Bruno rema contra a maré
O menino Bruno, nas sociais do Arruda e, em pleno gramado, vivendo a experiência mais inesquecível da infância como mascote do Santinha
por Inácio França
Bruno tem seis anos e seu pai, Gabriel Queiróz, é alvirrubro. A mãe do menino, Viviane, é adepta da coisa e vem de uma família de rubro-negros daqueles bem nervosos. Enfrentando a marcação cerrada dos parentes, e sem ligar a mínima para os resultados do time em campo, ele decidiu por conta própria: "Sou Santa Cruz".
Quando a notícia se espalhou, os tios maternos entraram em pânico. Primeiro, tentaram subornar o jovem tricolor com presentinhos nas cores vemelha e preta, incluindo camisetas e alguns brinquedos de gosto duvidoso. Depois submeteram o menino a pressão e tortura psicológica tão intensas que deixariam o envergonhado o administrador de Guantánamo. Falharam. Bruno é incorruptível e saiu ileso das mãos dos torturadores.
O pai, que não é lá um grande frequentador de estádios, foi o primeiro a resignar-se. Deve ter percebido que Bruno havia nascido com o DNA bem melhor do que o dos antepassados e é a prova definitiva da teoria da evolução das espécies.
A história do pequeno Bruno chegou aos ouvidos do diretor social do clube, Luís Alberto, o Lulinha, que reagiu empolgado: "Esse menino precisa ganhar um presente. Vai entrar de mascote junto com o time! Depois disso, vai resistir a qualquer pressão!"
Na tarde de domingo, dia da partida contra o Porto, Bruno chegou ao Arruda acompanhado do pai alvirrubro e da médica tricolor Jane Andrade dos Santos, amiga da família há vários anos. Vestia um uniforme novinho, comprado na véspera.
Jane tentava achar uma explicação para a escolha de Bruno que, mesmo sem ter quem o levasse para o Arruda, sempre demonstrou uma convicção digna de qualquer torcedor fanático: "Acho que foi um primo dele, que é um pouco mais velho, quem o inspirou".
Antes de se juntar aos outros mascotes, no portão que dá acesso aos vestiários, contou que, esse ano, finalmente sua mãe deixou que ele usasse uma camisa coral para jogar uma pelada no colégio: "Ela não deixava não. No dia que eu pude ir com a camisa do Santa, meu time da escola ganhou de 9 x 0". Depois da partida, a mãe perdeu as esperanças de convertê-lo.
No gramado, assim que o time entrou em campo, deu uma olhada para a grandiosidade do Mundão e tratou de dar várias cambalhotas no gramado. Imaginou que estava comemorando um golaço.
O empate o aborreceu, mas naquele domingo sua imaginação ganhou um novo cenário para suas fantasias e sonhos de criança.
Depois do jogo, o sorriso de Bruno e de Jane em contraste com o ar sem-graça de todo mundo nas sociais.
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Esse texto é dedicado a João Henrique e Saulo Sayão, que, há muito tempo, imploram para que o blog reencontre os caminhos do humor e do lirismo.
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