Vinte anos de paixão
Por Samarone Lima
Cheguei ao Recife em 1987, vindo de Fortaleza, depois de ter vivido em várias cidades, dezenas de casas e destinos incertos. Meu pai, funcionário do Banco do Brasil, se mudava com rara facilidade, e era difícil se apegar à primeira casa que encontrávamos. Uma vida meio cigana, naquele Brasil do "Milagre" dos anos 70.
Graças a essas aventuras, assisti jogos inusitados, como o de um Sampaio Correia versus algum outro time que não lembro o nome, na distante Imperatriz. Ex-jogador de futebol de salão (outro dia encontrei uma pasta somente com os recortes falando dele), meu pai era um aficcionado torcedor do Fluminense, que tinha um Samarone naquele distante 1969. Graças a Deus, meu pai não me batizou de Cafuringa.
Durante muitos anos, julguei que gostava de algum clube. Em 1987, cheguei ao Recife com uma caixa de livros, umas roupas e muitos sonhos. Vim morar sozinho, arriscando tudo. E logo nas primeiras semanas, um dos funcionários da loja de vidros me falou, com os olhos brilhando:
"Você precisa ver o Santa Cruz no Arrudão".
Ele estufava o peito. Almoçávamos ali em Casa Amarela, no mercado mesmo, onde a massa coral se espalha. A Zona Norte é coalhada de tricolores.
Lembro a primeira vez que fui ao Arruda, e tudo aquilo parecia mesmo destinado a mim. Finalmente, eu estava em casa. Meu pai tinha o clube dele, meu irmão tinha o seu, e tive que seguir minha migração, até encontrar o Santa.
Somente aos 18 anos, descobri onde estava o meu povo, a minha gente, o meu canto, o meu clube. Havia lirismo no Arruda, um poesia naqueles senhores velhos que gritavam "vamos, Santinha". Era a minha casa, na vitória ou na derrota, na alegria ou na tristeza.
Outro dia, descobri que estou completando vinte anos de Santa Cruz. Tenho uma inveja irreversível desses meninos que já nascem e ganham o manto coral, que entram como mascotes junto com o time, ou que simplesmente vão ao estádio ver um jogo do Santa com o pai. Eles não perderam tempo como eu.
Durante 18 anos, estive por aí, zanzando, errando, como um bêbado que vai de bar em bar, buscando aquele seu boteco, onde se sente em casa.
Um dia, em julho de 1987, esbarrei no Arruda, ao lado do velho Almir, e na hora do primeiro gol do Santa, já éramos irmãos.
O Santa, meu boteco, minha cerveja, meu reduto, minha alegria.
Vamos lá, Santinha, levantar a poeira, e dar a volta por cima…
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