kfouri, e reproduzido aqui com autorização do autor)
Por Artur Perrusi Filho
Genival é um tricolor. Herança do pai… quer dizer, na verdade, herança da mãe, já que seu pai se mandou de casa, logo após seu nascimento. Nada de mágoas, pois a vida acontece, depois a gente esquece. É assim mesmo.
Trabalha num comércio lá pelos lados de Prazeres. Demora duas horas para chegar ao trabalho - antes, ia de bicicleta e demorava uma hora e meia; porém, quase morre atropelado e desistiu do transporte ecológico. Muitas vezes, chega um pouco atrasado, mas o dono nem liga. O cabra gosta de Genival.
É um rapaz responsável. Não era assim. Ficou após o bucho de Lucineide, sua mulher. A responsabilidade caiu feito um raio. Depois disso, Genival optou por uma vida séria. Tão séria que, quando do casamento, abandonou a Inferno Coral, torcida organizada do Santinha. Tinha que trabalhar. Tinha que ganhar dinheiro. Tinha que viver.
Se Genival, em prol da seriedade, abandonou muitas coisas, não largou, contudo, sua paixão pelo Santinha. E olhe que ele é da geração que começou a tomar gosto pelo futebol na década de 90. E a década de 90 foi um desastre para o Santa Cruz. Mesmo assim, insistiu na paixão, pois todo sentimento que teve sua cota de amargura passa a ser eterno. Confunde inconscientemente paixão com sofrimento. Sem dúvida, o clube do Santo Nome mexeu nas profundezas de sua alma.
E paixão é com Genival. Há Lucineide, há Maria, o Santinha, a cervejinha e o carnaval. O futebol junta tudo isso: leva Lucineide e a pequena Maria ao estádio, toma várias cervejinhas e toda partida é um pequeno carnaval. É um bom lazer pra quem vive curto de grana.
Mas tem uma coisa que detesta: os horários das partidas. Ou matam a gente de calor, ou o jogo é tarde da noite. A Globo inventou o futebol da madrugada! Ora, Genival é um jovem responsável: tem emprego, tem mulher, tem filha. Mas quer ir ao jogo. Lucineide acha um exagero. Parece que está grávida e deseja que seu marido chegue cedo em casa.
Se, para chegar ao trabalho, são duas horas de viagem, para chegar ao Arruda, são duas horas e meia, dois ônibus lotados e muito desconforto. Genival vai sair do estádio antes da meia-noite; correr e procurar um ônibus; torcer para que, na próxima parada, ainda passe outro; andar 20 minutos até sua casa e chegar por volta das duas da matina. Dormirá apenas três horas, porque tem que chegar cedo ao trabalho. Mesmo assim, Genival quer assisitir ao jogo. Racionaliza e acha que todo aquele esforço faz parte da vida. E a vida a gente esquece.
Vai ao jogo.
E viu um jogo horrível. Eita fase desgraçada essa do Santinha. Genival cansou a garganta de tanto pedir raça ao time. Foi quando o juiz expulsou um do Santa. Roubo claro e cristalino.
_Juiz da Coisa! Gritou Genival.
A expulsão acabou com o jogo.
_Eita misera! Chama a poliça!
Jogo desgraçado. O que vai ser do Santinha?
Apito final, Genival sai correndo do estádio. Os ônibus estão lotados. São verdadeiras latas de sardinha. Consegue entrar e vira uma pasta comprimida. Outra parada e, infelizmente, o último ônibus já saiu. Por sorte, passa uma van. É a salvação, pensa. Porém, ela o deixa bem longe de casa. Quase 45 minutos de caminhada.
A noite está escura. Nuvens encobrem o céu de Recife. O bairro onde mora Genival, como todo bairro de periferia, é perigoso, mais ainda de madrugada. Pernambuco é o estado mais violento da federação, segundo a última pesquisa.
Genival está cansado - louco pra chegar e dormir. Já está meio arrenpendido de ter ido ao jogo. A vida, algumas vezes, a gente não esquece. Caminha por uma rua deserta e sombria. Não é asfaltada, só tem buraco e as calçadas, quando existem, são crateras.
De repente, aparece um vulto. É um rapaz apontando uma arma. É outro Genival da vida. São semelhantes em tudo, menos nos caminhos que escolheram. Não sabem, mas já se cruzaram na Inferno Coral. Têm algo em comum, a mesma paixão.
O rapaz está nitidamente nervoso. Genival, também. Faz um movimento, gesticula. O rapaz interpreta como uma reação e, quase sem querer, atira.
E sai correndo. Genival só queria dizer que só tinha dois reais na carteira. Ele sangra. O tiro atingiu o baço. Grita por socorro. Tenta bater nas portas das casas. E nada. Quase desmaiado, bate na porta de um casebre. É socorrido por uma dona com uma camisa da Coisa.
Genival foi parar num hospital. Sangrou muito, mas vai sobreviver. É tricolor, recifense, pernambucano e, antes de tudo, um brasileiro. Cagado e cuspido. Vai sobreviver. No entanto, vai ser difícil convencer, novamente, Lucineide da necessidade de respeitar os horários da Globo e assistir às partidas da Cobrinha Coral.
A culpa é de quem?!
A culpa é de ninguém. A vida é assim mesmo. O Destino de Genival já está traçado. No fundo, teve sorte. Uma hospitalização no SUS constrói o caráter.
Numa outra realidade - uma dimensão do multiverso conectada à nossa por um "buraco de minhoca" - onde existem as mesmas leis físicas, o mesmo planeta, os mesmos destinos, a mesma porcaria de vida, o tiro foi no coração.
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