Papo de tricolor no táxi
Por Gerrá Lima, zabumbeiro da Sanfona Coral
Ontem, deixei o carro na oficina para a famosa revisão, na qual o cara troca um monte de peça, e você nunca sabe se era pra trocar ou não. E quando a gente vai buscar o veículo, o mecânico diz: “Olha aí dotô, tudo o que foi trocado”. Nesse momento a gente pensa: “E daí, o que porra eu vou fazer com isto?”.
Mas voltando ao assunto, peguei um táxi e a primeira coisa que vejo é um escudo desbotado do amarelo-rubro-negro no tabelier do veículo. “Puta que pariu, é hoje”, falei calado. O motorista era um sujeito moreno, barba modelo Sama, aparentando umas 43 primaveras. Pois bem, fiquei na minha, esperando a conversa começar, porque taxista que não conversa não é motorista de táxi.
Uma vez, um deles afirmou com toda convicção, que aquele assassinato das meninas lá em Serrambi, tinha sido cometido pelo pai de uma delas. Segundo o motorista, o pai tinha um caso com a amiga da filha e a filha descobriu, aí ele matou as duas, “queima de arquivo, né dotô? (num sei porque tem gente que acha que sou médico). “Rapaz!? Será?”, falei. “Foooi, tenho certeza”. “É, acho que foi mesmo” me convenci.
Pois sim, em poucos instantes o silêncio é quebrado dentro do táxi.
O barbudo começa: “Quer ouvir um sonzinho?”
Eu: “Bota aí…” - falei invocado, como diz Chiló.
Motorista: “O senhor tem cara de quem gosta de um brega!”
Eu: “Agora fudeu”, pensei. “Mais ou menos, gosto mais de forró, mas fique à vontade”.
Motorista: “Oxen, tenho aqui também, esse tal de mp3 é arretado né? é música até umas horas. O senhor gosta de pé-de-serra ou forró de putaria mesmo?”
Pro burro-negro não me chamar de tabacudo, respondi: “Rapaz gosto de tudo, mas coloca pé-de-serra.”
E o sujeito, para minha surpresa, bota Maciel Melo.
Motorista: “Esse cara é um poeta, conhece?”
Motorista: “É bom, né não? Aquela caboco sonhador é uma poesia.”
Aí aproveitei a deixa pra tira minha onda: “E então. Melhor ainda porque ele é tricolor”.
De novo pra minha surpresa, o barbudo vem com essa: “Eita, agora é que eu gosto mesmo. me disseram que Nando Cordel é também do Santa Cruz.”
Eu: “é sim. Capiba também é, Chico Science, Véio Mangaba, Edy Carlos, André Rios, Chacrinha, Luiz Gonzaga, Lampião era também…” , aproveitei e saí dizendo o nome de meio mundo de gente.
O camarada endoidou: “Danou-se, esse povo todo. E aquele Romero Lacerda ainda vem dizer que a torcida do finado burro-negro é maior.” (foi Romero mesmo que ele falou).
Eu: “É conversa dele. Ei, mas me diz uma coisa, tu torce pelo Santa Cruz?”
Motorista: “Claro. Desde menino. Nasci e me criei em Água Fria, hoje moro em Dois Unidos.”
Eu, já mais à vontade: “E esse escudo nojento aí?”
Motorista: “É do dono do carro. Não é por nada não, mas boto pra f* nesse carro, e todo dia de manhã, dou uma dedada pra esse leão frango. Sou p* com aquela turma. Se eu pudesse nem na Abdias eu passava. Mas tenho que garantira a bolacha dos meninos, né?”.
Eu: “Pensei que você era torcedor da coisa!”
Motorista: “Todo mundo pensa, por causa dessa porra desse escudo. Olhe, eu fico arretado quando entra torcedor do finado aqui no táxi e vem dizendo: bora rubro-negro!!! A vontade que dá é de mandar o cara tomar no c*”
Motorista: “Raiva?!, eu tenho é ódio, meu amigo. Outro dia, peguei uma corrida já no fim da tarde, e o camarada já entrou dizendo, pelo finado tudo. Eu tava muito arretado nesse dia, e respondi: "Ah é, então deixa eu botar a minha cobrinha no teu gramado!”
Motorista: “Oxem, ele mandou eu parar e desceu! Fiquei muito p*. Cheguei em casa botando fogo pela venta de raiva. Tive que tomar uma cerveja pra relaxar. Minha mulher diz que isto é revolta minha porque não tenho carro, e que eu devia procurar um psicólogo pra fazer fisioterapia (sic). Pode até ser revolta mesmo, mas não gosto daquela raça e pronto.”
Nesse momento, meu passeio tava acabando, pois, já estava chegando perto de casa. Perguntei: "E da barbie, tem raiva também?"
Motorista: “Nada, deles eu tenho pena. Aquilo é time de moça. Domingo a gente ganha de novo.”
Eu: “E então.Vira na próxima à direita. Pronto, nesse prédio aí.”
Paguei o serviço e pedi para ele esperar um pouco. Peguei uma camisa da Sanfona Coral, dei pra ele e disse: “Essa é pra você usar quando tiver trabalhando”.
O sorriso dele veio no canto da boca. “Eita, obrigado. Eu era doido por uma camisa dessa. Como é mesmo seu nome?”
- Geraldo, mas pode me chamar de Gerrá. E o teu?
- Adeilton, mas pode me chamar de Déo.
Déo foi indo embora, dando a famosa buzinadinha: tri, tri-co-lor, tri-tri-tri-tri tri-co-lor”
Nota da redação: o fato narrado por Gerrá ocorreu no dia 19/03; portanto, antes da fatídica partida de domingo. E continuamos aceitando contribuições, entre em contato pelo email blogdosantinha@gmail.com
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